Um dos mais inesperados e surpreendes encontros, sem dúvida, entre dois dos mais famosos Capitães da História, ambos, largando as muitas e muito habituais imprecações, para segurarem, cada um, muito delicadamente, o seu estilizado monóculo…

A verdadeira paz de Deus começa, num ponto qualquer, a mil milhas de distância da terra mais próxima

Joseph Conrad, The nigger of the Narcissus

O mundo parou em puro espanto, quando na terceira vinheta da terceira prancheta, de As sete bolas de cristal, o Capitão Haddock apareceu com um soberbo monóculo.

Les 7 boules de cristal, no original, foi inicialmente publicado em folhetins do jornal belga Le Soir, mais precisamente no seu suplemento Le Soir Jeunesse, iniciados em meados de dezembro de 1943 e suspensos dez meses depois, quando o seu autor, Hergé, foi envolvido num processo de colaboracionismo. Continuado em setembro de 1946, ainda em folhetim, mas já na Revista Tintin, foi concluído em abril de 1948, e quase de imediato publicado em álbum pela Editora Casterman, ficando a constituir o décimo terceiro álbum das Aventuras de Tintin.

Anos antes, em 1895, tinha acontecido algo muito semelhante, na altura em que Joseph Conrad surgiu nas ruas de Londres, com o seu chapéu de coco acompanhado de um não menos soberbo monóculo.

Os dois, Conrad e Haddock, tinham acabado de sair dos conveses dos seus navios, por circunstâncias diversas, para adotarem ambos o padrão de comportamento de autênticos gentlemens, no caso, senhores de um belíssimo palacete em Canterbury, no Kent, e do Castelo de Moulinsart, nos arredores arborizados de Paris.

Já (profundamente) inglês, o mar constituía para Conrad aquela saída do quotidiano da ilha, a fuga para fora da geografia, mas simultaneamente para dentro de si próprio, que caraterizou tantos ingleses ilustres. Pode dizer-se que o mar teve para Conrad, o mesmo significado que o deserto teve para o seu amigo T.E. Lawrence, mais conhecido por Lawrence da Arábia.

Joseph Conrad, nasceu Jósef Teodor Konrad Natecz Korzeniowski, em 3 de dezembro de 1857, em Berdychev, na Ucrânia, ao tempo parte integrante do multifacetado império russo, no seio da aristocracia polaca, numa altura em que a Polónia, crescia, diminuía, e mudava de lugar, ao sabor dos interesses dos vizinhos poderosos, e raramente dos seus próprios interesses.

Já o Capitão Archibald Haddock, com antepassados ingleses, talvez escoceses, de uma família com nomes ilustres na Marinha de França, um deles Francisco Cavaleiro de Hadoque, que serviu o Rei Luís XIV ao comando do Licorne, nasceu em Bruxelas, da mina da lapiseira Caran d’ache de Hergé, em 17 de outubro de 1940, nas páginas de O caranguejo das tenazes de ouro, publicado em folhetins no Le Soir Jeunesse, concluído um ano depois, e logo nesse mesmo ano de 1941, passado a álbum.

Na estória, Haddock comanda o cargueiro Karaboudjan, envolvido no tráfico de ópio, escondido em latas de caranguejo em conserva, desconhecido pelo capitão, mantido refém do álcool na sua cabine, pelo pérfido imediato Allan,

Conrad era um amante da disciplina efetiva, sem a qual era impossível a vida a bordo de um navio.

Desdenhava a indisciplina e odiava a disciplina meramente exterior, diz-nos dele Bertrand Russel, que acabou por nos oferecer uma sucinta e excelente descrição do escritor, de quem foi amigo fraterno – ao ponto de lhe oferecer o seu primeiro filho a batizar, e de lhe dar o nome de John Conrad – apesar das imensas diferenças que os separavam e da raridade dos seus encontros.

Ambos legítimos aristocratas, os dois homens, para além da profunda amizade e respeito pelas respetivas obras, quase apenas partilhavam em comum a paixão pela língua inglesa, que Bertrand Russel utilizava nos seus trabalhos filosóficos e matemáticos, com os quais ganhou o Prémio Nobel da literatura de 1950, e Joseph Conrad, em passagens deslumbrantes da literatura inglesa e universal.

À tarde, os homens lavavam as suas roupas e penduravam-nas para secar na brisa pouco favorável, com a languidez pensativa de filósofos desiludidos.

Ou,

Tudo engolido pelo mar, que sabia tudo, e, a seu tempo, revelaria a cada um a sabedoria escondida em todos os erros, as certezas que se escondem nas dúvidas, o reino da segurança e da paz que fica além das fronteiras da tristeza e do medo.

