Estranhos dias. Estamos a entrar numa nova era e os Europeus parece terem apenas uma só e uma só preocupação: distinguir e dividirem-se entre quem gosta e quem não gosta de Donald Trump.
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Numa época presidida e dominada pelos afectos, gostar ou não gostar, afigura-se ser, de facto, tudo quanto importa, senão mesmo tudo quanto mais importa.

Não parece muito saudável.

Dir-se-á que, em política, a forma, por vezes, conta tanto ou mais do que o conteúdo, mas confundir uma e outro não deixa ser um erro a poder ter, por vezes, não apenas as mais nefastas como, eventualmente mesmo, as mais catastróficas consequências.

Que o modo de agir do actual Presidente dos Estados Unidos desencadeia sempre as mais passionais reacções é tão patente que já nem vale a pena sequer referi-lo. Todavia, importa perceber igualmente se o seu modo de agir não poderá ser propositado, mesmo estudado, como, mais importante ainda, se por detrás de uma aparente inconsequência de actuação, por vezes até aparentemente demasiado histriónica, não poderá haver algo mais a que nem sempre estaremos a dar, em resultado da mesma imediata reacção emocional, a devida atenção.

Ou seja, numa formulação simples, se a estratégia é a arte de conduzirmos terceiros a agirem em nosso benefício, mesmo sem consciência disso, o que importa não será perceber se a actuação de Donald Trump, enquanto Presidente dos Estados Unidos, legítimo representante dos Norte-Americanos, não beneficia, em última instância e acima de tudo, os interesses dos mesmos Norte-Americanos, levando terceiros a reagirem, com ou sem consciência disso, em prol dos mesmos Estados Unidos e, consequentemente, a conferir a Donald Trump popularidade que Donald Trump, goste-se ou não da figura de Donald Trump, congrega entre os seus conterrâneos?

Se nos colocarmos do outro lado do Atlântico e calçarmos os sapatos de um Norte-Americano, como se costuma dizer, talvez não se afigura muito difícil percebermos alguns factores determinantes da sua visão, perspectiva e atitude perante o mundo actual e da correlativa popularidade de Donald Trump.

Em primeiro lugar, temos a dimensão, a extensão territorial, recursos e uma consequente capacidade de os Estados Unidos se fecharem ao mundo como talvez pouco outras nações o poderão alguma vez fazer, ou sonhar sequer poderem fazê-lo, e mais a mais num momento em que têm vindo a ultrapassar, quase em absoluto, como também é sabido, o seu mais tradicional calcanhar de Aquiles como era a conhecida dependência energética, não apenas pela decisiva revolução do gás de xisto, que não respeita apenas ao gás mas também ao petróleo, bem como pelos avanços que, pouco a pouco, vão estabelecendo nas energias renováveis e que a prazo não deixarão de ter, evidentemente, igualmente a devida repercussão

Praticamente autónomos em termos energéticos, exportando já, inclusive, gás natural liquefeito um pouco para todo o mundo, a posição dos Estados Unidos é hoje, evidentemente, muito distinta da que era há alguns anos, permitindo que a sempre latente divisão entre os mais isolacionistas e os mais mundialistas, ou internacionalistas e intervencionistas, se assim podemos dizer, eventualmente mais se acentue também, cedendo os primeiros, em relação aos segundos, apenas e enquanto, nos tempos de novo realismos e pragmatismos que estamos vivendo, tal posição conduza a ganhos e vantagens políticas, económicas e geoestratégicas patentemente tangíveis e mensuráveis.

Numa época tão dominada por um novo realismo político e por um não menor e até quase extremo pragmatismo, como referido, não é natural que se vá deixando passar à História os dias de assunção de uma espécie de divina missão de levar a liberdade e a justiça ao mundo, como anteriormente, em prol de outras mais imediatas razões, eventualmente menos nobres e até possivelmente mais egoístas, como sejam a afirmação de uma tão ampla quanto possível garantia de Segurança e Defesa do seu próprio território, assim como de uma igual protecção dos respectivos interesses próprios espalhados um pouco por todo o mundo, a par, evidentemente, do reforço de uma prosperidade económica o mais visível e robusta possível?

Assim se afigura.

Nada de novo, dir-se-á, com toda a razão.

