Dois estudantes de Engenharia Química juntaram-se para introduzir em Portugal o aditivo renovável que se acrescenta ao combustível petrolífero e fecha o círculo de carbono, ajudando a reduzir emissões. Só lhes falta investimento e massa crítica
Decreto n.º 26/2018
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Juntou-se um brasileiro, Vinicius dos Santos, que está a fazer a modelação do processo marítimo do Heavy Fuel Oil, bastante problemático a nível ambiental, e um português Pedro Serra, na parte da biomassa, bem como algum conhecimento na área, principalmente fora de Portugal, e podemos ter um aditivo mágico para o transporte marítimo e não só.

 

O aditivo que pretendem investigar e colocar em prática é um aditivo renovável que se acrescenta ao combustível petrolífero e poderá diminuir a mistura dos combustíveis para que com propriedades boas possa ser aplicado no transporte marítimo. E dessa forma pode ajudar a resolver o problema ambiental que enfrenta o transporte marítimo nos dias de hoje.

 

Para explicar, na prática, como se procede, Pedro Serra começou por esclarecer que os combustíveis renováveis também poluem, simplesmente, fecham o ciclo de carbono. E o que quer isto dizer? A capacidade de sequestro de CO2 dos recursos marinhos é muito maior do que em terra e acidifica o mar, um problema para o ecossistema. E fechando o ciclo, por cada aditivo deste combustível na refinaria, vai emitir-se CO2 que depois será sequestrado pelas farms (agricultura das algas em offshore) e reduz as emissões de SOX, que normalmente as energias renováveis não têm.

 

A ideia é, portanto, “integrar nas refinarias portuárias, onde os cargueiros fazem os seus abastecimentos de combustível e queremos integrar aditivos renováveis provenientes de um bio-recurso marinho”, diz Pedro Serra.

 

E porque esta é a melhor solução? Nos recursos florestais, por exemplo, não existe uma rede que permita agregar a biomassa. Os produtores têm pequenas biomassas residuais, de pequena economia, mas o seu transporte para a indústria não acrescenta valor. “Aqui, já temos a economia das pescas implementada e, portanto, como costumo dizer, o barco que vai buscar o peixe é o mesmo que pode ser cultivado offshore”, esclarece.

 

Em Portugal, há um grande potencial, como explica Pedro Serra. “Temos duas refinarias que estão ligadas e têm actividade pesqueira – Matosinhos e Sines, e integrar esta pequena economia dentro da grande economia da refinaria, principalmente a nível económico traria uma integração muito boa para a zona local”, pelo que a ideia é haver uma interligação comercial da parte dos pesqueiros com a refinaria.

 

O que iria também auxiliar na questão da sazonalidade, um dos problemas que enfrentam os pescadores, pelo que integrando neles outro valor (valor de biomassa) poderia aliviar a pressão da sobre-exploração dos recursos marinhos nas pescas.

 

O projecto consiste também no “upgrade em processos sustentáveis como o hidrogénio”, pelo que o “a nível de refinaria funciona, mas se quiser no futuro descentralizar a produção de bio refinaria marinha, e já não estar conectada só à refinaria de óleo, eu tenho de ter uma fonte de hidrogénio. E essa não vem do interior da refinaria, tem de vir de um processo interno, de desenvolvimento catalítico”.

 

Existem já projectos semelhantes, nomeadamente na Holanda, na Dinamarca e na Noruega, que está na vanguarda destas pesquisas, designadamente a Sintef, a organização de pesquisa que mais desenvolve este processo. “Nós não estamos a reinventar a roda, se calhar estamos a transportar a roda para Portugal”. “E podemos fazê-lo olhando para o que já está feito, o que pode ser melhorado em cada uma das unidades e principalmente perceber na zona da produção das macro-algas o que pode ser feito a nível de tipo de algas que tem sustentabilidade em Portugal, e quais são as espécies”.

 

Por agora, há um processo de investigação pela frente. Entender quais as melhores algas em Portugal, toda a regulamentação na área, e não cometer o grande erro de dirigir só para a produção de combustível: “fraccionar a biomassa pode permitir abrir caminho para outros produtos de maior valor acrescentado, pois a produção de energia só compensa em larga escala”, diz Pedro Serra.

 

“Estamos a trabalhar a nível de implementação, o sistema de diagrama, e temos o objectivo de correr essa modelação e entrar em projecto de engenharia”. Para esta ideia ganhar “verdadeira vida” faltam profissionais de engenharia e da área das finanças, perceber o que se pode alavancar no mercado português. Mas por agora, é a investigação crucial que necessita de massa crítica.

 



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