Das extraordinárias afirmações de um muito douto Historiador para quem a Universidade deveria ser dona e senhora da História de Portugal e os Portugueses nunca foram mais do de uma cambada de patetas, passando pelos Açores e a terminar pelo decisivo lançamento do SNIMar que passou quase despercebido.
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Recentemente, deu notícia o Semanário Expresso, de 22 de Abril, de um tal Luís Filipe Thomaz, apresentado como «o maior historiador português do Oriente», ter escrito um «extenso artigo de 60 páginas intitulado, “Cristóvão Colón: português, natural de Cuba, agente secreto de D. João II?”, nos Anais de História de Além-Mar da revista científica do Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar (CHAM) da Universidade Nova de Lisboa».

Como se imagina, o artigo terá como muito original intuito, como igualmente relatado, refutar as teses segundo as quais Cristóvão Colombo seria filho natural do Infante D. Fernando com uma filha do navegador João Gonçalves Zarco, como se o tema ainda comovesse particularmente quem quer que se seja ou que, depois de tudo quanto já foi dito, muito mais houvesse a dizer.

Todavia, pelo que se pode depreender da entrevista, esse é só o pretexto. O verdadeiro propósito, para além de defender, evidentemente, dever a História de Portugal ser cousa reservada em exclusivo a quem foi passado  devido Alvará para tal, aos Profissionais da Universidade, indispondo-se contra os Historiadores «amadores» como qualquer brioso Choffeur de Praça se indispõe hoje contra todas as Uber que por aí pululam, é outro: denegrir Portugal e a sua História, estatuindo, com o peso que o seu Alvará lhe concede,  não terem passado de simples acaso alguns dos seus maiores feitos, como não tendo passado também de meros patetas algumas das suas maiores figuras.

Nesse plano, que o muito douto Luís Filipe Thomaz acredite como verdadeira causa de Colombo ter vindo aportar a Lisboa e não a Espanha no regresso da sua primeira viagem às Antilhas, o facto de ter sido surpreendido por algumas tempestades depois da sua paragem em Santa Maria, nos Açores, num tempo em que as convicções são tudo, nada valerá a pena acrescentar. Bem se imagina como nesses difíceis tempos de navegação à vela, se um Grande Piloto, um Grande Navegador, como o Grande Colombo, veio aportar a Lisboa com a sua Niña, foi apenas porque os ventos assim o determinaram, tal como a Pinzón, se a memória não nos falha, apanhado por outras tempestades, mandaram os ventos aportar a sua Pinta a Baiona, na Galiza, pouco mais haverá a dizer.

Defender ter Colombo prestado o pior serviço possível a D. João II ao desviar as atenções de Espanha para Atlântico, onde entrava facilmente em choque com os interesses Portugueses, quando os seus interesses, como nação entretanto unificada, estariam centrados no interior da Península Ibérica, no Magrebe e no Mediterrâneo, já é, porém, mais grave porque já entra na pura deturpação histórica.

Foram os Tratados de Alcáçovas e de Toledo apenas invenção dos tais ditos Historiadores «amadores» que tanto o irritam, como invenção dos mesmos as disputas então havidas entre as Nações Ibéricas no que ao Atlântico e, muito em especial, à Costa de África respeita, dada a comum intenção e finalidade de descoberta do Caminho Marítimo para a Índia pela designada Rota do Cabo?

Não, não se trata de simples ingenuidade nem de mero disparate mas de algo muito mais fundo.

É controversa a hipótese de Cristóvão Colombo ter sido um «agente secreto» de D. João II, como proposto por Mascarenhas Barreto?

É, sem dúvida, mas é uma hipótese bem verosímil, sobretudo quando se tem em atenção toda a preparação e negociação do Tratado de Tordesilhas e os serviços inestimáveis que a viagem de Colombo, ou já Colón, prestou então à Coroa Portuguesa nesse particular, permitindo não só a Portugal fechar toda a possibilidade a Espanha de poder vir a chegar um dia à Índia contornando África, como assegurando e guardando, desde logo, esse feito único para si.

Cousa pouca, como se percebe, _ sobretudo no enquadramento da época.