Bertrand era neto de Lord John Russell, duas vezes primeiro-ministro da Rainha Vitória, em gabinetes liberais, o que lhe permitiu entre outras coisas traçar um apurado retrato do grande político inglês do século XIX, William Gladstone, que era visita frequente da casa dos avós.

Pelo seu lado, Joseph Conrad provinha daquela aristocracia complicadíssima que ornamentava o vasto e complexo mundo que se estendia para lá da Porta do Bradenburgo, até quase aos confins da Ásia, até às planícies dos grandes cãs tártaros.

Aquela amada disciplina objetiva, prática e necessária, ia encontrá-la na marinha mercante, e mesmo possuindo um imenso respeito pela Royal Navy, não deixava de ser crítico do seu formalismo sensível à (sua odiada) política, que se vivia na insigne instituição.

Numa das passagens de um dos seus melhores romances, deixa-nos esta minúcia deliciosa:

Ao seu lado, o pequeno e corpulento marinheiro das velas – e que tinha estado na Marinha de Guerra – relatava, entre fumaças do seu cachimbo, histórias impossíveis sobre almirantes.

Relativamente ao socialismo, tinham ideias e propósitos distintos. O filósofo pugnava pela sua disseminação democrática e reformadora na sociedade, na cultura e na política, materializado no programa e comportamento do partido trabalhista, herdeiro do liberalismo whig, e o romancista via no socialismo a derrota do homem, da sua individualidade e das suas responsabilidades, às mãos do coletivo irresponsável e anónimo.

A única coletivização admitida por Conrad, era a das tripulações dos seus navios, irmanados pelo objetivo comum de chegarem ao destino determinado, e que eram por excelência os homens portadores da tragédia.

Os outros homens, são os da terra. Os que se escondem sob a vida pública. Esta transição da quase transcendência da vida do mar para a vulgaridade da vida em terra, é nos oferecida por esta passagem deslumbrante.

Não voltei a vê-los. O mar levou alguns, os barcos a vapor levaram outros, os túmulos da terra responderão pelos restantes. Singleton levou com ele, sem dúvida, o longo registo do seu trabalho fiel para as profundidades pacíficas de um mar hospitaleiro. E Donkin, que nunca trabalhara decentemente um só dia na sua vida, ganha, sem dúvida, o seu sustento discursando com uma eloquência suja sobre o direito da existência do trabalho. Assim seja! Que a terra e o mar tenham, cada um, a sua parte.

Contrariando o contrato social do iluminismo de Rosseau, Voltaire e Montesquieu, para Conrad, ainda segundo Russel, o homem nasce acorrentado, mas pode libertar-se. E do entendimento que possuo da sua obra, penso que esta libertação, provinha da elevação moral, encontrada no bojo dos navios.

A quebra destes valores, e as consequências que isto acarreta, pode ser lido e entendido nos seus livros.

Em Lord Jim (1900), é o abandono prematuro do navio SS Patna, e dos seus passageiros por parte da tripulação, aterrorizada pela possibilidade de naufrágio. Recuperado intacto dias depois, o sentimento de culpa vivido por um jovem aspirante a oficial, que integrava a tripulação desertora, e que passa a conviver com a sua desonra, só encontra expiação no gesto redentor ao serviço do povo de um território muito ao Sul.

O seu horror ao anonimato, enquanto alibi para a renúncia à responsabilidade, e o desprezo pelo Leste, sobretudo o mais profundo, e principalmente à Rússia, eterno opressor, da suas Polónia e Ucrânia, por mais ténue que fosse o seu vínculo àqueles territórios, os dois conjugados, estão na base do fascinante romance O agente secreto (1907) para mim, porventura o seu melhor livro, a par de O negro do Narciso, (1897), um passado exclusivamente em terra e o outro no mar.

Na primeiro Conrad expõe não apenas a ameaça que constitui o estrangeiro para a sua querida Inglaterra, e aqui está em sintonia com qualquer inglês, mas sobretudo, que essa ameaça provém de um movimento terrorista secreto (anónimo) alimentado por uma embaixada eslava (a Rússia).

Em Heart of Darkness (1889), na tradução portuguesa, Coração das trevas, que inspiraria muitos anos mais tarde, em 1979, o filme Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla, é novamente em nome do anonimato que o Rei Leopoldo II da Bélgica, perpetra os seus crimes no Congo, a coberto da Société Anonyme Belge pour le Commerce du Haut-Congo.

Já no O negro do Narciso, na minha opinião pode ser encontrada a melhor descrição de uma tempestade no mar, e umas tantas páginas mais à frente, em contraste, a doçura de um regresso a casa, ao porto desejado, seguido da atracação, e do final da viagem e do livro.

