Como Aumentar a Resiliência dos Cabos Submarinos em Águas Nacionais - Contributos para a Elaboração de uma Estratégia Nacional, é o documento que José Barros e Luís Bernardino, Presidente do Conselho Consultivo e Presidente do Observatório dos Ecossistemas e Infra-Estruturas Digitais, aqui nos deixam para atenta leitura e consequente reflexão.

155 Anos de Cabos Submarinos a amarrarem em Portugal, sendo as Águas Portuguesas seguras para os Cabos Submarinos.

Como aumentar a Resiliência dos Cabos Submarinos nas Águas Portuguesas?

Contributos para a elaboração de uma Estratégia Nacional

Introdução

Os cabos submarinos telecom (CSs) são a espinha dorsal do sistema de comunicação global moderno.

Estes cabos de fibra ótica, que se estendem por milhares de quilómetros no fundo do mar, são na prática responsáveis por transmitir cerca de 98% dos dados de internet, voz e vídeo entre Continentes. Em Portugal, cuja localização geoestratégica é preferencial na interligação entre a Europa, África e as Américas, as suas águas são atravessadas presentemente por cerca de 10% do total dos CSs internacionais (essa % deverá crescer significativamente a médio prazo) que são absolutamente cruciais para a resiliência da rede global de telecomunicações.

A interrupção dos CSs pode ter impactos económicos significativos para Portugal e para o Mundo. Empresas, instituições financeiras e governos dependem de conexões seguras e estáveis para suas operações financeiras diárias. Qualquer interrupção pode resultar em perdas financeiras significativas, além de afetar a confiança dos cidadãos no sistema de telecomunicações de uma nação ou mesmo a nível global.

O impacto da interrupção dos CSs para a sociedade em geral será igualmente devastador com fortes implicações na vida diária de cada cidadão/ã, seja ele/a de uma região ou de um país e pode pôr em causa as respetivas coesões territoriais e sociais, tendo um impacto na nossa segurança.

A coesão territorial de Portugal depende também da capacidade de interligação doméstica de longa distância, sendo os CSs mais uma vez fundamentais para a interligação CAM (Continente-Açores-Madeira).

A soberania de Portugal está condicionada ao controlo e à diversificação de acessos internacionais. É de todo conveniente termos uma grande variedade de acessos internacionais do país de modo a não estarmos dependentes de a realização de trânsitos num número restrito de países terceiros para podermos ter acesso internacionais a jusante desses países. Mais uma vez os CSs são fundamentais, e quantos mais CSs amarrarem em Portugal mais diversidade de acessos internacionais teremos, mais opções teremos, quer em termos comerciais, quer em termos de qualidade de serviço a contratar.

1.  Principais causas para a interrupção dos Cabos Submarinos

As principais causas de interrupção sobre os cabos submarinos, são atualmente de natureza involuntária (embora existam evidências de que esta realidade está também em mudança), e devem-se a causas que estão estudadas em grande medida, nomeadamente referindo que:

(*) Desastres Naturais (14%) – Os CSs são vulneráveis a uma série de desastres naturais, tais como deslizamentos de terra, sismos, tsunamis, tempestades, correntes de turbidez, abrasão, suspensão ocasional do cabo, etc. Estes eventos podem danificar ou mesmo interromper os CSs.
(*) Atividades Humanas (74%) – São responsáveis por danificar ou interromper os CSs a atividade de pesca (arrasto) e a ancoragem de embarcações, em menor escala dragagens e a deposição de objetos no fundo do mar.
(*) Falhas do Equipamento (6%) – Se os CSs tiverem repetidores implicará a necessidade de existência de equipamento elétrico e eletrónico no fundo do mar. Tal equipamento é projetado e contratada para estar em funcionamento durante 25 anos com uma probabilidade de ocorrência de falhas muito baixa, contudo falhas poderão ocorrer. Igualmente existe equipamento elétrico e eletrónico nas CLSs que estão sujeitos a falhas.

Falhas na proteção mecânica dos CSs, assim como do seu material poderão também ocorrer devido ao desgaste ao longo dos tempos ou a imperfeições de fabrico, imperfeições essas que poderão não ter sido detetadas na aceitação do CS.  