A questão do maior ou menor isolacionismo, da maior ou menor preponderância para um mais efectivo internacionalismo e consequente intervencionismo no mundo, tem atravessado a História dos Estados Unidos e evoluído também de acordo com a visão mais pessoal ou institucional dos seus respectivos Presidentes, de acordo também com as circunstâncias do mundo, como sucedeu mais, por exemplo, mais recentemente com George Bush, tendencialmente defensor de um maior isolacionismo mas compreendendo, após o 11 de Setembro, não podendo os próprios Estados Unidos, na prossecução dos seus superiores interesses, isolar-se do mundo, ser então preferível ter as respectivas tropas a combaterem a milhares de quilómetros de distância de casa, evitando o risco de, em contrapartida, virem um dia, eventualmente, a terem de combater o inimigo dentro de portas.

A questão de um maior isolacionismo versus um maior internacionalismo ou intervencionismo dos Estados Unidos não é, porém, quanto mais nos importa aqui abordar mas, olhando com olhos de ver para o mundo actual, tentar perceber um pouco melhor a trama global quando é nítida a persistência de uma Potência Dominante, como ainda continuam a ser, apesar de tudo quanto se diz e se vai pouco a pouco alterando, os Estados Unidos, perante o repto de uma nova Potência Desafiante, como se afirma, indiscutivelmente, a China, e de uma Potência que hoje se dirá Expectante, como a actual Rússia após os dias de Grande Potência vividos nos idos da velha União Soviética e depois do descalabro vivido na sequência da queda do Muro de Berlim.

Neste panorama, a Europa já não exerce senão um papel relativamente Crepuscular, ainda com valor sobretudo em termos económicos mas pouco mais.

Sobre os Estados Unidos, Potência Dominante, não se afigura haver muitas dúvidas sobre a sua real e efectiva capacidade económica, tecnológica e militar, superando ainda, e de longe, as restantes nações do mundo sem que se preveja por enquanto e a breve prazo, a possibilidade de qualquer inversão da actual situação.

Haverá, por certo, o desafio da Potência Desafiante, passe a redundância, entre outros?

Com certeza, mas é ainda larga a distância e se é previsível uma redução relativa dessa mesma larga distância, não é, de facto, previsível, a breve prazo, uma completa inversão da actual situação.

Em termos económico, dir-se-á ser exactamente o que se está a verificar, por exemplo, em relação à China.

Assim é, de facto, mas apenas muito relativamente, ou seja, as assimetrias e os problemas internos persistentes no Império do Meio ainda levarão muitos anos a superar para que se possa colocar em verdadeiro paralelo a sua evolução com a dos Estados Unidos, para já nem referirmos os problemas políticos a que essas mesmas assimetrias, por um lado, e a própria natural evolução económica e superação, por outro, não deixarão de tender, mais cedo ou mais tarde, a conduzir também.

Apesar de toda a aparente defesa de um certo liberalismo económico e da liberdade do comércio, não é possível esquecer nunca a profunda contradição de um regime ainda hoje estruturalmente Marxista-Leninista, profundamente estatista e com práticas de mercado tudo menos claras, não podendo tudo isto augurar nada de bom a prazo.

Com certeza, num mundo crescentemente globalizado é natural haver um progressivo esbatimento das diferenças tanto económicas como tecnológicas, sobretudo em relação às grandes Potências, mas, mesmo nesse caso, necessitando a evolução e desenvolvimento económico e tecnológico de um ecossistema que não se cria de uma dia para o outro, e menos ainda por simples decreto, também não se vê como possam os Estados Unidos ser rapidamente superados por terceiros, nomeadamente pela China, que, apesar de todos os seus inegáveis e enormes avanços, ainda está muito dependente para a sua efectiva concretização de práticas tão aparentemente condenáveis e contraprodutivas como seja, por exemplo e tanto quanto é amplamente referido, o total desrespeito pela propriedade intelectual.

Para além disso, em termos puramente militares, onde mais directamente se compara o efectivo poder das grandes Potências, o avanço dos Estados Unidos, mesmo contando apenas com as suas actuais capacidades, como reconhecem os principais especialistas, não deixa de lhes garantir uma supremacia dificilmente igualável num horizonte entre 10 a 15 anos, seja pela China, seja pela Rússia.

Não pode a situação alterar-se?

