Desde Aristóteles, pelo menos, que se sabe não ser a visão lago meramente passivo, como Goethe também acentuou e a mais moderna neurociência também vai redescobrindo, sempre com aquele simpático e ingénuo ar de quem muito se surpreende sempre com a mais simples das evidências.
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Diz também o nosso povo não haver pior cego do que o que não quer ver.

Simples adágio popular?

Simples adágio popular na expressão ou figura, sem dúvida, mas revelador também da mais alta ciência e sabedoria que o formou.

Hoje, uma época totalmente exteriorizada, que alguns designarão também como profundamente materialista, se é difícil já distinguir entre forma e figura, tampouco será fácil distinguir entre simplesmente olhar e ver, saber verdadeiramente ver.

Curiosamente, num momento em que Homem se afigura viver uma época em que se lhe oferecem possibilidades como nunca anteriormente dadas, é também um momento em que o Homem parece viver cego como nunca anteriormente _ totalitariamente cego, dir-se-ia, revelando a forma mentis da época uma incapacidade de ver que não deixa sempre de muito surpreender e mais ainda espantar.

Ouve-se hoje falar permanentemente em transversalidade, multidisciplinaridade e outros chavões que de tão ditos já nada significam senão uma real e profunda incapacidade de atender verdadeiramente ao que se diz ou quanto mais importa.

Uma forma mentis, tendencialmente estática, sem imaginação, cousa muito diferente de fantasia, embora seja já difícil encontrar quem uma de outra saiba distinguir correctamente, como se torna bem patente hoje desde o mais predominante e supostamente iluminado discurso político até às mais simples e quotidianas conversas de café.

Uma forma mentis que não deixará de ter as mais catastróficas repercussões se igualmente aplicada aos Assuntos do Mar.

Também por isso mesmo o nosso próximo Seminário dedicado à Construção Naval em Portugal, a ocorrer no próximo dia 21 na Escola Náutica Infante D. Henrique, não deixará de ter um âmbito algo invulgar, congregando algumas das mais eminentes figuras das mais variadas áreas, não apenas da Construção Naval em si, mas também da Marinha, da Robótica ou dos Sistemas de Informação, bem como de empresas internacionais representando alguma da mais evoluída tecnologia na área.

De acordo com essa tão prevalecente visão algo cega, ou forma mentis estática, como designada anteriormente, a tendência para alguém responder quase imediata e automaticamente não vislumbrar grande futuro quando interrogada sobre a sua visão para as possibilidades da Construção Naval, é, de facto, muito elevado, tal como, infelizmente, temos constatado.

Sim, a grande construção, em termos brutos, está hoje na Ásia, na China, na Coreia, no Japão, continuando, porém, a Europa a construir os grandes Cruzeiros e navios militares, de Fragatas a submarinos, ou seja, navios a exigirem alta tecnologia, como sucede ainda na Alemanha, França e Itália, como os mais proeminentes exemplos.

Perante um tal panorama, entendendo a construção naval apenas no estrito sentido de quanto se tem construído em termos de navios, dos Petroleiros às Fragatas e Submarinos, dos Porta-Contentores e os mais variados tipo de Graneleiros aos Cruzeiros, a primeira reacção é não vislumbrar, de facto, grande futuro à construção naval em Portugal.

Mas será esse, verdadeiramente, o futuro da construção naval em Portugal?

Pensemos, por exemplo, em termos da Marinha e dos milhões de quilómetros quadrados de área marítima sob jurisdição nacional que temos, e mais ainda teremos, para patrulhar, vigiar, defender e prover segurança.

É apenas com Fragatas e Submarinos que esse trabalho irá ser realizado? Afinal, qual a Marinha do futuro que queremos? Não haverá lugar a uma profunda e decisiva contribuição dos nossos estaleiros na constituição da Armada do futuro?

E se pensarmos em termos de Áreas Marinhas Protegidas de tão crucial importância como uma Nação como Portugal, não serão necessárias novo tipo de plataformas, sensores e seja o que mais for de modo a assegurar igualmente o seu patrulhamento, vigilância, defesa e garantia de segurança?

E se pensarmos na Biotecnologia, prospecção e futura exploração do mar profundo, não será igualmente decisivo virmos a possuir os mais sofisticados sistemas de robótica do mundo?

E mesmo em termos mais estritamente militares ou de afirmação de autoridade no mar, das Fragatas aos Navios Patrulha, não é hoje um elemento crítico, em muitos casos, mesmo o elemento mais crítico, os múltiplos, mais avançados Sistemas de Informação incorporados?

Será necessário ainda dar mais exemplos, dos desafios da pirataria às mais diversas formas de tráfico que infestam de modo cada vez mais esmagador as costas de todas as nações marítimas do mundo, ou até mesmo às plataformas de produção de energia renovável marinha, para nos ficarmos por aqui?

Não se afigura, mas talvez importe e nunca seja demais lembrar como é importante, crucial, decisivo, por isso mesmo, haver verdadeira cooperação entre todos, não apenas de um ponto de vista virtual mas real, e isso, em Portugal, nem sempre ocorre com a sistematização que importa e é crucial, determinante, decisivo, repetimos, que ocorra.

Ou seja, não basta olhar, para verdadeiramente ver é preciso saber ver _ e com a imaginação que nos caracteriza, com essa «centelha divina no Homem», na consagrada e bela expressão de Álvaro Ribeiro, não há razão alguma para não vislumbrarmos na construção naval em Portugal o futuro luminoso como no passado já soubemos ter.



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