
Foi o tempo que duraram as conversações entre as partes, que envolveram negociantes de diversas tendências, por vezes em sintonia por vezes em oposição, com avanços e recuos de agendas, cedências e intransigências de princípios, enterros e ressurreições de procedimentos.
Economicamente abrange cerca de 730 milhões de consumidores, dos quais cerca de 225 milhões (215 no Brasil e 10 em Portugal) falantes de português, com um PIB global de cerca de 15 % do PIB mundial.
Mas talvez mais importante do que isto, é o valor cultural e histórico do processo que abarca os vinte e sete países que constituem a UE, e os – para já – cinco países do sul da América do Sul, Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia.
A inclusão desta última, geograficamente exógena do restante conjunto meridional, é particularmente interessante em termos históricos (do passado) e logísticos (presentes), pois traz para o MERCOSUL o escoamento da sua produção mineral e agrícola através do mar interior da América do Sul, formado pela interligação de lagos e rios, como antigamente acontecia com a prata de Potosi pelas trilhas andinas, a qual permitiu fundar a civilização hispânica no continente, como o açúcar permitiu a civilização portuguesa no Brasil.
O acordo foi pensado, negociado e firmado entre nações democráticas, soberanas e iguais, ao invés dos diktats desafortunadamente em moda, impostos pela força, inclusivamente militar, ao arrepio da razão e do direito.
Os principais constrangimentos ultrapassados, foram sobretudo, o receio sulamericano de ver os seus mercados invadidos pela sofisticação dos produtos europeus, e o europeu, de uma invasão de produtos mais baratos por serem desprovidos dos custos dos controlos de qualidade, segurança alimentar e ambiental, e certificação. E ainda, o desequilíbrio financeiro do preço do dinheiro nos dois mundos do Atlântico, fruto das diferentes taxas de juro praticadas, tornando-o mais barato no velho do que no novo.
Estes obstáculos, que dificultaram as diversas etapas do acordo, foram agravados pelas diferenças de sensibilidade política, e mesmo ideológica, dos negociadores, que rodavam no poder ao sabor dos resultados eleitorais registados sucessiva e alternadamente, em ambos os lados da mesa das negociações. Socialistas e sociais-democratas em Portugal, liberais na Argentina, democratas-cristãos na Alemanha, socialistas de esquerda no Brasil, etc, etc
O trabalho a desenvolver agora pelas instâncias económicas e comerciais, mais do que as diplomáticas e fiscais, será no sentido de esbater assimetrias nos produtos transacionados, um trabalho mais árduo no lado sulamericano, como já vimos, mas indispensável para aumentar a sua fiabilidade, assente em certificações credíveis, compatíveis com as da produção europeia, mesmo que à custa do seu encarecimento.
Para nós leitores do Jornal da Economia do Mar, e amantes dos assuntos do mar, este acordo agora firmado, possui um acréscimo de interesse, pela relevância que irá trazer ao transporte marítimo, transformado numa quase cabotagem entre os portos do sul da América, como Santos, Montevideu, Rio de Janeiro, Itajaí, etc, e os da Europa, como Lisboa, Sines, Roterdão, Barcelona, Le Havre, Hamburgo e outros.
A este transporte oceânico há que acrescentar o expressivo transporte fluvial pelo interior da Europa Central e do continente sulamericano, aqui aproveitando principalmente a rede alagada do complexo Paraná/Rio da Prata, suficientemente importante para dotar o Paraguai da segunda maior frota mundial de barcaças.
Historicamente, e sobretudo pela importância que a navegação marítima assume nele, o atual acordo MERCOSUL/UE, pode ser considerado filho tardio da Carta do Atlântico, assinada pelo Presidente dos Estados Unidos da América, e pelo Primeiro-Ministro britânico, em agosto de 1941, nas águas geladas da Terra Nova, a não muita distância da Gronelândia, que nos seus oito artigos, dedicava o quarto à extinção de barreiras comerciais, e o sétimo à livre navegação dos mares, e neto dos catorze pontos do Presidente dos Estados Unidos da América, base do Tratado de Versalhes assinado no Verão de 1920, que ordenou o mundo saído da primeira guerra mundial e criou a Liga das Nações, os quais (catorze pontos) contemplavam a livre navegação absoluta dos oceanos para lá das águas territoriais, no segundo, e a remoção de todas as barreiras económicas e o estabelecimento da igualdade de condições de comércio entre todas as nações, no terceiro.
Os dois presidentes norte-americanos, em 1920 e em 1941, chamavam-se Woodrow Wilson e Franklim Roosevelt.
O atual presidente americano, substancialmente diferente, possui uma outra visão da governação do mundo, mas não deixará de observar, se não com receio pelo menos com inveja, para aquilo que um grupo de nações bem intencionadas, e nem por isso menos ciosas dos seus interesses, conseguiram fazer utilizando o Atlântico Sul.
Por tudo isto, e por outras razões que não cabem neste despretensioso artigo, longa vida ao acordo entre a Europa e o MERCOSUL.














Finalmente!