
Se ainda fossem necessárias evidências sobre a importância dos portos – no seu sentido mais lato, extensível aos seus acessos, marítimos e terrestres, e às rotas de navegação que os servem – a atual crise política, militar e económica, localizada no estreito de Ormuz, e decorrente do conflito que opõem os Estados Unidos da América e Israel, ao Irão, vem colocar novamente o assunto na ordem do dia.
Parece com isto, contudo, que a preponderância dos portos no conjunto civilizacional, apenas se faz notar e sentir pelos efeitos da sua (dos portos) falta. Nada de mais errado.
No caso de Portugal, que é o que mais nos interessa, os portos, uma vez colocados sob a alçada de visionários, e sobretudo detentores do poder indispensável a sustentar as suas visões, tiveram sempre uma importância primordial na expansão e consolidação do país.
Como Afonso de Albuquerque, que cerca de 1507, por sua própria iniciativa, e igualmente em obediência à estratégia hegemónica de D. Manuel traçada desde Lisboa, decide empreender o nosso estabelecimento ao longo do Golfe Pérsio, e a ocupação e permanência naquele mesmo estreito de Ormuz, por mais de cem anos, entre 1515 e 1622.
Ou como o Marquês de Pombal, que logo nas primeiras horas depois do terramoto de 1755, enuncia o seu programa, tão simples como objetivo, como deviam ser todos os programas:
Enterrem os mortos, curem os vivos e fechem os portos.
Ao que a estes últimos respeitava, serviam as suas ordens para impedir a pilhagem das zonas ribeirinhas, por onde andavam dispersas inúmeras mercadorias, numa altura em que é bom relembrar, a Lisboa do filho do grande D. João V, era um dos mais ricos e importantes portos mundiais, local de entrada e de saída do florescente comércio com o Brasil e o Oriente. E ainda a gestão e controlo das embarcações e a regulamentação do comércio, com a finalidade de obstar ao contrabando e à especulação, e para fiscalizar o fluxo de pessoas e bens, precavendo a segurança interna e o abastecimento da capital.
Não muito tempo depois, a zona portuária, sobretudo a (nova) Praça do Comércio e a Ribeira, foi entendida como nuclear ao plano de reconstrução/modernização de Lisboa, através da edificação de cais, armazéns, estaleiros de construção e reparação naval, oficinas e demais edifícios de apoio.
Desta forma, aquela regulação imediata dos portos, pós-terramoto, acabou por ser decisiva, primeiro para manter a ordem e assegurar a sobrevivência de Lisboa, e depois, na sua pronta e moderna reconstrução.
Já aqui afirmámos que duas caraterísticas sobressaem quando observamos em mapas a configuração dos territórios portugueses, os atuais, e aqueles que já fizeram parte do império: a configuração harmoniosa do solo, e a extensão das suas costas oceânicas.
Estas costas, maioritariamente atlânticas e índicas, deram por sua vez excelentes localizações de portos. Desafogados, abrigados, acessíveis e defensáveis.
Os quase 11 mil quilómetros fazem do litoral brasileiro, um dos maiores voltados ao Atlântico.
Em Angola, vamos encontrar, entre outros, quatro portos notáveis: Cabinda, Luanda, Lobito/Benguela e Moçâmedes. E em Moçambique, uma situação em tudo semelhante: Porto Amélia (atual Pemba), Nacala, Beira e Lourenço Marques (atual Maputo).
A localização e as caraterísticas destes portos, não lhes conferiam apenas importância no comércio marítimo, mas eram igualmente fundamentais na gestão política dos assuntos do Estado, com destaque para a independência e soberania nacional. E aqui, valiam quase tanto pela autonomia que nos conferiam, como pela recusa dessa autonomia aos nossos vizinhos desprovidos de acesso ao mar.
Esta particularidade foi sobretudo importante em África, onde o arranjo territorial da segunda metade do século XIX, o tempo da colonização, acantonou no interior do continente um conjunto de territórios, depois tornados muito justamente países independentes na segunda metade do século XX, o tempo da descolonização, mas que conservaram a fragilidade da privação de mar.
Assim, na minha opinião pessoal, julgo que Portugal não teve razões de queixa do processo de demarcação e repartição de fronteiras, mesmo daquelas traçadas por paralelas rigorosas à linha do horizonte, feito no terreno, e em negociações políticas, diplomáticas e geográficas, desenhadas e ratificadas, à mesa das chancelarias europeias.