Não, não é possível que «o maior historiador português do Oriente», por menor raciocínio estratégico que possua, não veja o óbvio, como não acreditamos que não tenha lido, por exemplo, um Almirante Gago Coutinho, apesar de ser outro Historiador «amador» que certamente também menosprezará.

A questão é muito mais séria e muito mais grave.

Luís Filipe Thomaz não é apenas um qualquer simples cidadão, mesmo um qualquer simples Historiador, com ou sem Alvará, mas, acima de tudo, por quanto dito e percebido no texto do Expresso, Professor Universitário, ou seja, alguém que, pelo nosso sistema de ensino, detém a prerrogativa de obrigar sucessivas gerações de estudantes a aceitarem e seguirem, de uma forma ou outra, os seus dislates, conduzindo assim a que formem, tendencialmente, uma visão tão completamente distorcida da nossa História quanto incapacitante para uma verdadeira compreensão do que Portugal foi e é para ser, o que, longe de inócuo, nunca deixa de ter, de forma ou outra, mais subtil ou mais explicitamente, mais directa ou indirectamente, as mais vastas e nefastas repercussões, como a segunda nota editorial é um bom exemplo disso mesmo, assim se justificando termos trazido à colação tão fraca figura.

Há poucas semanas teve lugar nos Açores, como aqui noticiado, mais uma reunião de preparação do que poderá vir a ser o futuro Air Center (Atlantic International Research Center), uma espécie de CERN dedicado à Atmosfera e aos Oceanos sediado no Centro do Atlântico.

Para além de ser notável a ausência do Ministério do Mar na reunião, a mesma não deixou, porém, de suscitar um comentário de Devin Nunes, o conhecido Luso Americano Presidente do Comité Permanente para os Serviços Secretos da Câmara dos representantes dos Estados Unidos e, como consta, muito próximo do Presidente Donald Trump, que, de passagem por Lisboa para uma intervenção na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, numa entrevista ao Expresso de 29 de Abril, lembrou duas evidências muitas simples: ser inaceitável para os Estado Unidos a presença de Chineses nos Açores e, iniciando-se as negociações da Extensão dos Limites da Plataforma Continental em Agosto, importa não esquecermos os meios necessários ao cumprimentos das respectivas missões de vigilância, garantia de segurança e defesa que lhe são inerentes e se encontram igualmente implicadas, devendo termos em atenção os fracos meios da nossa Armada.

É uma entrevista que não só vale muito a pena ler como se diria quase até mesmo de leitura obrigatória para quem tem a mínima preocupação com o futuro de Portugal.

Como temos já por várias vezes escrito, como, por exemplo, aqui, é muito duvidoso que tenhamos uma efectiva «estratégia para o Atlântico, a começar não só pelos Açores mas também atendendo à situação de Cabo Verde e ao Golfo da Guiné onde tanto Espanha como França têm vindo a reforçar sistematicamente a sua posição e nós, com todas as responsabilidades e obrigações que deveríamos assumir, assim tivéssemos verdadeira consciência do que queremos vir a ser para nos afirmarmos como nação verdadeiramente soberana, livre e independente, pouco, ou mesmo quase nada, fazemos.

Não, não se afigura termos uma verdadeira estratégia para o Atlântico e, no caso dos Açores, mais não parece senão andarmos mesmo a tactear várias possibilidades desde há muitos anos, a ver o que dá, tratando, por exemplo, o assunto da Base das Lajes sem qualquer visão estratégica mas como se de uma mera questão económico-laboral e deslocalização de uma qualquer fábrica se tratasse, passando até pela situação, um pouco ridícula, de serem os norte-americanos a aconselharem-nos, em determinado momento, segundo se sabe, à edificação de um Centro de Informações para o Atlântico no Arquipélago que nos dá toda a profundidade marítima que hoje temos, embora dado posteriormente, em termos oficiais, simpaticamente, como proposto por nós, pelo Governo Português…

Triste, como triste termos de ouvir e atender aos recados de Devin Nunes, ainda por cima, carregados de razoabilidade, sem possibilidade de contrapormos seja o que for, quanto mais não seja por não dispormos de uma qualquer outra estratégia devidamente estruturada, como poderia suceder se fora esse o caso que, infelizmente, não é.

Sim, quando não percebemos como viemos a ser o que fomos e não sabemos já nem o que somos nem quanto queremos ser, infelizmente, uma vez mais, muito não será de estranhar estarmos sujeitos a este tipo de situações.