Pode. E porque a situação pode sempre alterar-se, importa sempre ter igualmente em conta outro importante factor como seja o interesse dos próprios norte-americanos em que tal supremacia, de um modo ou outro, persista, não deixando assim de aplaudir os anunciados incrementos nos investimentos dedicados às Forças Armadas em geral e à Marinha muito em especial, pela actual Administração.

O mesmo que a Potência Desafiante também faz?

Com certeza, não deixando de ser igualmente bem patentes os seus investimentos nas Forças Armadas em geral e na Marinha muito em particular, de tal forma que hoje se tornou capaz de construir desde sofisticados Navios Hidrográficos a Porta-Aviões, como Submarinos, tanto nucleares como convencionais, não deixando a sua frota de estar a expandir-se de forma gradual, sistemática e contínua desde há alguns anos e sendo exactamente nesta mesma área, i.e., na área militar, que os especialistas afirmam detectarem os mais significativos avanços tecnológicos do Império do Meio, não se limitando á reengenharia do material adquirido principalmente à Rússia, como anteriormente, mas indo mesmo muito além disso.

E facto, como é noticiado por vários meios de informação, a China neste momento não apenas tem já planos para construção de mais 3 a 4 Porta-Aviões, dispondo de tecnologia equiparável, segundo se comenta, ao USS Nimitz, para a construção de um novo Destroyer, eventualmente comparável ao Zumwalt, como de novos e igualmente sofisticados aviões furtivos conhecidos pela designação Chengdu J-20, sendo ainda reconhecidos importantes avanços na Inteligência Artificial e computação quântica.

A distância ainda será, porém, significativa, mas é, e facto, passível de ser encurtada e o poder efectivo de uma nação nunca respeita tão só estrita e exclusivamente à dimensão militar.

Nesse sentido, a par do reforço da capacidade militar mais pura e dura, a China não tem deixado de procurar também ao longo dos últimos anos uma crescente influência económica e diplomática em todo o mundo, sendo o mais perfeito exemplo disso a conhecida e genericamente designada iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota», não deixando emular, em parte, o que os Estados Unidos têm vindo a fazer desde há décadas, dispondo hoje, por exemplo, as mais de 700 Bases Militares que mantêm espalhadas por mais de 60 países em todo o mundo.

Apesar de haver quem preveja o fracasso da iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota», em grande medida até pelos astronómicos investimentos envolvidos, o facto é que, até agora, se encontra ainda em expansão e tem permitido não só de acentuar a capacidade de influência de Pequim em termos económicos como servir, inclusive, em alguns casos, de instrumento de pressão política, ou político-económica, como sucedeu no caso do Sri Lanka, obrigado a ceder o controlo do porto de Hambantota por contrapartida de dívidas anteriormente contraídas a empresas chinesas, maioritariamente estatais, naturalmente.

Voltaremos à questão.

Entretanto, entre a Potência Actual e a Potência Desafiante, há sempre, naturalmente, a Rússia, Potência Expectante, em recuperação do seu pretérito poder mas ainda numa posição relativamente enfraquecida após a derrocada do Império Soviético e os dias em que disputava a supremacia mundial com os Estados Unidos, decaindo em seguida, a ponto de hoje ser ter visto já ultrapassada pela China como a segunda Potência Militar do mundo.

Apesar disso, i.e., apesar de economicamente mais débil, tanto em relação aos Estados Unidos como em relação à China, muito dependente das exportações de hidrocarbonetos, não tem deixado no entanto de perseguir uma consistente modernização das suas Forças Armadas e, uma vez mais, com especial enfâse na Marinha, desenvolvendo e construindo não apenas novos e submarinos, tanto sofisticados submarinos nucleares como não menos sofisticados e inovadores submarinos electrodiesel, assim como, em diferente mas correlato plano, os mais sofisticados navios quebra-gelos, incluindo navios quebra-gelos nucleares, únicos, afirmando também, por razões sobre as quais não valerá talvez a pena agora mais muito mais elaborar, uma supremacia no Árctico inimaginável ainda há um par de anos, aspecto ao qual regressaremos também mais adiante.

