Recentemente, o homem alcançou mais uma vez um feito notável, a aterragem do robot Perseverance em Marte. No entanto, muitos questionaram o investimento deste projecto, que poderia ser dirigido para a Terra.
Hyundai Heavy Industries

Recentemente, o homem alcançou mais uma vez um feito notável, a aterragem do robot Perseverance em Marte. No entanto, muitos questionaram o investimento deste projecto, que poderia ser dirigido para a Terra. Por exemplo, e entre várias possibilidades, para a exploração do mar.

Sendo os recursos naturais cada vez mais escassos em terra firme, inclusive recursos naturais usados na fabricação de alguns dos produtos tecnológicos que fizeram com que o Perseverance desembarcasse precisamente em Marte, é importante focarmos a nossa atenção na descoberta do manganês, ferro, cálcio, etc., mas também nas reservas dos nódulos polimetálicos, recursos minerais fundamentais na produção de painéis solares, baterias e artefactos laboratoriais, apenas algumas das benesses que o fundo do mar oferece à humanidade, recursos que, inexplicavelmente, não são devidamente explorados como seria natural acontecer.

Os especialistas acreditam que estes recursos presentes em terra firme mas também no fundo do mar terão um impacto fundamental nas economias mundiais no futuro próximo, inclusive para a própria indústria aeroespacial, ávida de ter no seu poder baterias com maior eficiência e durabilidade, por exemplo.

É verdade que aqui e ali já vemos movimentações de empresas e fundos de investimento nesta solução, mas algo realmente ténue se compararmos, por exemplo, com o investimento que a NASA prevê agora para Marte, que ronda os 2,9 mil milhões de dólares segundo a The Planetary Society (e de salientar que a Perseverance é apenas a sétima mais cara da história do programa de exploração espacial norte-americano e a terceira tendo como destino Marte, atrás da Viking 1 e 2, de 1975, e da Curiosity, de 2011).

A verdade é que, entre o espaço e o mar, a humanidade parece mais voltada para o primeiro, ignorando de certo modo a última fronteira da Terra, o oceano profundo.

Segundo um recente artigo da BBC, 30 licenças para a exploração do fundo do mar já foram emitidas pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), organização internacional fundada após uma convenção das Nações Unidas sobre o tema. No entanto, não há «nenhum contrato vigente concedido pela ISA para a exploração efectiva dessas áreas, com retirada de recursos», revela a cadeia pública britânica.

Mas tal não significa que não haja exploração no fundo dos oceanos. Por exemplo, a maior empresa de diamantes do mundo, a De Beers, investe hoje milhões de dólares na costa da Namíbia, concretamente numa operação de mineração marinha de diamantes que opera a 120 metros pés abaixo do nível do mar. É lá que são encontrados e extraídos os diamantes mais valiosos do mundo nos dias de hoje. Sim, diamantes e estão localizados no fundo do oceano.

Num mercado onde a matéria-prima escasseia a olhos vistos em terra firme, com a indústria da mineração a cortar custos e a despedir milhares de funcionários, a De Beers poderá ter encontrado nos oceanos a estabilidade necessária para o seu futuro, muito embora ainda seja um mistério os danos ambientais que tal prospecção poderá provocar.

Enquanto a empresa defende que o impacto ambiental é menor comparado com a mineração em terra, a advogada do Center for Biological Diversity, Emily Jeffers, referiu ao Wall Street Journal que «não há muito conhecimento sobre o impacto destas técnicas». Ressaltou ainda o seguinte: «Sabemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre o fundo do oceano.»

Esta é a grande questão que pretendo destacar. Entre o espaço e o oceano, acreditamos que o fascínio do Homem pelo que o envolve é muito superior ao demonstrado pelas suas conquistas marítimas de investigação. Se colocarmos nos pratos de uma balança a mediatização de um feito alcançado no espaço e outro nos oceanos, teremos facilmente um prato mais “pesado” do que o outro, como se fosse menor a “conquista” dos oceanos em comparação com a conquista do espaço.

Não podemos desvalorizar o enorme feito da Humanidade por chegar a Marte, mas temos de reconhecer do mesmo modo conquistas alcançadas em relação aos oceanos, um território que infelizmente continua a ser um grande mistério para o Homem.



2 comentários em “Conquistar o espaço tem mais valor que conquistar os oceanos?”

  1. Fernando Fonseca diz:

    Concordo.
    O mar e os seus fundos carecem de mais atenção pela sociedade, pelos governos e pelas empresas.
    Em Portugal, muito pouco tem sido feito, para além da extensão da plataforma continental.

  2. Pedro Correia diz:

    “Não podemos desvalorizar o enorme feito da Humanidade por chegar a Marte, mas temos de reconhecer do mesmo modo conquistas alcançadas em relação aos oceanos” 100% em acordo consigo Jacqueline Martins da Silva.Bem Haja!

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