Dois anos após a adopção do Tratado do Alto Mar, somos convidados a fazer uma pausa. Não uma pausa de inacção, mas uma pausa de consciência: o Árctico não pode esperar; é tempo de agir, não apenas ratificar.

Dois anos após a adoção do Tratado do Alto Mar, somos convidados a fazer uma pausa. Não uma pausa de inação, mas uma pausa de consciência. Este é o momento para refletirmos seriamente sobre o que realmente valorizamos – e até onde estamos dispostos a ir para proteger o planeta partilhado com muitos outros.

Porque a verdade é simples, embora incómoda: não basta adotar (ratificar) tratados e convenções. O planeta não se salva com assinaturas solenes ou fotografias em cimeiras internacionais. É preciso ir para além das palavras. É preciso implementar. É preciso transformar os compromissos políticos em ações reais.

Mais do que uma paisagem congelada, o gelo do Ártico representa um sistema vital para o equilíbrio climático global. Ele funciona como um escudo branco que reflete a luz solar, regulando a temperatura da Terra. A sua perda equivale a retirar um ar-condicionado natural do planeta.

A cada verão, imagens de satélite revelam uma realidade desconcertante: a cobertura de gelo marinho continua a diminuir, ano após ano. Acelera o aquecimento global, altera os padrões de precipitação, eleva o nível do mar e desequilibra os ecossistemas. As consequências ultrapassam fronteiras. O que acontece no Ártico não fica no Ártico.

A crise climática não é uma hipótese futura – é uma realidade presente, tangível e mensurável. O degelo do Ártico é acender o pavio de um conjunto de reações em cadeia que afetarão toda a humanidade. Perder o gelo polar é perder o equilíbrio da Terra como a conhecemos. É um grito de alerta vindo do topo do planeta.

Chegámos a um ponto onde já não podemos ignorar o custo real da inação. Por exemplo, que sentido faz reduzirmos o tempo do transporte marítimo comercial, através das rotas do Ártico, se isso diminui, simultaneamente, a vida no e do planeta? Não é dramatismo – é realidade científica.

Mas há também um argumento de oportunidade. Constituir o Oceano Ártico Central numa Área Marinha Protegida, com nível de proteção total, pode ser um marco diplomático, um símbolo de cooperação num tempo em que a geopolítica está marcada pela fragmentação e pela desconfiança. Proteger o Ártico seria um gesto de união – uma afirmação clara de que os líderes do século XXI são capazes de colocar o futuro coletivo acima dos interesses imediatos.

Esta não é uma causa ambientalista no sentido clássico. É uma causa de segurança, de saúde pública, de justiça intergeracional. Os povos Indígenas, os jovens, os cientistas, os pequenos Estados insulares – todos já deram sinais. Cabe agora à classe política ouvir e agir.

Por isso, lanço aqui um apelo direto aos nossos governantes: – Vamos constituir o Oceano Ártico Central numa Área Marinha Protegida, com nível de proteção total.

Figura 1 – Proposta de Área Marinha Protegida OAC. Fonte: Adaptado de Vylegzhanin, A. N. et al., 2020


Independentemente das reclamações que atualmente se encontram a decorrer na Comissão de Limites da Plataforma Continental, há algo que deve prevalecer: o bem comum.

O Ártico deve ficar à margem do egoísmo humano. A sua proteção é uma questão de sobrevivência – não apenas para os povos do Norte, mas para todos nós, em todas as latitudes.

Chegámos a um ponto onde já não podemos ignorar o custo real da inação.

Não nos iludamos: a História será implacável ao avaliar a nossa coragem. Ela perguntará o que fizemos com o conhecimento que tínhamos, com o poder que exercíamos e com o tempo que ainda tínhamos disponível. A resposta não pode ser: “falhámos por egoísmo, falhámos por hesitação”.

A liderança política será medida, cada vez mais, pela coragem de colocar o futuro à frente de interesses imediatos.

O Tratado do Alto Mar é um marco. Mas os marcos são pontos de partida, não são pontos de chegada.

Agora, o desafio é transformar tratados em ações, promessas em políticas, compromissos em preservação concreta. É tempo de constituir uma rede internacional de colaboração, que una Estados, cientistas e sociedade civil em torno da proteção desta região crucial.

O planeta está a acelerar o seu grito por ajuda. E a resposta deve vir dos que têm voz, voto e visão. É tempo de dar o passo seguinte. Não em 2050. Não em 2030. Não numa próxima legislatura. Mas agora.

O Oceano Ártico Central está no centro desta urgência. A aceleração do degelo, a crescente pressão por rotas comerciais e a tentação de exploração de recursos escondem um risco coletivo: transformar um dos ecossistemas cruciais do planeta numa arena de disputa e destruição.

O Ártico não pode esperar. E o planeta também não.

Vylegzhanin, A. N. Young, O. R., Berkman, P. A. (2020). The Central Arctic Ocean Fisheries Agreement as an element in the evolving Arctic Ocean governance complex. Marine Policy, 118. https://doi.org/10.1016/j.marpol.2020.104001.



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