Noticias recentes, oriundas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil, dão conta de que os 38 385 hectares desmatados da Mata Atlântica em 2025, foi 28% menor do que os 53 303 hectares verificados em 2024. Estes números por preocupantes que ainda sejam, vêm premiar um esforço da sociedade brasileira na proteção de um dos seus mais importantes biomas, juntamente com o da Amazónia, do Cerrado, da Caatinga, do Pantanal e do Pampa.

Toda a minha obra é inspirada na Mata Atlântica

António Carlos Jobim

Noticias recentes, oriundas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil, dão conta de que os 38 385 hectares desmatados da Mata Atlântica em 2025, foi 28% menor do que os 53 303 hectares verificados em 2024.

Estes números por preocupantes que ainda sejam, vêm premiar um esforço da sociedade brasileira na proteção de um dos seus mais importantes biomas, juntamente com o da Amazónia, do Cerrado, da Caatinga, do Pantanal e do Pampa.

E são os melhores valores desde que existem os estudos e registos iniciados em 1985, muito por conta do trabalho da SOS Mata Atlântica, uma ONG criada no ano seguinte, com o objetivo de defender a Mata Atlântica, preservando os patrimónios culturais, naturais e históricos, assente num desenvolvimento sustentado, por forma a salvaguardar a sua flora e fauna, abarcando um território de quase 120 000 quilómetros quadrados, salpicado por diversas reservas, as denominadas Unidades de Conservação da Mata Atlântica, e onde ainda é possível conviver com os 24% restantes da cobertura vegetal original da Mata Atlântica.

No distante ano de 1500, a Mata Atlântica ocupava cerca de 1,5 milhões de quilómetros quadrados, qualquer coisa como 15% do território (que não era na altura exatamente idêntico ao atual), com os quais compunha a paisagem familiar do país, aos olhos dos autóctones e dos forasteiros.

Uma das suas caraterísticas, é o contraste entre a sua exuberância vista no conjunto, e a quase fragilidade das espécies observadas ao pormenor. Não possui a pujança das florestas setentrionais de carvalhos nem o viço ralo dos olivais meridionais; afinal não é uma floresta, mas uma mata.

Nunca foi uma paisagem contínua e homogénea, variando em latitude, longitude (sobretudo com a proximidade do mar) e altitude, e consequência destas três condicionantes, é particularmente afetada pelo regime das chuvas, a categoria dos solos e a tipologia dos climas das regiões onde é encontrada, constituindo o seu tipo de vegetação uma das florestas de maior biodiversidade do planeta; mas incompreensivelmente é também uma das cinco mais ameaçadas, pelo grau de devastação a que está sujeita, assente no modelo errado de desenvolvimento económico, no abate para a produção de carvão vegetal, na abertura de estradas de localização duvidosa, numa deficiente urbanização, e na substituição por eucaliptos destinados à produção de pasta de papel.

Este processo predatório adquire um especial significado quando se constata que a Mata Atlântica está distribuída por 17 dos 26 estados (mais o distrito federal de Brasília) da União, e por cerca de 3 500 municípios, onde vivem quase 150 milhões de habitantes, que respondem por mais de 70% da riqueza nacional.

É típica da frente atlântica do Brasil, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, com destaque para o nordeste, sudeste, e sul do território. Entra pela massa continental até ao leste do Paraguai, e alcança a província argentina de Misiones.

A heterogeneidade da sua vegetação, varia entre os vales abertos nas montanhas suaves, sobretudo nas Serras da Mantiqueira e do Mar, até às florestas chuvosas do litoral.

Aqui, é de se notar a massa verde que vinda do alto vai acabar de repente dentro do oceano, de tal forma que não custa imaginar o processo inverso, ou seja, que a vegetação nasce da água e sobe serra acima, como acontece olimpicamente em trechos do litoral paulista, principalmente nos arredores de S. Sebastião.

Ao longo deste território estima-se que existam mais de 20 mil espécies vegetais, sensivelmente metade endémicas, ou seja exclusiva deste bioma.

Na fauna, podem encontrar-se cerca de 850 espécie de aves – o animal por excelência da América Central e do Sul – 370 de anfíbios, 270 de mamíferos, 200 de répteis e 350 de peixes.

No passado, um dos seus grandes inimigos, sobretudo a partir do século XVIII, foi o estrago causado pela mineração do ouro, pela abertura das minas, e pela criação expressiva do gado necessário à alimentação da população que ocorreu ao local vinda de todos os lados da Colónia e de Portugal, e o derrube das árvores – Tom Jobim costumava dizer que o homem assim que começou a descer das árvores começou a derrubá-las – para a indústria naval, para promover a expansão urbana, e já no século XIX, para possibilitar a agricultura intensiva, sobretudo do café.

Mas desse mesmo tempo, ficaram-nos pormenores deslumbrantes de trechos de paisagem expostos nos quadros de pintores/documentaristas como Debret, Rugendas e Frans Post, e nas ilustrações dos diários de campanha de naturalistas como von Martius e von Spix.

Contra aquela presença excessiva da cafeicultura, D. João VI, a reinar Portugal desde o Rio de Janeiro, fornece um impulso notável à Mata Atlântica quando limita e começa mesmo a arrancar alguns pés da planta, como forma de proteger a qualidade e abundância das nascentes e cursos de água que desciam pela Tijuca e abasteciam a cidade, com destaque para o rio Carioca.

Este trabalho seria continuado de forma notável pelo seu neto Pedro II, Imperador do Brasil, e por uma equipa chefiada pelo Major Manuel Archer, a qual entre 1862 e 1875, plantou mais de 100 000 árvores nativas da Mata Atlântica, e que permitem que a Floresta da Tijuca, com os seus 4 000 hectares, permaneça ainda hoje como a maior floresta ou área verde urbana do mundo.

E talvez o Rio de Janeiro seja o seu território por excelência. Pode ser encontrada, para além da Tijuca, nas vertentes do Corcovado – onde um observador atento ainda consegue encontrar pés de café – no Cosme Velho, em Paraty, no Jardim Botânico, na Gávea, nas serrarias suaves do interior do estado, e em Ipanema, nos jardins suspensos das varandas dos apartamentos virados ao mar.

Alertada finalmente a sociedade para a necessidade de acabar com a depredação, nomeadamente através do cancioneiro de António Carlos Jobim, composto de ipê, saíra e traíra, começam agora a aparecer resultados.

Assim, também recentemente a Re.green, uma empresa de restauração ecológica, especializada na recuperação da Mata Atlântica e da Amazónia, anunciou a primeira emissão de créditos de carbono à escala industrial, resultante da reposição de espécies nativas do bioma da Mata Atlântica.

Todo a faina em prol da Mata Atlântica, no passado e na atualidade, permite àSOS Mata Atlântica e ao INPE, prever que o bioma da Mata Atlântica possa até 2030, vir a tornar-se o primeiro no Brasil e no Mundo, a atingir um desmatamento zero, revertendo o processo de destruição de uma floresta tropical.

E nessa altura talvez seja possível ver uma onça pintada, tranquila e majestosamente, a subir ao Pão de Açúcar.



Um comentário em “O lado verde do Atlântico”

  1. Pedro F. Correia diz:

    Muito bem visto, a meu ver. É um património científico também.

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