Mais horas de voo e por menor custo do que tecnologias concorrentes

O CrossOver é o mais recente projecto integrado na secção de Economia do Mar da BGI (Building Global Innovators), a sociedade não lucrativa que se dedica à aceleração de empresas, e que já integrou as propostas Fibersail, Ugen e Seazyme, que oportunamente divulgámos neste jornal. Embora não tenha arrancado nesta secção, o CrossOver passou a incluí-la, na sequência da sua evolução na BGI.

O projecto consiste numa “plataforma aérea altamente eficiente que pode ser pilotada ou controlada remotamente”, conforme nos esclareceu Luís Abreu, um dos seus responsáveis. De acordo com o mesmo, “foi desenvolvida uma monitorização híbrida que, aliada a uma elevada eficiência aerodinâmica, permite ao CrossOver voar ininterruptamente 100 horas, ou seja, quatro dias e quatro noites”. A título de comparação, Luís Abreu, segundo o qual “um longo tempo de voo é essencial para uma vigilância permanente”, refere que “as plataformas de referência mundial Predador e Hermes conseguem, no máximo, voar de 25 a 35 horas”.

Em 2012, Teófilo Leite, também conhecido por Tom Leite, o promotor principal, referia ao “Jornal de Notícias” que “este modelo apresenta dezenas de mecanismos escondidos na cinemática do sistema morphing (asa de geometria variável); os motores escondem-se na fuselagem e são retrácteis em voo; é um modelo eléctrico na transmissão e propulsão”. Com aerodinâmica concebida pela Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, este aparelho caracteriza-se também pela ausência de ruído, facilidade de acesso ao habitáculo (se tripulado), possibilidade de asas telescópicas e por uma envergadura de 15 metros, que pode passar a 9,40 metros durante o voo.

 

Concorrência e mercado

 

O Predador, da General Atomics, norte-americana, e o Hermes 900, da Elbit, israelita, são, aliás, os grandes concorrentes deste projecto, mas têm a desvantagem do custo total da sua posse (Total Cost of Ownership), na opinião de Luís Abreu. De acordo com o responsável, “a aquisição do Predador custa 20 milhões de euros e tem um custo estimado de 3.500 dólares americanos por hora de voo”. Face a este encargo, o Governo dos Estados Unidos, que dispõe de 12 destas unidades para vigiar a fronteira com o México, apenas utiliza seis. Quanto ao CrossOver, tem um custo/hora de 350 euros e um custo de aquisição estimado 20 vezes menor, além de ser quatro vezes mais resistente.

Até agora, em cinco anos, o projecto consumiu cerca de 500 mil euros de investimento, realizado por Teófilo Leite. E para a próxima fase de investimento, “precisamos de 200 mil euros”, que neste momento a equipa do projecto procura angariar no âmbito da BGI, designadamente, a nível internacional, a par de uma rede de contactos. Este valor constitui apenas “um financiamento-ponte de nove meses”, durante os quais a equipa quer realizar dois test-runs e preparar a ronda seguinte de financiamento.

Num mercado mundial de vigilância e reconhecimento marítimo que vale cerca de 14 mil milhões de dólares (cerca de 13 mil milhões de euros) e pode crescer para 21 mil milhões de dólares (19,5 mil milhões de euros) até 2019, no qual Portugal gasta aproximadamente 140 milhões de euros por ano, segundo Luís Abreu, a tecnologia CrossOver permitiria poupar 49 milhões de euros anuais.

 

Interesse nacional e internacional

 

Segundo Luís Abreu, o projecto foi uma ideia original de Teófilo Leite, seu amigo de há 35 anos, que em 2000 decidiu construir um avião eléctrico com determinadas características, por não encontrar nenhum que lhe agradasse no mercado. Hoje, os dois formam a equipa, juntamente com Ângelo Araújo, licenciado em Engenharia Electrónica pela Universidade do Minho. Luís Abreu também é licenciado pela Universidade do Minho, em Engenharia de Computadores, e lançou-se nas startups tecnológicas em 2001, tendo adquirido desde então experiência na matéria. Teófilo Leite, licenciado em Engenharia Mecânica pela Universidade do Porto e com ampla experiência empresarial, completa a equipa.

Além do espírito empreendedor, os três identificaram nesta matéria uma oportunidade de negócio. Conforme nos referiu Luís Abreu, “existe uma necessidade a nível mundial de drones capazes de vigiar grandes áreas com um custo reduzido e as soluções actuais têm um custo elevadíssimo, sendo que a sua utilização em cenários não militares tem sido um fiasco”. De acordo com este engenheiro, “mesmo depois de toda a despesa que se faz em vigilância marítima, continua muita coisa por detectar no mar”.

A Marinha portuguesa parece ter-se apercebido do interesse do projecto e mantém uma parceria com o grupo, permitindo-lhe realizar voos de teste. “E querem mostrar aos americanos que temos uma tecnologia melhor”, referiu numa apresentação pública. A tecnologia utilizada também não terá passado despercebida no estrangeiro, pois o IEEE (Institute of Electrical and Electronics Engineers), considerada a maior associação técnico-profissional do mundo, composta por engenheiros, cientistas e outros profissionais associados, já a considerou “uma das dez mais inovadoras plataformas eléctricas mundiais”.

Luís Abreu adianta ainda outro benefício agregado ao projecto, orientado para a realidade actual. “O nosso produto e tecnologia permitiriam salvar milhares de vidas no Mediterrâneo, através de uma vigilância constante e economicamente viável”. Acrescenta também que o CrossOver permitiria a detecção de pequenas embarcações e “até a entrega de uma embarcação salva-vidas auto-insuflável”. Deste modo, “tragédias, como a da criança curda que apareceu afogada numa praia da Turquia, poderiam ser evitadas”.



3 comentários em “Um drone mais económico”

  1. rui Rodrigues diz:

    Quando e que a inventividade dos portugueses será apoiada e colocada ao serviço de Portugal?

  2. FSDFSDF diz:

    Deste modo, “tragédias, como a da criança curda que apareceu afogada numa praia da Turquia, poderiam ser evitadas”

    TOM salvador!

  3. Joao Manuel diz:

    Excelente iniciativa e empreendedorismo, gostaria de acompanhar o vosso projecto com curiosidade de empresario e de piloto.
    Parabens

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