Se é certo que tivemos que abdicar das extensas áreas situados entre Angola e Moçambique, maioritariamente constantes do mapa cor-de-rosa, também não é menos certo, que no final nos vimos na posse de dois territórios magníficos, como são aqueles dois, e que deixámos inviolados a dois países amigos e soberanos.
No que respeitou à existência de costas desimpedidas nas nossas áreas, em detrimento das áreas confinantes, adquiriu uma especial importância o caso do Congo e da Zâmbia. O primeiro num acesso muito condicionado ao mar, e o segundo sem acesso nenhum.
No caso do Congo, que já foi Zaire, e hoje é a República Democrática do Congo (RDC), viu a sua existência afetada pela questão do acesso ao rio do mesmo nome, e que esteve na base da realização da Conferência de Bruxelas em 1876, e da Conferência de Berlim, em 1884/1885, sendo este acesso, vivamente reclamado em exclusividade por Portugal, em grande parte fundamentado na ocupação histórica oriunda da chegada de Diogo Cão àquelas paragens entre finais de 1482 e inícios de 1483, mas agora reclamada, e alicerçada na ocupação efetiva, pela chegada àquelas mesmas paragens da Association International du Congo, do Rei Leopoldo II, em 1879, e na sequência da Conferência em Bruxelas, dono (!) absoluto do Estado Livre do Congo, entre 1885 e 1908, passado aos belgas neste ano, e finalmente devolvido aos seus legítimos cidadãos em 30 de junho de 1960.
Como resultado deste frenesim político e geográfico, o país ficou com a sua passagem para o Atlântico bastante excêntrica, assente no porto de Matadi, o maior porto marítimo/fluvial do mundo, e em Bona.
Portugal, condenado nas conferências internacionais a perder o monopólio da entrada do grande rio, ou até mesmo, qualquer contacto com ele, acabou por ganhar a posse de toda a margem esquerda do Zaire, a qual naturalmente foi legada a Angola em 1975.
Quanto à Zâmbia, herdeira e sucessora da antiga Rodésia do Norte, tornada independente da Grã-Bretanha em 24 de outubro de 1964, herdou da mesma maneira o problema da restante Rodésia (atual Zimbabué), que é a total ausência de mar.
A ambos, RDC e Zâmbia, dos países mais ricos do mundo em minérios, com destaque para o cobre, quase que não lhes restou outra alternativa se não exportar as suas matérias-primas pelos portos portugueses do Atlântico ou do Índico, utilizando em acréscimo as nossas linhas ferroviárias, nomeadamente o Caminho de Ferro de Benguela. No caso zambiano, a movimentação das cargas tanto podia ser feita por um ou outro lado dos oceanos, e em optando pelo Índico, também podia realizar-se pelos portos moçambicanos, ou por Dar es Salaam, na Tanzânia (a aglutinação dos nomes e dos territórios do Tanganica com Zanzibar), situação que ainda se mantém, com os investidores estrangeiros das infraestruturas por construir, a preferirem a via do Atlântico, se forem norte-americanos, ou a do Índico, caso sejam chineses.
Atualmente, numa conjuntura de África totalmente senhora do seu destino, a relevância dos nossos antigos portos mantem-se na ordem do dia, e por extensão natural, os seus hinterlands, como os corredores do Lobito e da Beira, numa e noutra costa do continente.
A importância dos portos não muda com as oscilações políticas, e por profundas – utilizando um termo querido do seu próprio vocabulário – que estas sejam, como as que ocorreram no nosso país a meio dos anos setenta do século XX.
Num mundo que parece caminhar para o virtual, a materialização por enquanto permanece insubstituível. Subsiste a importância concreta dos Açores, quando muitos preconizavam a sua obsolescência estratégica militar, ou mesmo inutilidade, face aos avanços tecnológicos (porta-aviões, misseis, drones, etc) do armamento, ou a imprescindibilidade dos cabos submarinos, quando muitos acreditavam que as comunicações na Terra iam passar exclusivamente por satélites no espaço.
Ou ainda a presença de um estreito, que afinal vale por uma amplidão.














Muito obrigado pelo gentil comentário.
Iluminante! De como os portos não perdem importância apesar do tempo…como tão bem foram pensados. Bem-haja Artur. A próxima Revista Militar (a mais antiga do mundo sem interrupção de publicação) haveria de acolher numa próxima oportunidade esta mensagem geoestratégica.