(*) Ciberataques, a nova realidade que poderá contribuir para a alteração do Status Quo na vertente da segurança digital.

Os CSs podem tornar-se alvos para ações maliciosas. A segurança física dos CSs e infraestruturas conexas, passou a ser uma variável crucial na equação da proteção das comunicações globais.

Ataques propositados a CSs podem ocorrer numa situação de pré-conflito (guerra híbrida) e seguramente que ocorrerão em situação de guerra. Os CSs são um alvo militar em situações de pré-conflito ou de conflito, e são-no há mais 150 anos!

  • Contributo para a elaboração de uma Estratégia Nacional

Num modesto exercício de reflexão estratégica, Identificam-se 5 áreas específicas onde 25 recomendações podem ser consideradas para melhorar a resiliência dos CSs em Portugal, sendo de realçar que existem sinergias a serem obtidas de modo que o “Todo será maior do que a simples soma das Partes” e que estas medidas deveriam ser integradas numa estratégia nacional que tivesse como desígnio nacional reforçar a resiliência dos ecossistemas digitais, nomeadamente, nesta vertente específica, sobre os CSs.

a.  Redundância de Sistemas através da Diversificação

Para garantia de continuidade de serviço, é importante ter redundância nos sistemas de comunicação. Isso pode ser alcançado pela amarração de CSs adicionais e pelo estabelecimento de rotas alternativas que possam ser ativadas em caso de falha de um ou mais CSs.

Recomendações:

  1. Desenvolver a diversificação de rotas, a diversificação de CSs na mesma rota, a diversificação de CLSs em território nacional e ainda diversificação na rede terrestre de interligação das CLSs (backhaul);
  • Apostar na interligação de CLSs nacionais por CSs domésticos (cabotagem ou festoon) em complemento à rede terrestre de interligação.

b.    Monitorização e Supervisão

A implementação de sistemas de supervisão e monitorização contínua poderá servir de prevenção e poderá mitigar o impacto e ajudar a responder mais rapidamente a qualquer dano ou interrupção nos CSs.

Recomendações:

  • Apostar na “Sensorização” dos CSs permitindo a deteção de impactos externos (SMART Cables[1], e em complemento OFS[2] – DAS[3], SoP[4], etc.) e apostar ainda na integração desses dados com os dados operacionais dos CSs;
  • Potenciar o reforço da vigilância e adoção de medidas de proteção acrescidas, nomeadamente nos pontos críticos junto da amarração dos CSs nomeadamente no Dry Segment (shore end e o BMH e entre os BMHs e as CLSs); e no Wet Segment (shore end) e nas áreas críticas das rotas dos CSs em águas rasas e profundas;
  • Desenvolver a implementação de sistemas avançados de monitorização para deteção e análise em tempo real de anomalias ou riscos potenciais. Algoritmos de IA podem analisar grandes volumes de dados de monitoramento para identificar padrões e prever possíveis falhas antes que ocorram, poderão também servir para previsão de falhas e para otimizar a manutenção preventiva. Esta monitorização/supervisão centralizada deverá ser prestada por entidade pública certificada, como serviço público de monitorização e supervisão dos CSs na ZEE e Águas Territoriais através de constituição de uma plataforma multi-layer que integre dados de monitorização oriundos de variadas fontes (AIS[5], RF, Radares, “Sensorização” dos CSs, etc.). Esta abordagem proativa pode reduzir significativamente o tempo de resposta a acidentes naturais (deslizamentos de terras, correntes de turbidez, sismos, etc.) ou incidentes devido a atividade humana (sejam eles propositados ou não).

c.  Proteção Física

Reforçar a proteção física dos CSs é essencial para a segurança do sistema. Sendo já uma preocupação dos instaladores de CSs, tal poderá incluir alterações de rotas, o uso de revestimentos mais resistentes nos cabos e a instalação dos cabos em maiores profundidades, fora do alcance de acidentes naturais, mas sobretudo das atividades humanas que possam causar danos. Contudo, a criação de zonas de exclusão para ancoragem, pesca e deposição de materiais ao longo das rotas dos CSs pode reduzir significativamente o risco de danos nos CSs, e aqui far-se-á a diferença.