Para além disso, não deixando de continuar a possuir o maior arsenal atómico do mundo, a Rússia não deixa nunca de se ver, de querer ver-se e ser reconhecida como uma das Grandes Potências do mundo, como, de certo modo, até pela sua dimensão territorial, não deixa de ser compreensível, podendo assim suspender momentaneamente a produção e desenvolvimento dos novos tanques por razões de ordem económica, mas não de prosseguir o desenvolvimento e construção de novos e mais sofisticados caças furtivos como os SU-.57, bombardeiros TU-22M3M, novos submarinos, como já referido, e mísseis, dos SS-400 aos KH-32, anunciados por Putin como uma arma imbatível, a um ritmo que não só não tem diminuído como até tem mesmo vindo, segundo alguns entendidos, a acentuar-se.

Em brevíssima síntese, este é o panorama actual no que respeita aos desenvolvimentos mais significativos, sobretudo em termos militares, em relação às maiores Potências do mundo, sendo exactamente com estas Potências que o mundo de hoje conta e tem de contar, não nos podendo esquecer igualmente os seus principais e consequentes interesses estratégicos e geoestratégicos.

Tal não significa, evidentemente, serem tão só estas as nações relevantes na actualidade e que outros actores igualmente significativos, do Irão à Turquia, passando pelo Afeganistão e Paquistão, para não referir já o caso da Coreia do Norte que se coloca em diferente plano, não contem, bem ainda como uma Índia que não deixando de tender a poder vir a superar a China em quase todos os aspectos, da dimensão populacional à pujança económica, do desenvolvimento tecnológico até mesmo, se assim entender, à eventual capacidade militar, não manifestando efectiva pretensão, todavia, neste momento, pelo menos, de querer vir a transformar-se numa Potência Global, mantendo-se, por conseguinte, numa posição sempre um pouco mais recuada, na sombra, salvo, naturalmente, na sua mais directa área de influência, tanto de um ponto de vista territorial, seja em relação ao Paquistão, seja em relação à China, bem como, evidentemente, em termos marítimos, no que respeita ao Oceano Índico onde a mesma China não deixa de vir a afirmar tanto o seu crescente interesse, como a sua presença e marcada influência em muitos casos já.

De qualquer modo, o jogo, neste momento, é entre os Estados Unidos, a China e a Rússia,

Nessa perspectiva, regressando ao ponto de partida, se nos interrogarmos sobre qual poderá ser o maior pesadelo para quem olha para o Globo a partir dos Estados Unidos, talvez muito não erremos se admitirmos que o maior pesadelo será mesmo ver uma excessiva aproximação em conjugação de interesses, esforços e acção entre a Rússia e a China, tal como, em muitos aspectos tem vindo e está já a suceder.

De facto, olhando o mundo a partir dos Estados Unidos, a primeira grande preocupação deverá ser, sem sombra de dúvida, a militarização verificada no Mar do Sul da China onde Pequim não reconhece qualquer outro Direito, mesmo que se arrogue como Direito Internacional, sobre o que defende serem os seus prioritários Direitos Históricos nessa área, como ficou bem patente, de resto, na absoluta desconsideração votada à decisão do Tribunal Arbitral de Haia em relação à disputa mantida com as Filipas nessa questão, continuando a construir verdadeiras bases militares nas pequenas ilhas, ou mesmo apenas recifes, localizadas exactamente nas áreas marítimas em disputa com várias nações da região, como sucede nas Spratly, Paracels ou Woody Island, nem se coibindo de intensificar entretanto os avisos a toda a navegação aérea e marítima para abandonarem as respectivas rotas quando se entende estarem a ultrapassados os limites do que é unilateralmente determinado como zona marítima e aérea sob exclusivo jurídico do Império do Meio.

Defendendo o que consideram serem, ao abrigo do Direito Internacional, áreas internacionais e por conseguinte de livre navegação, os Estados Unidos têm vindo a marcar de forma veemente a sua posição, navegando livremente nas mesmas áreas mas não sem o risco de poderem vir a deparar-se com situações, no mínimo, mais equívocas.

A questão, porém, é complexa porque não está apenas em causa uma mera medição de forças bilateral mas também a necessidade de defesa das nações da região em disputa com Pequim, como o Brunei, Formosa, Malásia e Vietname, para além das já referidas Filipinas, sem qualquer possibilidade de confronto com o gigante vizinho, bem como, em diferente ângulo, tanto a Coreia do Sul como, muito especificamente, o Japão.

