Todos os tempos têm os desafios que lhes são próprios e afirmar que os desafios da actual geração não são, como nunca poderiam ser, os desafios das anteriores gerações, dir-se-á quase uma verdade de La Palisse.

Todavia, mesmo sendo ou não passando de uma simples verdade da la Palisse, não menos certo parece a muitos fácil ser escapar-se-lhes os desafios da sua geração, os desafios que realmente são os desafios do seu tempo, os desafios que, afinal, verdadeiramente, são os seus.

Se a D. Afonso Henriques devemos a independência política de Portugal, muito preparada pelo conde D. Henrique, de facto, ainda que não de Direito, talvez o nosso primeiro Rei, a D. Dinis devemos tanto a nossa independência cultural como a presciência da decisiva importância do mar para Portugal, como a D. Duarte devemos a nossa mais completa independência espiritual, como de Duarte de Almeida ao Infante Santo ainda hoje devemos o mais alto significado do conceito de Pátria, como ao Infante D. Henrique ainda devemos o determinante impulso para o conhecimento do regime dos Alísios e o início das Descobertas, a capacidade de ir além, regressando, com ainda a D. João II, em cúmulo, devemos a perfeita independência estratégica _ dir-se-ia, hoje, geoestratégica. E a alguns outros mais muito devemos, evidentemente, mas seria fastidioso e mesmo impossível sermos exaustivos, para além de que, como o próprio Fernão Lopes deixou escrito, se mesmo «entre Portugueses alguns traidores algumas vezes houve», ainda nos deparávamos com um pusilânime D. José a quem devemos o Marquês de Pombal e outras funestas figuras que, neste momento, mais vale deixar em seu sossegado e escuro esquecimento.

 

the-glass-house (2)René Magritte

Não se pretendendo aqui proceder qualquer ensaio de História, o que importa reter e salientar é apenas isto:

– o Homem não é uma abstracção inconsequente num mundo alheio mas um ente sempre profunda e crucialmente radicado num tempo e num lugar;

– a grandeza de uma nação faz-se pela grandeza dos seus homens representativos;

– os homens representativos de uma nação são aqueles que mais alto souberem levar o pensamento do tempo e do lugar em que lhes foi ou é dado viver;

Tudo isto significa termos também todos nós uma acrescida responsabilidade perante o tempo e o lugar que nos foi e é dado viver porque, como afirmou igualmente Leonardo Coimbra, «o Homem não é uma inutilidade num mundo feito mas o obreiro de um mundo a fazer» e, por conseguinte, o que Portugal vier ou não vier a ser, não deixará de depender de cada um de nós, do que cada um de nós souber pensar ser Portugal e tiver a capacidade de consequentemente agir, não separando, como bons portugueses, uma capacidade de outra.

Ora, neste momento em que, por um lado, exogenamente, mais se acentua a formação dos grandes blocos político-económicos e, por outro, endogenamente, mais se acentua um certo definhamento económico-político, quais são os grandes desafios que nos cumprem?

De um ponto de vista endógeno, ou seja interno, parece ser dispor, como os antigos diriam, de «uma mente são num corpo são», o que vale por dizer, no caso, de uma política sã dirigindo uma vigorosa economia.

De um ponto de vista exógeno, ou seja exterior, a afirmação de plena individualidade projectada em toda a extensão da soberania nacional.

Assim, num enquadramento como o descrito, o que importa perceber é, por um lado, esquecendo por agora a questão política, onde e quais os recursos passíveis de exploração económica e, por outro, onde e quais as possibilidades de plena afirmação de individualidade projectada em toda a extensão da soberania nacional. E olhando para um simples mapa, olhando para a nossa história político-económica e olhando ainda para a nossa realidade actual de diminuída soberania em tantos aspectos, visionários dotes não se afigura serem requeridos para logo se entender, como durante longo tempo pareceu não se entender, estar a resposta no mar, como agora parece começar a ser quase simples mas também auspiciosa evidência.

E se são esses os desafios, para os cumprirmos, o que importa então saber é: «Para Que Queremos Tanto Mar», ou seja, sabermos passar das palavras aos actos, o que vale também por dizer, percebermos «Quanto Vale o Nosso Mar», «Que Portos e Transportes Marítimos Queremos», «Que Construção e reparação naval Queremos», «Que Defesa Estamos Dispostos a Afirmar», das pescas à aquacultura, «Como nos vamos Querer Alimentar», da robótica à biotecnologia, sem esquecer as energias e o Ambiente, «Que Futuro Vamos Querer Explorar», bem como, evidentemente, sabermos, afinal, «Como Financiar tanto Mar». Ou seja, começarmos o desafio por um aberto, franco e determinado diálogo, «sem lábia», no próximo dia 2 de Junho no Anfiteatro do Museu Paula Rego, em Cascais, que nos permita começarmos a conceptualizar essa efectiva passagem das palavras aos actos, ao que há de significativo na acção, ao que verdadeiramente conta e fica na História, para maior glória de Portugal.

… E como muitos dos mais representativos Portugueses de hoje sabemos já lá irem estar, nenhum de nós vai querer, com certeza, deixar de lá ter estado.

 

Até lá, com os devidos respeitos,

O Director do Jornal da Economia do Mar

Gonçalo Magalhães Collaço



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