Apesar de não existir nada que nos possa assegurar que o Père Louis de La Trinité tenha entrado no Céu sem sapatos, podemos, no entanto, estar seguros de que morreu descalço.

Georges Thierry D’Argenlieu nasceu em Brest, em sete de setembro de 1889, no seio de uma família burguesa com ligações marítimas, e fortemente apaixonado pelo mar, ingressa aos dezassete anos na Escola Naval, em outubro de 1906.

Em 1911, já se encontra a navegar, e pouco depois participa numa das inúmeras campanhas de Marrocos, que vão atenuar a monotonia que se vive no império colonial francês, neste caso particular no Norte de África.

De qualquer forma, distingue-se ali, e com apenas vinte e quatro anos é condecorado com a Legião de Honra.

A primeira guerra mundial (1914-1918) encontra-o a patrulhar o Mediterrâneo, e em 1915, numa escala prolongada em Malta, vê despoletar-se a sua fé católica, na forma mais participada que pode haver, e nesse mesmo ano é admitido na Tiers–Ordre, sem contudo abandonar o serviço na marinha de guerra.

É promovido, e desempenha diversas funções nos navios da esquadra francesa do Midi, até assumir o seu primeiro comando no La Tourterrele, em 1918.

Com o final do conflito, sente a confirmação da sua fé, agora mais robustecida pelas agruras da vida secular, e observa ainda a possibilidade, agora sim, de uma existência inteiramente dedicada à vida religiosa, feita no recolhimento do Carmelo, tornando-se frade carmelita descalço.

Depois de estudos de teologia no Collège Angélique de Roma, a futura Universidade Pontifical de S.Tomás de Aquino, ingressa em 1920, no Convento de Seine-et-Marne, em Avon, para de seguida completar os seus conhecimentos teológicos na Universidade Católica de Lille.

Foi em Avon, em 1925, que o Comandante Thierry D’Argenlieu, professou os seus votos, tornando-se sacerdote, e passando a ser o Père Louis de La Trinité.

Vive então unicamente para os carmelitas descalços, e em fevereiro de 1932, e com a restauração da Província dos Carmelitas de Paris, contrariando as purgas maçónicas (quando não jacobinas) da III República, o Irmão Luís da Trindade, é nomeado Superior Provençal da Ordem dos Carmelitas em França.

Nesta situação, tem notícia do início da segunda guerra mundial (1939-1945), no primeiro dia de setembro de 1939, uma guerra que começa e termina no mar, com o bombardeamento pela esquadra alemã ao porto polaco de Danzig, e com a rendição do Japão a bordo do USS Missouri, em dois de setembro de 1945, a meio da baía de Tóquio.

Imediatamente mobilizado como oficial da reserva naval, Thierry D’Argenlieu, assume um posto em Cherburg, sendo promovido no ano seguinte a Capitão de Corveta.

Participa muito heroica e ativamente na defesa do arsenal da cidade, até ser feito prisioneiro. Três dias depois evade-se de um comboio em rota para a Alemanha, e consegue alcançar Jersey, de onde embarca a 30 de junho de 1940 para Londres, na peugada do General Charles de Gaulle, que tinha feito o mesmo doze dias antes, recusando-se a aceitar a derrota francesa, e o armistício assinado pelo Marechal Pétain com o inimigo alemão.

Na capital inglesa, habita uma comunidade religiosa, onde é investido da responsabilidade e dignidade de Capelão das Forças Armadas da França Livre, e muito em breve, com a necessária autorização dos seus superiores eclesiásticos, volta ao ativo na Armada, sendo promovido em julho de 1940 a Capitão de Fragata, e nomeado para o posto de Chefe do Estado Maior das Forças Navais da França Livre (FNFL).

Toma então parte em diversas ações, com destaque para o semi-fiasco da invasão de Dacar, na altura nas mãos dos seus compatriotas partidários do regime vencido de Vichy, onde é gravemente ferido, e posteriormente, já restabelecido, nas escaramuças bem sucedidas nos Camarões e no Gabão, e já em colaboração com o mítico coronel, depois general, Leclerc.

