Existe uma fotografia de Eça de Queiroz – o maior escritor do país, um dos maiores da Europa, diplomata e amigo pessoal do Rei - na praia, a divertir-se com a filha e uma amiga desta.

Tal como nos aparece na fotografia, não é difícil imaginar a sensação de levar com uma pazada em cheio de areia, e ficar a senti-la a descer, grão a grão, da maçã de Adão até à ponta do dedo grande do pé, depois de passar por colarinhos revirados, plastron, ceroulas e polainas.

Mas talvez atendendo ao momento, numa condescendência imprevisível à informalidade, tal como as abas flexíveis do chapéu, o nosso diplomata e escritor parece prescindir das polainas.

José Maria Eça de Queiroz, iniciou a sua carreira de diplomata em 1872, quando um despacho de dezasseis de março daquele ano, do Ministro e Secretário dos Negócios Estrangeiros, João Andrade Corvo, de um governo chefiado por Fontes Pereira de Melo, o nomeou Cônsul de primeira classe em Havana.

Em junho de dois anos antes, tinha surgido no Diário do Governo a publicitação de um concurso para a carreira consular, tendo Eça de Queiroz prestado provas a vinte e quatro de setembro e a um de outubro, tendo ficado apurado em primeiro lugar para o posto de Cônsul de primeira classe, e destinado à Bahia.

A Bahia, era então a segunda cidade brasileira, em breve ultrapassada nesta posição por S.Paulo, constituindo na altura uma colocação bastante disputada.

E o Brasil era sobretudo um lugar de permanente paixão do escritor, ao ponto de nos últimos dias dos noventa do século dezanove, um movimento dos diversos amigos que Eça de Queiroz contava na diplomacia, ter proposto o seu nome para Embaixador no Rio de Janeiro, onde o seu pai, o Juiz José Maria Teixeira de Queiroz tinha nascido, mas nessa altura a sua saúde, progressivamente degradada, não permitiu levar o processo avante.

É deste tempo, o seu hino de louvor ao Brasil, feito na figura do amigo Eduardo Prado, com quem conviveu intensamente em Paris, e publicado no número de julho de 1898 da Revista Moderna.

A dupla felicidade de louvar, através do homem que tanto prezo, terra que tanto amo!

Mas em 1870, Eça de Queiroz, viu-se contudo preterido, por atuação direta do Ministro dos Negócios Estrangeiros da altura,  António José de Ávila, Marquês de Ávila e Bolama, mais tarde Duque, de um governo chefiado por ele próprio, e que um ano depois, à luz dos acontecimentos das Conferências do Casino, organizadas em 1871 por um grupo restrito e empenhado da mais notável geração de intelectuais que Portugal já teve, onde pontificavam nomes como Antero de Quental, Oliveira Martins, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Jaime Batalha Reis, Guerra Junqueiro etc., identificou o nosso grande escritor como o chefe dos republicanos portugueses.

Permaneceria na vida diplomática consular por vinte e oito anos, concluída brilhantemente em Paris, o posto mais cobiçado da carreira, entre 1888 e 1900, até à sua morte nesse ano, na residência do Cônsul em Neuilly.

Foi nomeado para o posto por Henrique Barros Gomes, – e por interferência de Joaquim Pedro Oliveira Martins – Ministro dos Negócios Estrangeiros de 1886 a 1890, num gabinete de Luciano de Castro, gerindo a partir deste lugar, o affair do Mapa cor-de-rosa, e posteriormente do Ultimatum.

Ao longo dos seus quase trinta anos de carreira diplomática, Eça de Queiroz serviu sobre quinze governos, com trinta e quatro Ministros dos Negócios Estrangeiros, dezassete deles diferentes, o que diz bem da voracidade que caraterizou um sistema político, que pelo menos teve uma designação à altura: rotativismo.

A maior parte daqueles ministros ficou refém do charme do seu cônsul, admiradores confessos da sua obra, que guardavam a correspondência diplomática trocada com ele, como se de manuscritos raros sobre a sua ficção se tratasse.

Quando Eça comunicava aos seus superiores que ia correr os taipais do consulado por uns tempos, porque precisava de viajar para Portugal, não era raro que se encontrasse com o seu ministro no Chiado, antes do ofício chegar à mão deste para despacho.

Na diplomacia, em termos algo simplistas, a carreira consular diferencia-se da de embaixador, pelo fato de tratar e privilegiar o relacionamento entre pessoas e grupos, ou de negócios, ao contrário da carreira de embaixador, que se destina às relações políticas entre estados.