De facto, a mesma tendência hegemónica relativamente ao Mar do Sul da China tem vindo a ser também aplicada por Pequim, embora ainda em diferente escala, ao Mar do Japão, onde mantém igualmente a disputa sobre as Ilhas Senkaku/Diaoyu, mas não deixando de obrigar Tóquio a alterar a sua tradicional doutrina de Defesa e a acelerar novos planos de reforço da sua Marinha _ e sobretudo quando, a Norte, a disputa pelas Curilas com a Rússia não deixa de se manter igualmente activa.

Como não será difícil de perceber, olhando de Washington, toda esta situação num ponto tão estratégico como o Mar do Sul da China e todo o Sudeste Asiático, não deixará de ser, muito provavelmente, a maior preocupação actual da Diplomacia dos Estados Unidos, e tanto mais quanto, de um ponto de vista geoestratégico, a aproximação entre a China e a Rússia no Árctico, não apenas pelos projectos desenvolvidos em conjunto na Península de Yamal para extracção de Gás Natural mas, mais séria e gravemente, pela crescente militarização da região com a construção de novas bases Militares Russas em Novaya Zemlya, no Mar de Kara, a Norte do Mar de Barents e não muito distante da Noruega, não se eximindo sequer à instalação dos mais recentes e sofisticados mísseis SS-300 e SS-400.

A importância estratégica, ou geoestratrégica, do Árctico, hoje, também já não oferece quaisquer dúvidas, seja pelos recursos disponíveis, sobretudo em relação aos hidrocarbonetos, seja pelas novas rotas marítimas que já proporciona, sendo pelo patente atraso que os Estados Unidos têm na região em relação à Rússia que dispõe já de meios muito superiores aos seu rivais, desde quebra-gelos nucleares a todos o tipo de veículos terrestres, com efectiva ocupação por forças devidamente preparadas e prontas a entrarem em acção nas mais geladas e inóspitas condições, afirmando, por consequência, uma superioridade que não deixará, por certo, de preocupar Washington e muito em particular o próprio Pentágono, não surpreendendo, por isso mesmo, o crescente incremento do número de militares e exercícios que os Estados Unidos têm vindo a estacionar e a realizar no Alasca, bem como, em diferente âmbito, ou seja, no âmbito da NATO, no Norte da Noruega.

Depois do Mar do Sul da China e do Sudeste Asiático em geral, a preocupação com o Árctico não deixará de ser, com certeza, uma outras das maiores preocupações dos Estados Unidos, havendo já inclusivamente quem afirme temer encontrar-se, neste momento, exactamente nesses mais gélidos ambientes do globo, os mais escaldantes e explosivos pontos críticos da actualidade.

Neste enquadramento, se recordarmos o facto de a China ser já Observador Permanente do respectivo Conselho do Árctico, não se  eximindo sequer à realização de importantes exercícios militares conjuntos com a Rússia na região, ainda melhor se poderão perceber as preocupações dos Estados Unidos, e ainda mais quando a tudo isso juntamos igualmente as diligências de Pequim, sem qualquer envolvimento nas disputas de limites territoriais  que opõem na Região, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos e Rússia, em estabelecer alianças com outras nações com interesse ou ligação directa à região, como uma Finlândia, uma Noruega ou uma Gronelândia, onde algumas das suas empresas de mineração, em parceria com terceiras empresas Europeias, como a britânica London Mining, procuram já a exploração de metais não ferrosos como zinco, urânio e terras-raras, bem como o estabelecimento e desenvolvimento de relações cada vez mais estreitas com uma Islândia, região onde os Estados Unidos já não possuem qualquer Base permanente, mas que não deixa de continuar a constituir-se como um dos pontos mais críticos e decisivos de passagem entre o Árctico e o Atlântico.

Outras áreas críticas como o Médio-Oriente, uma vez derrotado o ISIS, com o seu activo empenho, têm vindo a perder, naturalmente, alguma importância estratégica tal como anteriormente tida, para os Estados Unidos.

Não que os seus interesses no Médio-Oriente tenham desaparecido completamente mas a aproximação pode ser, e é, hoje, outra.