Recomendações:

  • Privilegiar  ordenamento do espaço marítimo alocando áreas dedicadas a diversas atividades (pesca, cabos submarinos de energia, CSs de telecomunicações, plataformas de energia eólica, deep sea mining, emissários e condutas de recolha água para dessalinização e cooling, etc.), ordenamento esse do espaço marítimo onde serão estabelecidas zonas de proteção e de supervisão de CSs (“corredores” com pré-autorizações de Licenciamento parcial e como zonas de proteção de CSs), não sendo sobretudo as rotas dos CSs identificadas, sabendo-se somente que nessas zonas assinaladas poderão estar CSs (não se sabendo quantos, e muito menos quais);
  • Desenvolver a promoção do enterramento dos CSs em águas rasas, promoção de utilização de revestimentos protetores dos CSs no shore end e de práticas de HDD[6] junto à costa.

d.  Panorama Nacional

Em termos nacionais será importante desenvolver iniciativas que promovam o envolvimento de variados stakeholders públicos e privados, em colaboração e cooperação, sendo necessária coordenação por autoridades e entidades públicas a variados níveis.

Recomendações:

  • Intensificar o aconselhamento didático para adoção de novos requisitos de segurança no processo de Licenciamento de CSs que amarrem em Portugal;
  • Para os casos dos SMART Cables que amarrem em Portugal, atribuir a estes cabos prioridade e celeridade acrescida nos processos de Licenciamento já que os mesmos trazem valor acrescentado ao país, pois além de proporcionarem interligação, contribuem com os dados da parte de Observação para a proteção do próprio cabo (e de outros cabos submarinos na sua vizinhança) e servem a ciência (alterações climáticas, oceanografia, geofísica, etc.) e a sociedade (avisos precoces à população da chegada de sismos e tsunamis);
  1. Legislar no sentido de assegurar obrigações de partilha de dados de “Sensorização” obtidos por CSs (SMART Cables e CSs com OFS) que cruzam a nossa Zona Económica Exclusiva (ZEE) alargada e águas territoriais nacionais e que não amarram em território nacional;
  1. Realizar de ações de fiscalização nos Dry e Wet Segments, assim como de auditorias e inspeções periódicas nas CLSs e Dry Segments para garantia de conformidades e desempenhos;
  1. Facilitar o estacionamento de navios de reparação em portos da “Zona CAM” e de instalação de armazéns de sobressalentes de CSs nas proximidades dos respetivos portos com vista a facilitar a manobra logística de lançamento e reparação de CSs;
  1. Apostar na facilitação da actividade dos navios de instalação/reparação de CSs em águas territoriais e ZEE;
  1. Realizar exercícios navais de proteção de CSs em águas nacionais envolvendo as Forças Armadas e demais agentes de proteção das infraestruturas críticas;
  1. Em estrita colaboração com a CPEC, apostar na promoção de exercícios periódicos de restauração de CSs que amarrem em Portugal com o necessário e essencial envolvimento dos Operadores (com muito provável necessidade de recurso a redes terrestres); tal prática era comum antes da liberalização do sector na década 80/90 e deixou de ser praticada a nível regional a partir do início do presente século havendo presentemente muito poucos exemplos de acordos de entreajuda entre sistemas internacionais;
  1. Desenvolver planos de contingência nacionais para permitir respostas rápidas e eficientes a incidentes pontuais que comprometam a segurança física dos CSs (Wet e Dry Segment);
  1. Promover a realização sistemática de testes e exercícios em ZLTs de novas técnicas de monitorização e reparação de CSs;
  1. Promover a colaboração dos Operadores e das comunidades locais nas iniciativas de proteção e monitorização;
  1. Reforçar a formação técnica de equipas de reparação de CSs (civis e militares) com vista a garantir uma capacidade mínima nacional neste âmbito;
  • Promover o estabelecimento de parcerias com a Marinha, Autoridades, Academia e com a Indústria dos CSs (operadores e fornecedores) para a criação de um cluster R&D tendo em vista a inovação no desenvolvimento tecnológico para proteção de CSs.

e.  Cooperação Internacional

A colaboração entre nações é crucial para a proteção dos CSs. A participação em organismos e organizações internacionais é muito importante e a criação de acordos e protocolos internacionais pode facilitar a troca de informações tendo em vista uma maior prontidão na resposta, sendo a coordenação de esforços fundamental para proteger esta infraestrutura vital. Portugal, devido à sua localização geoestratégica, pode desempenhar um papel importante na promoção e liderança de iniciativas globais tendo em vista o aumento da segurança dos CSs.

