Na Conferência proferida ontem na Academia de Marin, Eric Grove, reputado Historiador Naval Britânico, instou Portugal a assumir as suas responsabilidades no Atlântico.
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Eric Gove iniciou a Conferência lembrando uma divergência tida há muitos anos com o seu colega e eminente estrategista Colin S. Gray quando este defendia, após a Queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, termos entrado numa era ou período «entre guerras», o que hoje, porém, aceita integralmente.

De algum modo, a sua Conferência foi exactamente uma explicação ou explicitação das razões porque alterou entretanto a sua visão sobre essa questão, bem como sobre quanto entende não apenas devermos atender actualmente mas, acima de tudo, fazer, para que esta época assim permaneça sem avançar para nova fase, ou seja, para a eclosão de um novo conflito miliar armado, tendo como pano de fundo a Europa e a Rússia que, afigura-se, por toda a argumentação exposta, de facto, o principal foco de toda a sua grande preocupação.

Em síntese, para Eric Grove, a mais importante característica da Rússia é constituir-se um Império por natureza, tendo, por consequência, enquanto Império, a expandir-se agressivamente, de modo a ocupar o lugar que considera ser seu por Direito, se assim se pode dizer, redesenhando novas fronteiras de acordo com essa sua visão muito própria do mundo.

Foi nesse enquadramento que Eric Grove, desempenhando entretanto várias missões na Rússia, assistiu à ascensão de Vladimir Putin, não hesitando em classificá-lo como alguém que incarna na perfeição essa mesma visão da Rússia e do mundo, não hesitando em proceder em conformidade, ou seja, em usar a força para impor essa mesma visão imperial, razão porque, confundindo-se tudo isso com as mais profundas e arquetípicas tradições Russas, a sua popularidade atinge hoje, independentemente de tudo o mais, a dimensão que é reconhecida e todos conhecemos.

Os casos da Geórgia e da Ucrânia são, nesse âmbito, entre outros, os casos mais evidentes, significativos e extremos dessa atitude, não podendo nós esquecermos que sucederam como sucederam também porque não encontraram qualquer efectiva resistência que impedisse que tudo tivesse sucedido como sucedeu.

Isto é, uma das formas mais típicas de actuação de Vladimir Putin em particular, e da Rússia em geral, é ir avançando paulatinamente, testando a resistência, porquanto a única lei que verdadeiramente reconhecem e aceitam é a força, força bruta, força militar, entendendo Eric Grove _ e daí a sua preocupação _, estar a Europa mal preparada nesse domínio, ou seja, em termos militares em geral e marítimos em particular, para fazer face a esses avanços, aos, por enquanto, ainda pequenos mas persistentes avanços em sucessivo teste, mais evidentes, actualmente, sobretudo no Mar de Barents e no Mar da Noruega, mas também já no Atlântico e no Mediterrânio.

Testes e avanços que respeitam essencialmente ao envio de submarinos, não se encontrando hoje a Europa devidamente capacitada para a luta anti-submarina nem anti-aérea, o que importa alterar rápida e radicalmente.

Na sua perspectiva, tem-se contado sempre com os Norte-Americanos, mas os Porta-Aviões Norte-Americanos estão no Golfo e no Pacífico e quando se detectam incursões Russas em águas europeias, como ainda recentemente ocorreu, a vigilância e reacção é realizada através do envio de helicópteros por serem, como então sucedeu, os únicos meios disponíveis, o que, uma vez mais, na sua perspectiva, é muito pouco, muito insuficiente e completamente desastroso.

Assim, Eric Grove advoga a necessidade de uma defesa mais activa e de ataque, com verdadeira capacidade de deter submarinos e aviões em qualquer circunstância, fazendo ver e saber que, a todo o momento, em qualquer incursão, foram devidamente detectados, estão a ser devidamente seguidos e são, se necessário, um alvo a abater nesse mesmo momento.

Quando refere essa necessidade de uma Defesa de ataque mais efectiva e activa, Eric Grove fala também em termos mais alargados da NATO, não esquecendo o novo Comando Naval a ser instalado na Virgínio, evidentemente, não esquecendo, inclusive, a importância de operação conjunta, mas, independentemente disso, a sua preocupação é, de facto, a Europa e a sua falta de equipamento, de treino anti-submarino e anti-aéreo, não deixando também de destacar, nesse exacto âmbito, a importância de uma plataforma como o novo Porta-Aviões Britânico, o QE II.

Sabendo que a fraqueza própria é sempre acúmulo de força para o adversário, Eric Grove entende igualmente que uma despesa na casa dos 3% em termos de Defesa não seria excessivo, querendo a Europa demonstrar real vontade e capacidade de reacção, dando um exacto sinal dessa mesma disposição.

Naturalmente que o Brexit altera um pouco o panorama Europeu em termos de Defesa mas, ao contrário do que talvez fosse de esperar, para além de permanecerem sempre profundos laços de cooperação e interesse comum, seja no âmbito da NATO, seja em termos estritamente Europeus, Eric Grove vê até como eventualmente benéfico essa saída da Grã-Bretanha dada a sua sistemática oposição a uma maior integração nesse domínio, o que agora será eventualmente mais fácil e possível, admitindo ainda que a Alemanha, nesta nova circunstância, penando em termos Europeus e não estritamente nacionais, ultrapasse a mais tradicional relutância e avance para um decididamente para o necessário reequipamento militar, tanto em termos do seu Exército quanto da sua Marinha.

Nesse enquadramento, talvez porque Britânico e sempre persista uma certa rivalidade com os Galos, vendo também as crescentes incursões Russas no Atlântico e os riscos que essas mesmas incursões poderão vir a ter em termos de interferência nas cruciais comunicações transatlânticas, onde se inclui mesmo a possibilidade de corte de cabos submarinos de comunicação, Eric Grove não deixou de instar Portugal a assumir em pleno as suas responsabilidades no Atlântico, não esquecendo sequer o papel que poderá ter numa certa orientação e influência sobre os PALOP, particularmente relevante para contrariar, eventualmente, alguma crescente presença da China também, e muito em especial, no Atlântico.

Embora mais centrada sobre a Europa, o Atlântico e a Rússia, a Conferência não se circunscreveu, porém, exclusivamente a essas questões.

Embora mais brevemente, para além de uma síntese histórica da evolução da doutrina estratégica da NATO ao longo das décadas mais recentes, outra grande preocupação de Eric Grove, para além da Ásia e dos potenciais conflitos aí existentes, envolvendo a China, o Japão e o Vietname, entre outras nações, centra-se no Oceano Índico, não deixando de acentuar temer mesmo uma possível e próxima confrontação Índia-China, com foco a partir de Djibouti, sem ter tido todavia possibilidade de desenvolver em maior profundidade o tema.



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