Enquanto na primeira, os funcionários auferem emolumentos proporcionais à importância e quantidade dos assuntos resolvidos, e neste caso Paris, constituía o posto mais rentável, no segundo, não era raro o embaixador subtrair ao seu próprio património, a verba necessária a custear a sua enorme honra em representar com dignidade a Pátria no estrangeiro.

A leitura apaixonante das memórias diplomáticas – felizmente existente em grande número, e em diversas línguas – dão conta disto mesmo, ou seja, da tenacidade com que os nossos embaixadores tinham que equilibrar e misturar as finanças privadas e públicas, para que o país não saísse diminuído na sua grandeza aos olhos dos estrangeiros.

E o Rei ou o Estado, não esperavam outra forma de proceder daquela gente, e era para a tornar possível, que existiam instituições como a dos morgadios, que permitia aos primogénitos das grandes casas estarem aptos a sustentar os serviços do governo.

Pela profunda reforma de D.João V, a orgânica do Estado foi distribuída por três secretarias, as quais reuniam entre si as competências que assistem atualmente aos ministérios, exceção feita a assuntos que sequer existiam, como a Digitalização. Com nomes que por vezes se alteravam ligeiramente, tínhamos a Secretaria da Marinha, com as responsabilidades da própria Marinha e do Ultramar, a Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, e a Secretaria do Reino, que reunia todas as outras responsabilidades não atribuídas às outras duas, e chefiada por alguém muito próximo da atual figura de um primeiro-ministro.

Não deixa de ser curioso observar reunidas sob uma única chefia, as duas diferentes formas de resolver um impasse num conflito de interesses externos, ou seja, através da negociação ou da guerra. E pelo contrário, a sensibilidade em distribuir entre duas pessoas diferentes uma guerra marítima: entre o Secretário da Guerra e o da Marinha.

Também era curioso que à Marinha ficasse atribuído o Ultramar. E julgamos que seria sobretudo, porque este apenas podia ser alcançado pela marinha, e pelo distante e exótico que o caraterizava.

Não era de um lavrador ou de um burocrata que se esperava o excêntrico.

E esta procura pelo estranho, e a necessidade de ter lá uma representação, atirou com inúmeros oficiais da Armada para a carreira consular.

Simultaneamente, já que existia o esforço de ter alguém a tratar dos nossos assuntos no outro lado do globo, então que esse alguém tivesse sensibilidade para os assuntos do Estado, e para os seus interesses, nomeadamente de defesa nacional.

Dito de outra maneira, as instruções da missão eram tão amplas e simultaneamente tão vagas, que não descartavam a possibilidade de em caso de tédio profundo, não ser de todo proibida a prática da espionagem.

Esta política foi igualmente colocada em ação pelos Estados Unidos, que ao contrário de nós, que tínhamos séculos de contacto com o exótico, começavam por todo o século XIX a sua expansão planetária, assim que o seu destino manifesto os levou finalmente a ocuparem o território, do Atlântico ao Pacífico.

Depois de olharem para cada porto da Ásia e para cada ilha do Pacifico no mapa, havia sempre uma voz das relações exteriores que não fazia a coisa por menos:

Put a man in.

E este homem, se não era um pastor evangélico, ou um vendedor de enciclopédias, era muito frequentemente um oficial da marinha.

Portugal, com outros recursos, também enxameou portos, enseadas, praias, com os seus cônsules cedidos pela Armada, como por exemplo o grande Venceslau de Moraes, que se terá cruzado seguramente no Japão com o Tenente Pinkerton, da Marinha dos Estados Unidos, e com a sua gueixa Cio-Cio-San, mais conhecida como Madame Butterfly.

E em agosto de 1882, o nosso Diplomata, naquela altura colocado em Bristol, foi a Londres para se encontrar e despedir-se do amigo Chavasso, o distinto oficial da Armada Sousa Canavarro, que partia para bem longe, para as Ilhas Sanduíche, onde ia assumir o Consulado do Havai, permanecendo naquelas paragens até 1914.

Creio não existir nenhuma fotografia da sua representação ali, mas se houvesse, não ficava admirado de o ver em traje de grande cerimónia, de bermudas, colar de flores ao peito e sandálias havaianas.

E em sinal de sublime deferência pelo protocolo, seguramente de polainas.



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