Recomendações:

  • Apostar na cooperação internacional (bilateral e multilateral) no sentido de reforçar a partilha de conhecimento e de recursos;
  • Permitir a adesão de stakeholders nacionais à International Cable Protection Committee (ICPC)[7];
  • Reforçar a nossa participação e colaboração com Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO)[8] e a Agência Europeia de Defesa (EDA)[9];
  • Reforçar a representação do Estado Português na Agência Europeia para a Segurança das Redes e da Informação (ENISA)[10] e na União Internacional das Telecomunicações (UIT)[11] para abordagem da segurança dos CSs;
  • Promover o reforço da cooperação bilateral e multilateral entre as Autoridades Nacionais com competências e responsabilidades de Segurança nas telecomunicações.

Conclusão

Aumentar a resiliência dos cabos submarinos nas águas portuguesas é uma tarefa multifacetada com a intervenção de muitos stakeholders oriundos de variados sectores, mas é eminentemente uma função de soberania do Estado. A dependência global dos CSs nas comunicações seguras e estáveis é muito relevante, e garantir a resiliência dos CSs como uma infraestrutura crítica torna-se cada vez mais essencial para a segurança e prosperidade económica de Portugal e do Mundo.

Estas 25 medidas ou recomendações articuladas em cinco áreas distintas, mas interligadas, constituem, em nossa opinião, condições essenciais para se obter uma maior resiliência do sistema digital que constitui a rede de CSs. A assunção das mesmas permitirá uma maior consistência, segurança e fiabilidade nas nossas comunicações domésticas e internacionais (regionais e intercontinentais) que usam os CSs, contribuindo para que Portugal possa constituir-se como um exemplo no contexto global da segurança dos Cabos Submarinos.

Sendo as Águas Portuguesas seguras para os CSs, tal facilitará a amarração de novos CSs internacionais no país, contribuindo tal também para Portugal se tornar numa Hub Digital no Atlântico Nordeste, de acordo com o conceito então desenvolvido durante a Presidência Portuguesa da UE durante 2021: Portugal não será uma Ilha no Oceano Digital.

Lisboa, 7 de Fevereiro de 2025

Engª José Sousa Barros

Presidente do Conselho Consultivo do Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais

conselhoconsultivo@oeid.pt

Prof Doutor Luís Manuel Brás Bernardino

Presidente do Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais

presidente@oeid.pt

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ACRÓNIMOS:

AIS: Automatic Identification System

BMH: Beach Manhole

CAM: Continente, Açores e Madeira

CLSs: Cable Landing Stations

CPEC: Comissão de Planeamento de Emergência das Comunicações

CSs: Cabos Submarinos Telecom

DAS: Distributed Acoustic Sensing

EDA: Agência Europeia de Defesa

ENISA: Agência Europeia para a Segurança das Redes e da Informação

HDD: Horizontal Directional Drilling

IA: Inteligência Artificial

ICPC: International Cable Protection Committee

NATO: Organização do Tratado do Atlântico Norte

OFS: Optical Fibre Sensing

R&D: Research and Development

RF: Radiofrequência

SMART: Scientific Monitoring And Reliable Telecommunications

SoP: State of Polarization

UIT: União Internacional das Telecomunicações

ZEE: Zona Económica Exclusiva

ZLTs: Zonas Livres Tecnológicas


[1] https://www.smartcables.org/

[2] https://www.viavisolutions.com/en-us/resources/learning-center/what-fiber-optic-sensing

[3] https://www.ofsoptics.com/what-is-distributed-acoustic-sensing-das/

[4] https://www.science.org/doi/10.1126/science.abe6648

[5] https://en.wikipedia.org/wiki/Automatic_identification_system

[6] https://www.hadleeandbrunton.co.nz/what-is-horizontal-directional-drilling/

[7] https://www.iscpc.org/

[8] https://www.nato.int/nato-welcome/index_pt.html

[9] https://eda.europa.eu/

[10] https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=enisa

[11] https://www.itu.int/en/Pages/default.aspx



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