
Now is the winter of our discontent,
Ricardo, Duque de Gloucester, na primeira cena,
do primeiro ato, da peça Ricardo III, de William Shakespeare
Nos derradeiros dias do século vinte, os três maiores portos do mundo ficavam na Europa: Roterdão, Antuérpia e Hamburgo.
A meio da segunda década do século vinte e um, dos dez maiores portos mundiais, nenhum é europeu.
Uma parte significativa deste êxodo reside na substituição de gente – mais do que homens – por máquinas nos cais, provocada pela desejada e imprescindível rendibilidade do negócio portuário.
Continuando nesta nossa Europa, os portos foram ao lado dos cafés, das universidades, das abadias e dos mercados, os grandes promotores e difusores da cultura e civilização ocidental, um processo resultante da sucessiva integração e transformação, num relacionamento de causa/efeito, da filosofia grega, do direito romano, do humanismo cristão, do renascimento, da globalização provocada pelos descobrimentos marítimos empreendidos pelas duas nações ibéricas, do iluminismo, dos direitos do homem saídos da revolução francesa, e da industrialização.
E os portos ainda tiveram a vantagem sobre os outros agentes culturais, de propiciar o contato de autóctones com forasteiros, impulsionando um cosmopolitismo feito de intercâmbio de ideias, valores, linguagens e experiências. Os navios e as suas gentes, traziam uma cultura e levavam outra, num processo de troca em que ambas passavam a ser outra coisa.
Aqueles valores do Ocidente, fruto das navegações ibéricas, foram transportados para os territórios do outro lado do Atlântico. As revoluções sucederam-se, primeiro com a independência da América do Norte a influenciar a revolução francesa, e depois com esta a influenciar as independências sul-americanas, promovidas por próceres crioulos fortemente europeizados – ou mais precisamente, afrancesados – ou até por legítimos príncipes oriundos das mais importantes monarquias do velho mundo, bem sucedidos como no caso do Brasil, ou desastrosos como no México.
E no velhíssimo mundo a Oriente, os gigantes asiáticos também não conseguiram furtar-se, mesmo que por procedimentos diferentes, a este processo. O Japão foi convidado (ou obrigado) a abrir-se ao Ocidente a partir do momento em que em julho de 1853, uma esquadra norte-americana comandada pelo Comodoro Matthew Perry, entrou e estacionou na baía de Tóquio.
Já na Índia, quase tão importante como os regimentos do Raj, ou as canhoneiras da Royal Navy, para impor a Britannia Rules, foram as leis iguais e únicas – oriundas do direito romano – para todos, primeiro, e os comboios a circularem rigorosamente a horas – fruto da revolução industrial – pelo subcontinente, depois.
A velocidade e intensidade de difusão deste processo cultural, não podia deixar de ser inversamente proporcional ao seu afastamento dos portos, e com o tempo acabou por contribuir, juntamente com outras razões, para o desenvolvimento assimétrico do litoral e do interior.
E naturalmente que dos cais não vinha apenas a mudança, e com esta, o progresso. Vinha igualmente a morte, na forma de guerra trazida por exércitos invasores e de doenças.
Entre 1665 e 1666, a cidade de Londres viu-se a braços com uma epidemia de efeitos devastadores, devido não a bruxaria, mas, soube-se depois, à peste bubónica.
Na altura, as autoridades, quiseram tanto saber qual era o tratamento para os casos, como a sua origem.
Desorientados, tentaram identificar a proveniência maioritária das ocorrências, e de seguida a localização geográfica destas.
A primeira constatação não constituiu de todo uma surpresa. Morria-se mais nos bairros pobres e no meio das ruas insalubres, do que ruas ordenadas e arejadas dos bairros da burguesia.
Então, tomando aqueles como estudo, e aplicando o mesmo método da dispersão geográfica da população afetada, não foi complicado determinar que os casos aumentavam à medida que o emaranhado caótico urbano se aproximava do rio. E nestas áreas ainda, à medida que se caminhava para o cais do porto.
Era dali que a peste e a morte se espalhavam por toda a cidade. E já no cais, depois de uma série de despistagens sucessivas baseada na tipologia dos contatos experimentados pelas vítimas, surgiu finalmente agente assassino.
Eram os ratos, infetados de peste bubónica, trazidos aos milhares pelos navios atracados.
Mas nem sequer acontecimentos como este conseguiram desviar dos portos uma multidão fervilhante de gente de todas as nações, cores e línguas, que viviam do mar; no comércio, nas esquadras militares, na pesca e nas frotas mercantes. Ou apenas da atividade de propiciar a vida desta fauna, como os escritórios comerciais, as pensões de marítimos, agentes de navegação, bordeis, sindicatos de estivadores, tabernas, estaleiros de reparação naval, ramais e apeadeiros de comboios, etc, etc.
Penso que ninguém retratou melhor este imenso bazar persa, do que Álvaro de Campos, um poeta de Tavira e engenheiro naval formado por Glasgow, que entre as duas guerras mundiais, nos deixou a sua visão do que era a vida de um porto, observada muito provavelmente do cimo do cais da Rocha do Conde de Óbidos,
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
…
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente
…
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindaste
E chegadas de comboios de mercadorias
…
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Hoje os cais perdem gente à medida que ganham carga, em função de uma equação que pretende muito saudavelmente aumentar o lucro do negócio portuário.
Mais: quem quiser continuar a escrever sobre aqueles portos que construíram a civilização ocidental, não tem outra alternativa senão recorrer à memória, própria e alheia, ou financiar do seu bolso modelos de gestão românticos e obsoletos.
Começo a preparar-me para o tempo novo, e faço-o entre outras coisas com os versos de Terra devastada de T.S.Elliot.
I read, much of the night, and go south in the winter.
E nem tudo será mau naqueles tempos que se adivinham, porque quando os homens abandonarem em definitivo os portos, vão seguramente trazer consigo os ratos.