Embora tendo passado relativamente despercebido, um dos mais importantes resultados da última Cimeira entre Trump e Putin em Helsínquia foi exactamente o acordo estabelecido para um cessar-fogo permanente entre a Síria e Israel, negociado pelos Estados-Unidos, Rússia e Israel, tendo como contrapartida a manutenção de Bashar al-Assad no poder.

Uma solução importante para a região, naturalmente, que terá recebido todo o apoio tanto da Arábia Saudita como dos Emiratos Árabes Unidos, segundo igualmente noticiado, bem como da Turquia, dado tanto a crescente aproximação como mesmo influência de Moscovo sobre Ancara.

Ou seja, neste panorama, não esquecendo os exercícios militares conjuntos realizados já pela China e Rússia tanto no Mar Báltico como inclusive no Mediterrâneo, não surpreenderá muito admitir-se como primordial preocupação dos Estados Unidos uma excessiva aproximação entre a China e a Rússia, entre a Potência Desafiante e a Potência Expectante, como anteriormente referido, procurando assim, diplomaticamente, acentuar os interesses divergentes que ambas, não obstante, mantêm e que, imagina-se, assim se esperará que continue a ser.

Nessa perspectiva, uma estratégia possível afigura-se ser exactamente a de evitar que o Kremlin se sinta demasiado acossado, permitindo-se-lhe alguma liberdade de movimento e acção em defesa do que poderá ser considerado como sua área natural de influência, segurança e interesse estratégico.

A Rússia de hoje não é a União Soviética de ontem mas há interesses, perspectivas e doutrinas que permanecem, como, para além da Ucrânia, é o caso da Geórgia onde o Kremlin não deixa de ir conquistando terreno, passo a passo, e cuja possível entrada na NATO continua a ser tido como passível de ser considerada por Moscovo como casus belli, como permanece a rivalidade de séculos, não sem o seu quê de emulação também, em relação à Europa, não deixando nunca de tudo fazer quanto possível para a enfraquecer, não sendo, porém, quanto importa agora considerar.

A situação de equilíbrio não deixa, contudo, de ser, evidentemente, delicada. Em determinados casos, mesmo muito delicada, mas o facto é também que se afigura estarmos a entrar numa nova era, como as comemorações do Dia da Marinha Russa, realizadas simultaneamente em São Petersburgo, Vladivostok e no porto Sírio de Tartous, não deixam, de algum modo, de assinalar, assim como a presente demonstração de força com o Exercício Vostok 2018 levado a cabo por Moscovo, envolvendo, como amplamente noticiado, números na ordem dos 300 mil militares, mais de mil meios aéreos, entre aviões, caças, helicópteros e VANT (Veículos Aéreos Não Tripulados), cerca de 80 navios e cerca de 36 mil meios terrestres, divididos entre tanques e vários meios blindados de transporte de tropas e logística, a decorrer em três mares, mar do Japão, Mar de Bering e o Mar de Okhotsk ou Ocóstsqui, em que a China e a Manchúria se farão igualmente representar e participar oficialmente com uma pequena delegação militar.

De facto, atendendo e revendo tudo quanto se passa actualmente no Mundo, não parecerá exagero se afirmarmos estarmos a viver o fim de um Ciclo que mais não é senão o fim do Ciclo da Revolução Francesa, se assim podemos dizer.

O que também sucede nestes momentos de transição é que, entre o fim de um Ciclo e a entrada numa Nova Era, a tendência natural é para se atravessar um período confuso em que, apesar de se afirmarem com relativa nitidez algumas das novas tendências, o todo nem sempre é passível de ser imediata e completamente apreendido dada a própria natureza do processo em consequente acelerada mutação e evolução em busca de novas constantes e, quem sabe, de uma nova estabilidade até.

No caso, porém, algumas das novas tendências afiguram-se serem já perfeitamente perceptíveis, razão também que justifica e legitima poder estar a falar-se, de facto, do fim de um Ciclo, como o Ciclo da Revolução Francesa, e na entrada numa Nova Era, mesmo que não saibamos perfeitamente como a designar ainda.

Para o que aqui importa considerar, porém, a primeira e talvez mais importante tendência respeite ao regresso da ideia de Nação como princípio fundador da existência e organização comum, conferindo assim uma determinante prioridade à defesa dos interesses nacionais em abandono da preocupação pela disseminação e imposição dos mesmos ideais universais, tal como concebido pela Revolução Francesa, a toda a Humanidade.