Entretanto, para nem tudo ser negativo, como última nota, uma notícia da maior importância e que vale a pena reforçar, foi a conclusão e lançamento do projecto SNIMar cuja cerimónia de apresentação pública passou, todavia, relativamente despercebida nos meios de comunicação em geral, facto para o qual a ausência da própria Ministra do Mar na mesma, não deixará de ter contribuído.

Como se sabe, o SNIMar corresponde ao Sistema Nacional de Informação do Mar, i.e., em termos sintéticos, a um Geoportal a partir do qual será idealmente possível saber e aceder a toda a informação existente sobre a área marítima nacional que, distribuída pelos múltiplos organismos responsáveis pela mesma, constitui, no seu conjunto, idealmente, uma verdadeira Infra-Estrutura de Dados Espaciais Marítimos, IDE-M, ao serviço de todos, assim se encontrem as  respectivas instituições obrigadas a proporcionarem a mesma informação devidamente actualizada _ salvo, naturalmente, eventuais dados considerados mais sensíveis ou, por quaisquer razões, reservados.

Porque é tão importante o SNIMar?

Porque, além de ser a mais perfeita representação do nosso espaço marítimo a que alguma vez poderemos aceder, até por isso mesmo, é igualmente um elemento decisivo para o Plano de Situação do Ordenamento do Espaço Marítimo, PSOEM, e, consequentemente, para o futuro Balcão do Empreendedor, ou seja, para o futuro Sistema de Licenciamento, ágil e transparente, assim esteja igualmente concluído tudo quanto respeita à verdadeira e correcta simplificação dos respectivos processos administrativos, condição, como sabemos, necessária, embora, infelizmente, não suficiente, para permitir também aumentar o número e o volume dos investimentos nas actividades marítimas em Portugal, além de todas as outras virtudes que não deixará de ter no domínio da investigação, da ciência e por aí fora.

Lançado o SNIMar, em bom andamento, tanto quanto se sabe, o PSOEM, só se espera agora que o projecto de conclusão do Balcão do Empreendedor seja tido efectivamente como prioritário e que avance rapidamente, sem ficar, uma vez mais, cativo de outras mais prioritárias prioridades do Governo, sejam elas simplesmente financeiras ou outras.



2 comentários em “Três Notas Editoriais”

  1. João Carapau diz:

    Esse “David Nunes” não será o Devin Nunes, membro da equipa Trump e entretanto apanhado nas mentiras mal-tapadas do envolvimento Russo na eleição do Donald? Poderá querer bem aos Açores, mas daí a coloca-lo num qualquer pedestal de capacidade estratégica… é puxado.

    E o que é que as teorias sobre o Colombo têm que ver com estratégias futuras de Portugal?

  2. Gonçalo Collaço diz:

    Sim, Devin Nunes e não David Nunes _ lamentável erro de automatismo !…
    Não sabemos das questões relacionadas com as eleições nem se quer ou não Devin Nunes bem aos Açores, embora admitamos também que sim, nem, muito menos ainda, o colocamos em qualquer «pedestal estratégico». A questão é distinta, ou seja, a de vermos alguém que, vindo de fora para nos dar «recados», porque não temos hoje, como desde há muito, uma linha estratégica bem definida, acompanhada de consequente acção, sermos obrigados, como se costuma dizer, a «enfiar o barrete».
    «E o que é que as teorias sobre o Colombo têm que ver com estratégias futuras de Portugal?»
    No caso, servem essencialmente para ilustrar como houve um tempo em que não só soubemos definir uma apurada linha estratégica, com a capacidade de sabermos agir consequentemente, permitindo-nos virmo-nos a tornar na primeira verdadeira grande Potência Marítima moderna.
    Os tempos hoje são, evidentemente, outros, e ninguém espera que nos tornemos de novo na grande potência marítima do mundo. Sem linha estratégica e consequente acção, a questão, porém, não é a de sabermos se podemos ou não vir a tornarmo-nos de novo na grande potência marítima de outrora eras mas, mais modesta e simplesmente, se queremos e aceitamos tornarmo-nos, de facto, numa nação completamente irrelevante, tanto de um ponto de vista político, como económico e geoestratégico.

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