
Da Maritimidade da Língua
“En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
ai mia senhor velida! (…)”.
João Zorro (n.1250) Cantiga (excerto)
As nossas aventuras existenciais atravessam o fluído sal de mar, lançando-nos em águas do ser-mar. Não nos guia ele, porque não há nele mesmo, senão em nossa memória humana, trilhos, caminhos, passagens, senão grossas correntes com ventos, que obrigam a rota. Apenas nossas memórias experimentadas nos indicam, de geração em geração, modo e sentido. O mar apresenta-se-nos como abismo e como natureza em jardim de flora e fauna espantosamente diferenciada do homem tão intimamente ligado à terra. É ele um ser outro um mundo outro, porém, connosco e em nós também.
Contudo, nós nos dizemos marítimos, pela história, pela cultura, pela poesia, e por património marítimo, ainda a desvendar, a conhecer, a guardar e a cultivar. Além da história a rememorar, e, das responsabilidades que transportaremos para as gerações futuras, dizemos algo mais, algo que apenas onde Arte pode indicar, pois dizemos que o mar está-nos «no palato como estigma», dizemos que esta:
(…) É uma nação única de memória do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olho lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.
Fiama Hasse Paes Brandão
«Foz do Tejo, um País» (excerto) in Cenas Vivas,
Lisboa, Relógio D’Água, 2000 (1997)
E dizemos dialogando com o mar:
«(…) Dialogo com o mar, que sempre soa
para quem carnalmente habita a costa,
neste habitar de raiz que inclui
nascimentos e mortes de parentes,
ouvintes todos por adaptação
da espécie à ondulação dos tímpanos.
(…) Soube assim que a água do meu corpo
Se harmoniza com a água do mar
De acordo com o Ritmo que nos rege.»
Fiama Hasse Paes Brandão
«Canto do Ecocardiograma» (excerto) in Cantos do Canto,
Lisboa, Relógio d’Água, 1995 (1993
Ou temos Gomes Leal a escrever-lhe cartas de amizade:
«Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Coração sempre lírico, choroso,
Eterno visionário, meu amigo! (…)»
«Carta ao Mar» (excerto)
in Claridades do Sul (1875)
Mem Martins, Europa-América, 1999
O mar está na sonoridade e sabor desta Língua como em nenhuma outra; como Vergílio Ferreira afirmamos:
«Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.»
Excerto do texto «A Voz do Mar» (excerto), lido por Vergílio Ferreira em 1991, na cerimónia em que lhe é atribuído o Prémio Europália (Bruxelas).
Com Armando Côrtes-Rodrigues o trazemos por dentro:
«Sou mar, sou onda sou espuma ao vento
Pela crista das vagas a quebrar…
Trago dentro de mim o teu talento
Neste destino que nos liga, ó MAR !
O mesmo ardor, o mesmo sofrimento,
A mesma inquietação, que não é sem par,
A mesma voz que brada e que é tormento
De só se ouvir e não poder calar.
A mesma mansidão adormecida,
A mesma ansiedade renascida
No incessante ardor do coração. (…)»
«Sou mar, sou onda sou espuma ao vento» (excerto) in
Planície Inquieta: Poemas de uma Ilha Distante,
Vila Franca do Campo, Ilha Nova, 1987
Com Afonso Lopes Vieira está conjugado ao sangue:
«Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.»
E, com Luís Manuel Nava ao corpo:
«O mar (…) é uma decalcomania que não podemos arrancar sem que atrás fique o nosso próprio corpo em carne viva».
Luís Miguel Nava [ rebentação ] (excerto) & etc, 1984
Muitos outros autores portugueses partilham estas inclusões de nós com o mar, própria aos homens litorais desta Língua. Não só o mar está na história coletiva dela, ligada em peleja registada desde 1180, na poesia cedíssima, mas também pela nossa ampla e intensa conversação poética ao mar e com o mar, nós os humanos nos abismos e fúrias do mar, em suas bonanças, visitando-o vitalmente com assiduidade, como se ele fosse nossa raíz, integrando-o como correlato e cognato da vida humana, elaborando a claramente vista humanidade na diferença e na participação do semelhante. Ele, mar, é pois acessível a estes Marítimos de Língua, como eles os são a si mesmos por ele! Mesmo quando ele mar nos é perigoso e indiferente não deixa de revestir-se com alguma luz… que ao nosso pensamento surge como que se houvessemos tocado de nós alguma transcendência em nós:
O mar vive numa solidão completa,
Alheado do formigar de nossa labuta
Que tem a haver o mar
Com as ruas onde os homens vivem?
Mas é nosso também o mar que nos cumpre,
Seduzidos vamos ao mar
Ao mar cego e revestido de nudez
Grandeza de todas as possibilidades,
De todas as nossas fraquezas e forças.
Porém o mar não tem apegos,
Corre num touro e arremete com bravura
E é doce e melancólico para ninguém:
Neste exercício, nesta sua dança solitária
Dança de metamorfoses, que é seu corpo e modo,
Contém em seu ilúcido jogo permanente
O gratuito do que é perfeito.
Vitorino Nemésio perspetiva-nos o mar visto da ilha como um mar que lhe é familiar. Faz o gáudio das crianças nele e com ele brincando, como também urge-lhe a ele homem, e por emoção claustrofóbica, a enorme amplitude-horizonte indefinida que o rodeia. Todavia, paradoxalmente, é ele, o mar que o envolve, também a viagem de saída dessa emoção de ilhéu em casulo.
Nestes termos que acima refiro, eis-nos perante alguns aspetos de nossa intimidade marítima da Língua, este património além mesmo dos falantes dela, pois a nossa diferença humana e interpretativa, o nosso potencial interpretativo poético, nunca se distancia tão completamente até à incompreensão. Mesmo quando se considera a sua separação da terra como seu limite…, o mar sempre cruza e descobre o próprio espírito humano como espelho ou distintivo, como diferença e semelhança.
No extremo, tanto dele nos maravilhamos que, com Vasco Graça Moura, assertivamente se mostra a ímpar cultura de mar em nós:
«(…) tudo é insuportável
menos o sol e o mar (…)»
in «praias» (excerto), Antologia de Convívios, Porto, Asa, 2002.
E, das praias…, que são do mar e nossas, pode nascer um absoluto como praia absoluta:
De todos os cantos do Mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exaltação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
Sophia de Mello Breyner Andresen, «Mar» in Antologia, Moraes Editores, 1975
Desta mesma autora há uma inscrição, não publicada em vida, e certamente de última inspiração, celebrando a existência mesma do mar em nós num voltarei (!) que, se o leitor e a interpretação permitem, tem sabor providencial:
«Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar»
E a fechar, do autor:
O mar vive numa solidão completa,
Alheado do formigar de nossa labuta
Que tem a haver o mar
Com as ruas onde os homens vivem?
Mas é nosso também o mar que nos cumpre,
Seduzidos vamos ao mar
Ao mar cego e revestido de nudez
Grandeza de todas as possibilidades,
De todas as nossas fraquezas e forças.
Porém o mar não tem apegos,
Corre num touro e arremete com bravura
E é doce e melancólico para ninguém:
Neste exercício, nesta sua dança solitária
Dança de metamorfoses, que é seu corpo e modo,
Contém em seu ilúcido jogo permanente
O gratuito do que é perfeito.













