A diabolização das minas ocorrida em Portugal e na Europa, atirou com os seus profissionais para o desemprego, o assunto para as conversas reservadas, impróprias para senhoras, e os seus escritos para a literatura licenciosa, algures no gueto das últimas estantes das bibliotecas e livrarias.

Havia água e luar; podia-se entrar no porto

Victor Hugo, Les Travailleurs de la mer

A diabolização das minas ocorrida em Portugal e na Europa, atirou com os seus profissionais para o desemprego, o assunto para as conversas reservadas, impróprias para senhoras, e os seus escritos para a literatura licenciosa, algures no gueto das últimas estantes das bibliotecas e livrarias.

No meu caso nem tudo foi mau, porque depois de um percurso por empresas de consultoria de gestão e engenharia, em bom tempo acabei por arribar à atividade portuária.

Mas aqui chegado, o meu relacionamento com o mar, que sempre tinha sido de enorme intimidade, alterou-se substancialmente. Passei para o outro lado.

No embate entre a terra e o mar, que vem desde o terceiro dia da criação, estive sempre do lado do mar. A terra era apenas o local de chegada, depois de umas braçadas prazerosas e vigorosas, e onde se amarravam as embarcações, tendo o cuidado de que este procedimento apesar de seguro, fosse mínimo por forma a não causar danos ao barco.

E ao observar uma embarcação deficientemente amarrada, todo o cuidado e preocupação iam para ela.

Mas depois de começar a trabalhar na construção e manutenção de cais e molhes, a minha atenção foi dedicada a estes. Uma embarcação estava mal amarrada a partir do momento em que podia danificar o cais.

O inimigo a abater, ou pelo menos a vigiar, passou a ser o barco. Era ele que estava a mais na harmonia do Universo, e que destoava na paisagem.

Perante a notícia de um abalroamento resultante de uma deficiente manobra, descartado o receio imediato da possibilidade da existência de danos pessoais, toda a apreensão ia para o cais. Em que estado ficou?; os danos são graves?; quem, quando e quanto, vai pagar?…

Uma estrutura portuária começa a degradar-se ainda antes de estar concluída, e a partir daqui a sua manutenção passa por uma evolução constante rumo à consolidação daquela degradação, um estado mágico na engenharia civil a que os da arte chamam estabilização, de onde resulta aquele aspeto que certos cais e molhes apresentam, de tanto poderem colapsar de imediato à nossa frente ou no final dos tempos, às vésperas do juízo final.

E caso deem abrigo a navios com o mesmo aspeto, então fica-se com a ideia de que não existe nada mais contagioso do que a ferrugem.

Uma linha de costa tão retilínea e regular como a que Portugal oferece ao Atlântico, só volta a repetir-se no Chile, mas neste caso com o Pacífico.

Este encontro amplo com o oceano, geograficamente, contém todo o continente europeu, e culturalmente, o Ocidente.

Mas esta cumplicidade com o Atlântico tem os seus custos, feito de dragagens nuns sítios, e recargas de areia noutros, da colocação constante de enrocamento de grandes dimensões (precisamente o mais caro), assentamento de tetrápodes (estruturas modulares de betão) e demais dispositivos que permitam amaciar a fricção permanente do mar com a terra.

É esta conjuntura que impede a proliferação na nossa costa, das abundantes, graciosas e pouco dispendiosas marinas da vizinha Espanha, onde a agitação e a amplitude de marés do Mediterrâneo, permitem o abrigo de embarcações, feitas com pouco mais do que passadiços e pontões.

Resta portanto, aos construtores de obras marítimas, a responsabilidade de arquitetar, contruir e manter, a costa portuguesa, o que eles fazem com um prazer pouco diferente daquele com que em crianças defendiam as suas construções na areia das praias, ou daquele que faz com que alguns engenheiros dos caminhos de ferro, estejam dispostos a pagar do seu bolso a alegria de toda uma vida.

E Portugal tem uma excelente qualidade e tradição neste tipo de obras, durante muito tempo alicerçadas na conceção dos trabalhos a realizar, desenvolvido por prestigiados gabinetes de projetistas de hidráulica, apoiado pelo serviço de modulação do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), uma referência mundial na matéria, e na materialização dos projetos por empreiteiros competentes, em obras complexas, no país, como por exemplo em Douro e Leixões, ou no estrangeiro, como o alargamento da concha de Copacabana, no Rio de Janeiro, ou a restinga do Porto do Lobito, no antigo ultramar português.

Com isto tudo, por se tratar do mar, ainda existe lugar para surpresas.

Conta-se no meio, a estória de uma extensa dragagem numa ilha distante nos mares do Sul, quase por inteiro comparticipada pelo banco mundial, e gerida à distância a partir dos escritórios de uma qualquer metrópole.

Talvez por isto mesmo, quando alguém finalmente reparou que os serviços   administrativos tinham trocado os números das cotas de serviço pelos das quotas de afetação dos pagamentos, já as profundidas alcançadas pela dragagem se abeiravam dos fundos das fossas abissais.

Nota: o presente artigo foi escrito sem recurso à inteligência artificial, e como consequência, quaisquer eventuais erros são da minha inteira responsabilidade.



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