Nesse enquadramento e num momento dominada por um novo realismo político, a par de um extremo pragmatismo, devém como cousa quase natural o primado quase absoluto conferido à Economia, quase tudo se justificando e legitimando igualmente em seu nome.

Ora, quando se fala em Economia, pensa-se, acto imediato, em recursos, a começar, evidentemente, neste enquadramento, pelos recursos naturais, sejam recursos energéticos, antes de mais, como recursos alimentares, uma preocupação sempre, não obstante, hoje, como desde há poucos décadas, ter a humanidade conseguido atingir a capacidade de produzir, pela primeira vez na História, a quantidade suficiente de alimentos para, teoricamente, suprir todos as respectivas necessidades, bem como recursos minerais, por razões ambientais, nuns caos, por esgotamento noutros, de exploração cada vez mais complexa, difícil ou mesmo impossível em terra firme, bem como, crescentemente mais importante ainda e sinal dos novos tempos assim como da presente evolução científica e tecnológica, recursos biológicos, decisivos em áreas tão críticas como as da biotecnologia, biogenética, farmacologia, nutracêutica ou biomateriais, para nos referirmos apenas a algumas das mais significativas actividades já presentes e do futuro mais próximo.

Decorrente, em parte, deste novo enquadramento, como também de uma certa estabilização, tanto quanto possível no domínio político, das fronteiras terrestres, como do progressivo esgotamento de muitos dos tais recursos minerais em terra, bem como da necessidade de avançar decididamente para a pesquisa, recolha e exploração de novos recursos biológicos marinhos, a terceira grande tendência a marcar a nova era é exactamente a disputa pela conquista de novos territórios, neste caso, marítimos.

O ponto crítico de quanto se passa no Mar do Sul da China, no Mar do Japão, no Árctico, como no Atlântico, é esse mesmo.

Estranhamente, porém, nem a Europa, enquanto União Europeia, nem nós, enquanto primeira Nação Marítima que deveria ter consciência de o ser, não se afigura estarmos a prestar suficiente atenção a nada disto ou a atribuir sequer a importância ao Atlântico que o Atlântico tem, e vai continuar a ter, ao contrário dos Estados Unidos que, tal como em recente Editorial chamámos igualmente a atenção, não cometem o mesmo erro, tal como o anúncio de reactivação da sua II Esquadra, a ficar sediada na Base Naval de Norfolk, no Estado da Virgínia e sede também do ACT (Allied Command Transformation) da NATO, torna particularmente manifesto e significativo, sobretudo quando as incursões e crescente procura de influência tanto por parte da China como por parte da Rússia em toda a dimensão do Atlântico são também cada vez mais arrojadas, e notáveis.

A Europa, a União Europeia enquanto personificação da actual Europa,, Potência em Decadência, conta pouco já e, de um ponto de vista estratégico, parece mesmo completamente perdida, não valendo muito a pena sequer estarmos agora a muito mais elaborarmos sobre a total ausência de verdadeira política sobre temas tão diversos quanto o disparate da Moeda Única, desde o modo e razões como foi criada até à forma como tem sido gerida, ao patético da evolução e constantes tergiversação ao longo das supostas negociações para uma possível integração da Turquia, para já nem referir a permanente incongruência e inconsistência nas relações com a Rússia, a incompreensão das Primaveras Árabes, o descalabro no modo de lidar com o problema da migrações ou a incapacidade de compreender, primeiro, e saber gerir, depois, o Brexit, para referirmos o mínimo de exemplos.

A mesma Europa que ainda hoje se mostra mais preocupada em elogiar Barack Obama, esquecendo os tremendos erros cometidos, seja em relação ao Iraque, à Síria ou mesmo em relação à própria Europa e União Europeia e ao Atlântico, mas não se cansando de perder tempo a verberar alegremente o penteado de Donald Trump, demonstrando plenamente não só não conseguir compreender nada de quanto mais importante está a ocorrer verdadeiramente no mundo como pouco ter a oferecer ao mundo que existe realmente muito para além do velho do eixo Paris-Berlim, efectivamente, cada vez mais decadente e trôpego.

A menos, evidentemente, que alguma subtileza da política Alemã ainda surpreenda e infirme tudo quanto aqui dito, o que se afigura importante à Europa compreender é que Donald Trump é muito mais do que Donald Trump, mas o representante, o actual e efectivo Presidente dos Estados Unidos.

