É tempo de um interregno, de um muito meditativo interregno. Mais do que merecido, eventualmente, necessário, porque um excesso de envolvimento na acção tende sempre a conduzir a uma perda de perspectiva das razões da acção para acabar por se ficar completamente dominado pela mesma acção, tudo se perdendo, talvez, numa embriaguez de acção sem qualquer sentido já senão persistir, sem qualquer razão, já também, na mesma embriaguez de acção. Por isso mesmo importa, ciclicamente, parar, para refrescar.

É tempo de ócio.

Tempo de comtemplar o mundo, simplesmente, no campo ou na praia, de cada um ficar a sós consigo mesmo e meditar, por momentos, quanto, entre tantos e tão indizíveis horrores que o mundo conhece, um fundo de indizível beleza, de bondade e esperança sempre subsiste também.

Por mais paradoxal que seja, ou se afigure ser, assim é realmente o mundo.

Assim é realmente o mundo?

Que mundo?

Um mundo que entendemos ser mundo independente de nós?

Há mundo independente de nós?

Os Gregos sabiam a importância e o valor do ócio, e não por acaso referia-se Aristóteles com desprezo aos autómatos que surgiam nas feiras porque sabia que «aos homens não basta terem pensamentos mortais»…

Sabiam os Gregos, como sabia Pessoa, a importância do ócio porque, se «os homens nascem para serem livres, vários e ociosos», como afirmava também o nosso Ernesto Palma, é o ócio o momento decisivo por excelência de libertação da imaginação, «o factor divinizante no homem», como sublinhava igualmente o não menos nosso Álvaro Ribeiro, ou seja, o momento decisivo dado ao homem para cumprir a razão porque veio ao mundo, a este sempre tão estranho quanto extraordinário mundo: para o pensar, e pensando-o, fazer ascender o mundo na escala da perfectibilidade para que o mundo veio a ser o mundo que é.

Distintos, os Romanos, homens práticos, homens de acção, deixando estradas e pontes espalhadas por todo o seu Império e que, mais de dois milénios mais tarde, ainda são percorridas e atravessadas pelas mais desvairadas e apressadas gentes deslocando-se nos seus mais sofisticados veículos movidos a cada vez mais subtis fontes de energia.

Não por acaso, por isso mesmo, foram os Gregos a Pátria da Filosofia e os Romanos do Direito.

E nascendo a Cristandade da herança de uns e de outros, na tensão entre Marta e Maria terá sempre vivido também.

E nós?

E nós, indiscutíveis herdeiros também dos mais antigos Celtas, talvez inteiramente não tenhamos esquecido as palavras de Breno, sorrindo, às portas de Delfos, «Para que necessitam os deuses de ouro se o prodigam aos homens?», como nos diz Diodoro Sículo, lembrando sempre que o ouro, ou as riquezas, que prodigam os deuses aos homens, como Breno bem sabia, são sempre de carácter espiritual e não material, ainda sabemos hoje quem somos, que queremos ser?

Que Nação, expressão material dessa entidade espiritual que é Portugal, como afirmava Teixeira de Pascoaes na sua belíssima Arte de Ser Português, queremos, realmente, afinal ser?

Sim, precisamos de ócio, de um tempo de interregno, para olhar o mar, os campos, as montanhas, e meditarmos, deixando libertar-se a imaginação para que, alando-se sem freios etéreo fora, nos permita ver o que a servidão dos dias sempre nos oculta.

Não por acaso.

Não por acaso, na nórdica obsessão dos dias pelo trabalho, pela produtividade, pelos resultados, pela eficiência, pelo vá-se lá saber que mais de imediatamente tangível, mesurável, sabendo todos o exacto preço de tudo e não reconhecendo já o valor de nada, como diria Wilde, é o ócio, o tempo próprio, que primeiro se sacrifica sempre.

Não por acaso.

Não por acaso porque pensar requer tempo, como necessário é tempo à crescente perfectibilidade que todos buscam, ou deviam buscar, à crescente singularização que a todos importa, ou devia importar, afirmar, a individuação a todos dado a realizar.

Não por acaso, a impossibilidade, cada vez mais patente, de real ócio.

Não por acaso, a organização para todos, desde a mais tenra idade, de organização dos «tempos livres», não vá alguém ter a veleidade de descobrir e querer beneficiar da graça do verdadeiro ócio, eximindo-se assim à mais negra servidão a que todos hoje estão destinados.

Sim, necessário um tempo de interregno, um tempo de ócio.

Porque «o homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas o obreiro de um mundo a fazer», como advertia igualmente o igualmente muito nosso Leonardo Coimbra, para quem, sendo «toda a realidade penetrada de pensamento que sempre a excede», não deixava esse «fazer» de pressupor, evidentemente, sempre primordial «pensar», sem que se possa aceitar como arbitrária a ordem dos factores.

Sim, importa um tempo de interregno, um tempo de ócio.

Ou Portugal tem um «Propósito» ou não tem propósito nenhum.

Se não tem «propósito» nenhum, então é fácil, fechemos a porta e vamos gozar a vida para outro lado.

Mas não sendo assim, crendo, como absolutamente é crível, ter Portugal um «Propósito», ou já teria desaparecido, importa compreender que «Propósito» seja esse e como podemos, cada um, na medida da sua humildade, contribuir para a sua realização.

Porém, agora é tempo de interregno, é tempo de ócio…

Até Setembro, retemperados, com a esperança que o destino assim o determine ­_ como esperamos que assim o determine…

… sabendo também estar esse «Propósito», para nós Portugueses, para sempre indelevelmente ligado ao Mar.



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