Em 1941 é nomeado por de Gaulle primeiro chanceler da Ordem da Libertação, que tem o Generalíssimo como grão-mestre, uma distinção apenas acessível aos muito eleitos entre os fiéis, cargo de que iria abdicar, a seu pedido, dezassete anos mais tarde.

Sucedem-se uma série de missões, quer militares quer políticas quer diplomáticas, em África, no Pacífico, onde é nomeado Alto-Comissário, com plenos poderes civis e militares, e no Canadá.

Aqui curiosamente, numa tarefa de angariação de fundos para a França Livre, os seus maiores obstáculos vão ser colocados pelo Cardeal Villneuve, depois rapidamente ultrapassados.

De seguida, é sucessivamente promovido a Capitão de Mar e Guerra em 1941, a Contra Almirante em 1943, e um ano depois a Vice Almirante.

É um dos protagonistas nas negociações com os Estados Unidos no Norte de África francês, território indispensável para o assalto dos aliados à fortaleza europeia alemã, centrada nos dois desembarques, primeiro no Sul de Itália e depois na Normandia.

Como consequência, em 14 de junho de 1944 está ao lado do General de Gaulle no convés do Le Combattant, que sob o comando do Comandante Patou, transporta o Condestável para o seu primeiro encontro com as praias francesas, quatro anos depois da sua ida para Londres, para continuar o combate contra o invasor alemão. Conforme irá dizer aos microfones da BBC; Ici London, a França perdeu uma batalha, mas não perdeu a guerra.

E está logo atrás de de Gaulle, no desfile triunfal de 25 de agosto, na descida dos Campos Elísios, que marca o encontro de Paris libertada com o seu símbolo da Resistência.

Na França liberta, ocupa os mais importantes cargos. Em abril de 1945 é delegado francês à Conferência de S.Francisco, que lança as bases do novo mundo e da nova ordem, que vai surgir da segunda metade do século vinte até aos nossos dias, e funda a ONU, onde surpreendentemente a França consegue um dos cinco lugares do seu conselho de segurança permanente.

Promovido a Almirante em junho de 1946, é nesta condição que é nomeado em agosto Alto-Comissário e Comandante em Chefe da França para a Indochina.

Na escaldante Indochina a sua atuação ficará marcada por intervenções militares musculadas, e políticas sobrepostas à do Quai d’Orsay, as primeiras com destaque para o conflito em Haiphong, e as segundas, pelo suporte dado a governos locais fantoches, precisamente numa altura em que a diplomacia francesa se encontra em negociações com Monsieur Nguyen Sinh Cung, ou Nguyen Ai Quoc, antigo cozinheiro em restaurantes da Paris dos anos vinte, e que passaria à História como Ho Chi Minh, ou apenas Tio Ho.

De qualquer forma, é substituído na Indochina em março de 1947, quando já se adivinha que o território irá ser desmembrado em Cambodja, Laos e Vietname, e este ainda em Norte (pró chinês e marxista) e Sul (pró ocidental e democrático), e passando posteriormente os norte-americanos a render os franceses naquele pandemónio.

Pouco depois do seu regresso do Extremo Oriente, Père Louis de La Trinité, ou o Almirante Thierry D’Argenlieu, entra para já não voltar a sair no Carmelo, onde em sete de setembro de 1964, morre na cidade onde nasceu, próximo do seu adorado mar.

Foi sepultado na Igreja de Saint-Lucien D’Avrechy com a presença – rara em cerimónias deste tipo – de Charles de Gaulle, que inclusivamente redige o epitáfio registado no túmulo, onde para além disto se pode observar, reservado a muito poucos, a Cruz de Lorena.

Morreu descalço, como os companheiros que piedosa e amorosamente compartilharam a partida do Almirante para a sua derradeira viagem.

Se entrou no Céu descalço, é acabar a nossa estória como começou.



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