Talvez para homenagear Shakespeare quando se comemoram os 400 anos da sua morte, viva hoje Portugal talvez uma das mais extraordinárias Comédias de Enganos alguma vez representadas no grande palco do mundo.

Não há quem não afirme constituir-se Portugal como Nação Marítima por excelência, na prioridade do mar para Portugal e até na importância do mesmo mar da identidade nacional, entenda-se lá o que se entender por identidade nacional.

E no entanto …

E no entanto, acompanhando a visita da Comissão Parlamentar de Defesa realizada ontem à Base Naval de Lisboa, é impossível não ficarmos perplexos com o ambiente de visita de estudo liceal que revela.

Estava ali a Comissão Parlamentar de Defesa para, conhecendo a situação da Marinha Portuguesa, afirmar o seu incondicional apoio? Estava ali Comissão Parlamentar de Defesa para, conhecendo e reconhecendo as actuais dificuldades de meios e, consequentemente, operacionais, da Marinha Portuguesa, prestar a garantia do seu incondicional empenhamento numa alteração de atitude política? Estava ali a Comissão Parlamentar de Defesa para, conhecendo, reconhecendo e sabendo da decisiva importância da acção da Marinha num momento tão crítico e determinante como o actual, ficar a saber exactamente os investimentos necessários para o pleno cumprimentos das suas missões e a plena afirmação de Portugal no mar que é juridicamente seu?

Não, nem por isso. Como referiu o próprio Presidente da dita Comissão Parlamentar de Defesa, Marco António Costa, em breves declarações finais, estiveram ali, essencialmente, para se inteirarem da situação.

Ah!, muito bem, ter-se-á tratado, como referido, de uma espécie de visita de estudo liceal, para cultura e memória futura.

Mas não são os Senhores Deputados políticos, tendo alguns, entre os presentes, exercido mesmo já funções de Governo? Não é Portugal reconhecido por todos como Nação Marítima por excelência? Não é, por todos, diariamente reconhecida a importância do mar para Portugal? Não foi afinal o mar que formou a identidade nacional, signifique isso o que significar? E não exaltam e exultam todos, permanentemente, com os 4 milhões de Km2 da futura área marítima sob jurisdição nacional uma vez reconhecidos os novos limites da Plataforma Continental pelas Nações Unidas, transformando-nos na 11ª nação do mundo com maior área marítima nacional? Como explicar tanto desconhecimento por quem é político, tem por missão representar-nos a todos e, mais gravemente ainda, por vezes, exerce as graves funções de Governo em Portugal?

Sim, não sabemos o que foi dito pelo Almirante CEMA e, eventualmente, pelo Comandante Naval no designado briefing que antecedeu a visita ao COMAR porquanto o poder do povo tem, naturalmente, os seus limites e não convém que saiba demais não vá pôr-se a pensar. Um pormenor, apenas, não importando agora aprofundar.

Sabemos, porque assistimos, no entanto, às apresentações do Almirante CEMA e do Comandante Naval do COMAR e da absoluta passividade da assembleia.

Passou o COMAR de Oeiras para o Alfeite apenas por razões de concentração operacional e falta de espaço?

Falta de espaço? Agora? Então porque lá foi colocado inicialmente?

E em Oeiras onde? Numa casita sem condições ou no Comando NATO?…

Ah!, sim, talvez tudo seja demasiado evidente e nem mereça comentário.

O sistema de fusão de dados não integra a informação de radar por falta de articulação entre entidades?…

Não, evidentemente que não é estranho. Não assistimos todos, aliás, o nosso dia-a-dia a tantas outras situações como essa?… Alguma vez foi prática das instituições em Portugal comunicarem entre si a não ser, talvez, com as Finanças, como as quais todos são obrigados a comunicar tempestivamente sem mácula, falha e absoluta transparência?

Sim, nada a merecer interrogação, indignação ou sequer comentário…

E tem o COMAR igualmente a responsabilidade da coordenação SAR (Busca e Salvamento)? Alguém se indaga da sua área de 5 milhões de km2 e do lapso de tempo necessário, com os meios actuais, para se chegar aos seus extremos? Não tem Portugal um dos melhores índices do mundo na Busca e Salvamento? Tem. Por isso deve estar tudo bem. Para quê perder tempo com interrogações inúteis?