Para nós que não somos cidadãos Norte-Americanos, não é a figura de Donald Trump que nos deve preocupar, muito menos o seu penteado, mas exactamente o seu papel enquanto Presidente dos Estados Unidos, para todos os efeitos, ainda a maior Potência do Mundo e, por consequência, em torno do qual o mesmo Mundo ainda gira, bem como o sentido da respectiva política, sobretudo em termos internacionais, porque não compreender a mesma política no sentido mais marcadamente geoestratégico, conduz, naturalmente, a não compreender o que realmente se passa hoje no mesmo mundo, não deixando tal incompreensão de vir a poder gerar e ter as mais graves, senão mesmo dramáticas, consequências.

Neste enquadramento, independentemente da errância estratégica da Europa, ou até mesmo por causa disso, Portugal tem uma oportunidade extraordinária para se afirmar como a verdadeira Nação Marítima da Europa, i.e., como a Nação que, pela afirmação da sua Visão Marítima, poderá conduzir a própria Europa a um novo e mais elevado plano de consciência geopolítica e geoestratégica marítima, a começar exactamente pelo Atlântico.

Com isto, não estamos nem queremos, ou podemos sequer, diminuir a importância, consciência e efectivo contributo de outras nações da União Europeia têm tido, e têm, no desenvolvimento de uma consciência e consequente acção marítima.

Se criticamos o modo como foi gizado, preparado e lançado o embrião de uma possível futura verdadeira Guarda Costeira Europeia através da subtileza da actual Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, tal crítica implica, naturalmente, o reconhecimento a outras nações europeias de um propósito que não pode deixar de significar um mínimo de consciência marítima, sem o que nada teria sentido.

Para além disso, é igualmente impossível não reconhecer e assinalar os inegáveis esforços, com escassa ou mesmo nula repercussão, do Presidente François Hollande para conjugar esforços no sentido de tornar possível delinear uma efectiva política europeia para o Mar do Sul da China, para onde chegou a enviar o Porta-Aviões Charles de Gaulle, tal como Inglaterra não deixou de enviar igualmente em missão algumas das suas Fragatas, para reafirmação do entendimento Europeu no que respeita ao exercício da liberdade de navegação em águas internacionais, ou até a decisão da Dinamarca de se tornar uma Nação Oceânica, desfazendo-se, há anos já, dos famosos Patrulhas de Costa Stanflex para aquisição de novos Patrulhas Oceânicos, além da continuidade de desenvolvimento da capacidade de construção de navios militares por parte de Itália, França e Alemanha, mantendo mesmo, neste caso, independentemente de todas as relutâncias em relação ao desenvolvimento de uma efectiva Política de Defesa Europeia, uma das mais avançadas tecnologias no que respeita à construção de submarinos, para referirmos apenas alguns casos mais notáveis.

Não, o queremos dizer e significar é que, não existindo uma verdadeira visão Europeia, global, coerente e integrada, Portugal tem todas as condições para a conceptualizar e, por consequência, liderar, sobretudo no que respeita ao Atlântico que deverá ser o elemento decisivo de toda a Política Marítima Europeia e em função da qual todas as demais se deverão orientar e, de algum modo, subordinar.

Curiosamente, algumas iniciativas, desde a aproximação a Cabo Verde ao projecto do Air Centre nos Açores e ao estreitamento das relações com os Estados Unidos para tornarem Sines no porto de referência para a recepção de LNG Norte-Americano na Europa, podem ser vistas como um bom prenúncio mas ainda falta uma visão de conjunto a agregar todas essas mesmas iniciativa, não permitindo que se percam como iniciativas desgarradas, singulares, únicas, sem que cheguem verdadeiramente a constituir-se como os elementos mais visíveis de um todo muito mais amplo, determinante e decisivo.

Esse é o desafio. E a questão a saber agora é se temos condições e se queremos, efectivamente, seguir tal desígnio ou se preferimos continuar a discutir o penteado de Donald Trump, confundindo o essencial com o acessório.



Um comentário em “Trump, Portugal, a Europa e a Transição para uma Nova Era”

  1. J. Cunha diz:

    Muito interessante, este artigo! Efetiva clarividência do seu autor.

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