A posição estratégica da Bélgica, em sentido lato, uma vez enquanto nação independente e autónoma ser ainda relativamente recente, sempre foi determinante no comércio do Norte da Europa.

Ainda não se falava da Bélgica mas apenas de Flandres, quando Portugal, no tempo de D. Dinis, aí estabeleceu a sua primeira Bolsa de Comércio, em Bruges, mais tarde transferida e transformada na grande Feitoria de Antuérpia que viria a ser, mercê da chegada das descobertas portuguesas no Atlântico e mais tarde com a chegada à Índia, uma espécie de centro comercial do mundo, a par de Lisboa.

Não podemos esquecer também o casamento da Princesa Isabel de Portugal, filha de João I, com Filipe o Bom, Conde da Borgonha que estendera entretanto os seus domínios à Flandres e se afirmava como o mais rico condado da Europa, mão também de Carlos o Temerário, morto e deixado como pasto aos cães na célebre batalha de Nancy pelas tropas do Rei de França, Luís XI, aliadas a alemães, lorenos e suíços, e muito provavelmente retrato nos enigmáticos Painéis de S. Vicente de Nuno Gonçalves como a figura que hoje se diz, estranhamente, ser a do Infante D. Henrique.

Além de se dever a Isabel da Borgonha a emigração de muitos flamengos para os Açores, como rezam as crónicas, também se lhe deverá o incentivo à construção dos primeiros estaleiros náuticos em Bruges que, mais tarde, mercê do assoreamento do canal Zwin, conduzindo também à referida transferência da Feitoria portuguesa para Antuérpia, viria a perder a primazia comercial anteriormente exercida.

Ainda hoje, para quem visita a Catedral de Bruges, a proeminência das Armas Portuguesas nos Vitrais, não deixará de surpreender, levando apensar também no casamento aí celebrado da Infanta Teresa, filha de D. Afonso Henriques, com Filipe da Alsácia, Conde da Flandres, nem, evidentemente, o facto do Conde D. Henrique ser borgonhês, dando o correspondente cognome à nossa primeira dinastia.

Sem nos perdemos na História, o que importa aqui realçar é o facto de as relações Portugal-Bélgica, fosse ainda apenas Flandres ou mais tarde Condado da Borgonha, terem sido desde sempre intensas e justificarem um renovado olhar porque, hoje, uma renovada dinâmica entre o extremos da Europa e o que constitui ainda parte integrante do seu Centro Comercial se afigura passível de fazer todo o sentido, sobretudo quando se pensa, por exemplo, em Transporte Marítimo de Curta Distância.

Ao contrário de Portugal, a primeira Potência Marítima mundial da História, ou dos seus vizinhos holandeses, que sucedeu a Portugal, por algum tempo, como Potência Marítima, até serem superados também pelos ingleses, a Bélgica nunca foi uma potência marítima mas inegável foi sempre a sua proeminência comercial, substituindo, nos tempos áureos, o domínio até então verificado, por exemplo, por Veneza.

Mercê desse comércio, Antuérpia é, ainda hoje, a capital mundial dos diamantes onde se deverá realizar cerca de 80% de toda a lapidação mundial dessas pedras preciosas e, além dos portos, primordialmente Antuérpia e Zeebrugge, mas também Gand e Flessingue, assumem papel significativo na cadeia logística do Norte da Europa, a Bélgica volta-se de novo cada vez mais para o mar, começando a construir um significativo Cluster Marítimo, como agora se diz, centrado em três áreas de desenvolvimento principais: protecção costeira, energia e aquacultura, embora não exclusivamente.

De facto, no final de 2014, o Cluster Marítimo belga contava com a inscrição de 109 diferentes empresas, entra as quais 8 empresas de dragagem e construção marítima, 7 empresas de construção e reparação naval, 44 empresas de serviços (engenharia, consultoria, de desenvolvimento de projectos, direito e área financeira), 8 empresas de operação e manutenção e 23 empresas industriais de desenvolvimento de múltiplos componentes para o sector marítimo, correspondendo 90% dessas mesmas empresas a PME, com um volume de negócios, números respeitantes a 2013, na casa dos 5 mil milhões de euros e a cerca de 15 000 empregos.

Todavia, numa visão mais alargada, incluindo, além dos projectos desenvolvidos na área da protecção marítima, das pescas e a aquacultura (crustáceos e moluscos), e da energia, mas também o fabrico e desenvolvimento de equipamentos de comunicação e instrumentos científicos tanto para investigação como navegação, construção e reparação naval, projectos de engenharia e construção das mais variadas plataformas marítimas, e transporte marítimo, no seu todo, o volume de negócios do sector marítimo belga ascenderá à ordem dos 30 mil milhões de euros anuais, com um valor acrescentado na casa dos 6,8 mil milhões, uma vez mais, em números de 2013, correspondendo também a uma percentagem do PIB na casa dos 5,7% e um volume de emprego total na ordem dos 46 000 postos de trabalho.

 

Quadro 1 Bélgica

Contribuição do Cluster Marítimo Belga para a Economia em 2013

 

Ainda no que respeita à energia, importará igualmente destacar o pioneirismo belga na instalação parques eólicos off-shore, dispondo actualmente de 181 turbinas instaladas e uma capacidade de produção para 800 000 famílias, esperando-se que, até 2020, esse número suba para 451 turbinas com uma capacidade de produção de 2 200 MW.

Um aspecto interessante, contudo, é também o facto da integração destes novos parques eólicos em conjunto com projectos de aquacultura, um sector a começar agora o seu desenvolvimento na Bélgica mas ao qual se está já a dar, porém, a maior atenção.



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