Quanto ao Capitão de longo curso Haddock, passa de um alcoolismo quase dependente, ao longo dos álbuns seguintes, para um simples apreciador de um bom trago de Loch Lomond, à exceção de um rum da Jamaica, com duzentos e cinquenta anos, recuperado do fundo do mar em O Tesouro de Rackham, o Terrível, até chegar a ser nomeado presidente da Liga dos Marinheiros Anti-alcoólicos, na aventura A estrela misteriosa.

Debaixo de uma torrente de palavrões, minuciosamente identificados e codificados, num livrinho precioso intitulado Dicionário ilustrado dos insultos do Capitão Haddock, de Albert Algoud, esconde-se, sob a catadupa de nomes feios – mas nunca ordinários – um verdadeiro cavalheiro cristão.

A recuperação do tesouro do flibusteiro Rackham, o Terrível, roubado por sua vez, numa guerra de corso ao Cavaleiro de Hadoque de bordo do Licorne, num dia de 1598, a meio da rota da Ilha de S.Domingos, nas Antilhas, para a Europa, e descoberto, não como seria previsível, no fundo do mar, mas na cripta do Castelo de Moulinsart, faz de Archibald Haddock um homem rico, Senhor que passou a ser do Castelo de Moulinsart, e que tinha pertencido à família, oferecido pelo próprio Luís XIV ao Chevalier de Hadoque.

É então que na aventura seguinte, As sete bolas de cristal, o Capitão aparece vestido de cavaleiro e com um monóculo entalado no olho direito.

Mas um conjunto de peripécias acaba por levar os nossos personagens – Professor Girassol, os Dupond e Dupont, e Tintin e Milou, naturalmente – até à América do Sul, ao Peru, e Haddock a mandar às urtigas as suas maneiras pretensamente aristocráticas, e a aparecer de rompante, com o seu imortal traje de Capitão, com o casaco e camisola azul com âncora, boné, cachimbo, e claro, o saco de marinheiro ao ombro.

Conrad ingressou na vida marítima e na marinha comercial, em 1874, servindo quatro anos na marinha francesa, e o restante tempo sob o pavilhão glorioso da Red Ensigne, ocupando todos os lugares a bordo, em diversos navios, incluindo os soberbos e velozes clipper, do comércio do chá, por todo o mundo, até alcançar o comando do Otago, um elegante três mastros, entre 1888 e 1889.

Dessas viagens à volta da Terra líquida, ficaram-nos descrições deslumbrantes.

Em seguida, as escotas foram puxadas, as vergas erguidas, e o navio transformou-se numa pirâmide alta e solitária, deslizando, brilhante e branca, através da neblina iluminada pelo sol. 

Quando em 1894 abandona o mar, por problemas de saúde e manifesto desinteresse pela navegação a vapor, depois de exatos vinte anos de navegação, retira-se para o campo, seguindo o exemplo do Comandante do Narcissus:

…desejava acabar os seus dias numa casinha, com um bocado de terreno – bem no campo – e de onde não pudesse ver o mar.

Depois de viver em algumas casas, adquire um sóbrio e belo palacete em Canterbury, no Kent, onde vem a falecer em três de agosto de 1924, provavelmente de ataque cardíaco, ficando sepultado no cemitério local.

O Capitão Haddock é o terror dos biltres, o amigo dos desfavorecidos, o destruidor dos convencionalismos, que fustigava sem hipocrisias, com palavrões e golos de uísque

Já entre Conrad e Haddock, o que existe a uni-los, é o altruísmo, trágico no primeiro, e cómico no segundo, e sobretudo o código de cavalheirismo alicerçado no desafio do mar.

E também a torrente de palavrões, liga os dois comandantes de monóculo.

Através de um dos seus personagens, Joseph Conrad explica-nos a utilidade da transgressão, o seu secreto (para os não iniciados) funcionamento.

Aproximou-se de nós e chamou-nos muitos nomes feios, mas fê-lo de um modo cordial e digno das tradições de um homem do mar.

Juntos, Joseph Conrad e o Capitão Haddock, pertencem à mesma e imensa confraria, que une através do mar isento de fronteiras, toda uma tribo à qual pertence um querido amigo meu, precisamente de uma confraria marítima, que à pergunta sobre o que é que achava da Terra, não hesitou:

A Terra? Um lugar interessante para amarrar barcos



Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

«Foi Portugal que deu ao Mar a dimensão que tem hoje.»
António E. Cançado
«Num sentimento de febre de ser para além doutro Oceano»
Fernando Pessoa
Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.
Vergílio Ferreira
Só a alma sabe falar com o mar
Fiama Hasse Pais Brandão
Há mar e mar, há ir e voltar ... e é exactamente no voltar que está o génio.
Paráfrase a Alexandre O’Neill