O comércio mundial está a atravessar uma fase de terrível e profunda transformação que não resulta apenas de razões económicas mas também políticas e ninguém sabe ainda como irá terminar.
José Luís Cacho

A quebra brutal do comércio mundial está a assustar os armadores mundiais. Em 2016, para um crescimento do PIB mundial de 3,1% espera-se apenas 1,7% de crescimento no comércio mundial. Recuando um pouco na história os dados demonstram que entre 1995 e 2007, a eliminação de barreiras comerciais entre países, celebrados em tratados, permitiu um crescimento médio anual de 7,2% no comércio mundial. Pela sua dimensão, a adesão da China à Organização Mundial do Comércio, logo no início do novo século, tornou bem visível a explosão no comércio global. A correlação entre as trocas comerciais e o crescimento da riqueza mundial foi então quantificada na seguinte proporção: a 1% de aumento no PIB mundial correspondia um aumento de 2,2% no volume do comércio mundial. Atendendo a que 90% do comércio global é feito por via marítima, o sector passou a olhar para o PIB mundial como um indicador chave no crescimento do transporte marítimo. O que faz soar os alarmes nesta indústria é a alteração brusca na proporção que se está a verificar entre o crescimento da riqueza e o comércio mundial. A quarta revolução industrial e as suas profundas alterações nos padrões de consumo, como vimos na última análise, explicam em parte a ruptura desta correlação histórica, mas outros factores como o populismo político estão a minar o comércio mundial. O recente discurso de Theresa May sobre o Brexit, levou por exemplo Carlos Ghosn o director da Renault-Nissan a dizer que não poderá expandir a fábrica em Sunderland, a maior do país, se não tiver garantias de ser compensado com a subida de 10% em tarifas para exportar para a UE.  A resposta foi rápida. Depois de uma reunião em Downing Street, o executivo da fábrica japonesa revelou confiança na promessa de May em negociar o acesso de determinados sectores ao mercado europeu, mas a indefinição gera desconfiança. Hoje são muitos os políticos que perceberam que o medo é uma variável a explorar e utilizam-na nas suas campanhas. Os discursos sobre patriotismo económico e proteccionismo como o regresso às barreiras aduaneiras estão na ordem do dia. Apesar das declarações em contrário no último G20, o facto é que as medidas proteccionistas proliferam e o número de restrições ao comércio passou de 50 para 1200 depois de 2008. Na campanha americana quer Trump como Clinton denunciaram o Pacto Transpacífico, TPP, um pacto que a candidata defendeu outrora como uma estratégia central com a Ásia. Mas Trump vai mais longe ao denunciar que irá rever todos os acordos comercias do país.  As discussões sobre o comércio transatlântico entre EUA e a Europa pararam ao fim de 26 anos de negociação.

Na semana passada o relatório da Allied Shipbroking revela uma enorme preocupação com o regresso ao proteccionismo e critica os políticos que pretendem capitalizar com discursos radicais ao ameaçar rasgar acordos comerciais. Já há quem relembre o erro trágico na Grande Depressão da lei Smoot-Hawley americana que permitiu o retorno ao proteccionismo.



Um comentário em “Comércio mundial: bode expiatório do populismo político”

  1. Pedro Pinheiro Augusto diz:

    O comércio mundial não representa apenas benefícios para os armadores e para os exportadores. Representa também poluição, emissões de carbono para a atmosfera, aquecimento global, empobrecimento das comunidades mais isoladas e desprotegidas bem como das actividades locais que não conseguem competir com produtos vindos do outro lado do mundo.
    Seria interessante que a indústria e a economia desse resposta a estas preocupações. Já teve muito tempo, uma vez que vêm sendo colocadas há décadas. Agora, existe urgência, uma situação de desequilíbrio grave a vários níveis, uma resposta elaborada em cima do joelho está a surgir por todos os lados, para desagrado de quase todos. É a vida.

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