E lembrou ainda o Almirante CEMA o notável trabalho do Instituto Hidrográfico no caso Prestige? Quem é que se lembra do que foi o caso do Prestige?…

E refere-se ao Presidente da Comissão Parlamentar de Defesa que esse trabalho do Instituto Hidrográfico foi tão notável e mesmo pioneiro que Espanha e França a ele recorriam para terem as mais apuradas e rigorosas previsões de expansão e deriva da mancha de crude que os próprios não tinham ainda capacidade de realizar? E que é uma pena, em Portugal, em muitos trabalhos pioneiros e verdadeiramente inovadores como esse,  virmos a ser completamente ultrapassados por absoluta falta de empenhamento e investimento por quem de direito no que verdadeiramente importa?

Refere-se.

E como reage o Presidente da Comissão Parlamentar de Defesa?…

….

De qualquer modo, no final, o Presidente da Comissão Parlamentar de Defesa está, natural e evidentemente, muito orgulhoso da Marinha Portuguesa porque, após a visita à Corveta António Enes, a fazer 45 anos e ainda no activo quando o seu ciclo normal de vida deveria ter terminado aí pelos seus e 30 a 35 anos de operação, ou seja, somando já quase mais 50% de tempo de vida do que deveria, a Marinha Portuguesa, com esses e outros maios, seja interna, seja externamente, cumpre plenamente as missões que lhe são confiadas.

Sim, disso ninguém tem dúvidas mas, tendo agora a Comissão Parlamentar de Defesa, e o seu Presidente em particular, um renovado conhecimento e consciência da situação da Marinha, qual a consequente acção?

Sequência, consequente acção???!!!…

Não devia a Comissão Parlamentar de Defesa, os Deputados, a Assembleia da República…

Uma questão de opinião. Muito respeitável, evidentemente, como respeitáveis e evidente e devidamente respeitadas deverão ser todas as opiniões, mesmo as mais díspares. Tão respeitáveis e evidente e devidamente a respeitar que nem valerá a pena, talvez, pensar sequer e menos ainda tentar um minuto de diálogo por manifesta irrazoabilidade.

Muito democraticamente, a cada um a sua opinião, todas, naturalmente, igualmente doutas e apreciáveis.

Muito bem.

Mas tudo isso foi ontem e hoje é um novo dia.

Ah!, um dia em que a Base Naval de Lisboa não será já visitada pela Comissão Parlamentar de Defesa mas pelo próprio Senhor Presidente da República, segundo consta, e, evidentemente, outro galo cantará _ não deixando de se pedir perdão por tão popular expressão tão irresistivelmente sugestiva, contudo.

O Senhor Presidente da República tem, evidentemente, perfeita consciência da importância do mar para Portugal, tal como plenamente o demonstrou e devidamente exarado para todo o sempre deixou no seu discurso de tomada de posse, quando afirmou constituir-se o mar, mesmo, uma prioridade para Portugal, prioridade «nascida de uma geoestratégia» e, sobretudo, «de uma vocação universal».

Depois de ter decidido convidar o Presidente do Banco Central Europeu para o seu primeiro Conselho de Estado, também primeiro grande momento político do seu mandato, não podendo tal gesto deixar de significar: 1) o reconhecimento da prioridade das prioridades às Finanças para Portugal, mesmo em relação mar porque ele há prioridades e prioridades e há sempre prioridades mais prioritárias que outras; 2) o reconhecimento da subsunção da política nacional à política da União Europeia; 3) o reconhecimento do estado de inferioridade de Portugal quando impossível se lhe torna já escolher livremente o seu destino, mas sabendo e reconhecendo igualmente a sua muito genuína e afectiva preocupação pela afirmação de Portugal no mundo, é, com certeza, grande a expectativa, imensa, mesmo, i.e., sem limites, depositada nesta visita e nas respectivas declarações de análise e circunstanciado comentário à mesma.

Suceda o que suceder, hoje será, com toda a certeza, um dia Histórico. Um dia, pelo menos, em que o mar, do raiar da aurora ao fecho dos noticiários da noite, será, sem a menor sombra de dúvida, a prioridade das prioridades para Portugal.

Que o destino esteja connosco.

Portugal, 20 de Abril do Ano da Graça de 2016.

Um Dia Histórico.



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