Mar de Portugal e Mar da República parece o mesmo, mas não é. No primeiro caso significa a consciência do interesse permanente de Portugal, como se costuma dizer nos meio mais ligados ao pensamento estratégico, no segundo, não mais do que uma curiosidade intermitente ao sabor dos ventos e das circunstâncias dos «afectos».
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Surpreendente?

Não, inevitável. Tão inevitável quanto simples e imediato fruto do tão estranho quanto devastador «tempo dos afectos» que vivemos, em grande medida, infeliz e funestamente impostos, inclusive, pelo actual Presidente da República, não podendo senão reconduzir, ou reduzir, Portugal à menoridade mental, para mais não dizer.

Sim, uma existência dominada pelos afectos é o que próprio do mundo infantil. Choram os infantes quando têm fome, berram quando querem atenção, gritam se são contrariados antes de perceberem, ou terem capacidade para entenderem, que as contrariedades fazem parte da vida e que crescer, amadurecer, é aprender também a ultrapassar essas mesmas contrariedades, a saber ir além desse virginal mundo feito apenas de afectos.

O que se deve fazer para «descrispar» as birras de afecto dos infantes que se recusam a crescer? Cumulá-los ainda com mais afectos, tudo compreendendo, em tudo concedendo, ou educá-las adequadamente, i.e., dar-lhes consciência de si mesmas, do mundo e do facto de que, não deixando nunca o ser humano de ser composto por instintos e «afectos», muito mais importante do que isso, é que se reconheça e se saiba ser de razão e, como tal actue?

Não constitui o primeiro passo de amadurecimento a capacidade de dominar exactamente instintos e afectos?

Elementar, dir-se-á _ e até parecerá estranha a necessidade de o lembrar, mas quando tanto se exalta e se cultua o «tempo dos afectos» como se um «tempo novo» se tratasse e o ideal fora mesmo todos recuarmos aos mais remotos primórdios da nossa mais tenra infância, não se justifica a chamada de atenção, sobretudo quando se percebe também não poder uma Nação, ainda por cima uma Nação como Portugal, no momento grave que atravessa, ser Governada por «afectos», ou seja, de acordo com a volatilidade das emoções, dos sentimentos, das paixões, mas de acordo com um conhecimento e uma sabedoria firmadas num verdadeiro e consequente «pensamento estratégico»?

Como dada a notícia em devido tempo,  no seu discurso de Terça-feira passada, proferido na Sessão Solene da Academia de Marinha de confirmação da atribuição da Presidência Honorário da mesma Academia à Presidência da República, não deixou o Presidente de afirmar: «Havendo um consenso natural quanto à estratégia nacional para o mar, só nos falta o mais importante, explicitá-la e fazê-la partilhar permanentemente com os portugueses, transformá-la em realidade viva e conferir-lhe a urgência das escolhas inadiáveis. Fazê-la partilhar pelos Portugueses, sem o que será sempre uma prioridade não assumida por quantos decidem pleitos eleitorais, optam quanto aos novos governantes e, sobretudo, podem transformar uma evidência de minorias em realidade vivida pelo todo nacional».

Não se pode deixar de estar mais de acordo com tais afirmações _ e tanto mais quanto se encontram entre as mesmas algumas das principais que conduziram, como então anunciado, exactamente ao lançamento do projecto do Jornal da Economia do Mar, já lá vão quatro longos anos.

Mas se é assim, i.e., estando o Presidente da República real, genuína e seriamente preocupado com a afirmação da prioridade e importância do Mar para Portugal, não surpreende que haja, ao fim de quase dois anos de mandato, manifestado tal preocupação, em termos públicos, apenas duas vezes, para além da referência efectuada no seu discurso de tomada de posse na Assembleia da República, a primeira, em Dezembro passado, na Celebração dos 700 Anos da Marinha Portuguesa, e agora, pela segunda vez, na referida Sessão Solene da Academia de Marinha, onde, em ambos os casos, não deixou de expressar também a importância do reequipamento da nossa Armada?

Ou seja, estando o Presidente da República real, genuína e seriamente preocupado com a afirmação da prioridade e importância do Mar para Portugal, prioridade que deve ser «assumida por quantos decidem pleitos eleitorais, optam quanto aos novos governantes e, sobretudo, podem transformar uma evidência de minorias em realidade vivida pelo todo nacional», porque não ouvimos nós uma única palavra que fosse em relação ao Mar em discursos em que tal faria, aparentemente, todo ou mesmo muito mais sentido, como, por exemplo, no último discurso de Ano Novo?

Um enigma.

Como não deixa de ser também um certo enigma a razão que terá levado o Presidente da República, perante uma assistência constituída quase na totalidade por Ofiacis da Marinha, entre os quais vários Almirantes, do actual CEMA (Chefe de Estado Maior da Armada), a vários  ex-CEMA, a proferir um discurso exactamente como o que proferiu, ou seja, totalmente centrado na preocupação de sublinhar a prioridade e importância do Mar para Portugal?

Não é, não deverá ser sempre, a finalidade primordial de um discurso público do Presidente da República persuadir a respectiva audiência tendo em vista conduzir a uma consequente acção?

Se assim é, e assim cremos ser, não faria mais sentido, em tal circunstância, sem querer parecer estar a ensinar o Padre Nosso ao Vigário, uma reflexão, por exemplo, sobre a renovada importância estratégica do Atlântico e o papel a desempenhar por Portugal em tal enquadramento, levando, por hipótese, os respectivos Oficiais da Marinha a reflectirem mais determinadamente sobre o mesmo tema, decidindo, correlativamente, que Marinha é que necessitamos ou devemos efectivamente ter, ou construir, tendo em conta os novos tempos, em lugar de um discurso centrado apenas sobre a prioridade e importância do Mar para Portugal que, em 2018, em tal contexto, se afigura manifestamente pouco?

Há dez anos, quando falar da importância do Mar para Portugal era ser tido ainda por muitos como «fascista», poder-se-ia perceber. Agora, porém, definitivamente ultrapassados esses dias, não seria de esperar mais, induzindo, pela poder da palavra, à acção, tendo em vista, por exemplo, como também dito já no lançamento do Jornal da Economia do Mar, «transmutar todo o já reconhecido potencial do Mar Português em verdadeiro acto económico e real poder estratégico»?

Não foi o próprio Presidente da República que sublinhou igualmente no seu discurso de Ano Novo, «a coragem de reinventarmos o futuro»?

Mesmo que a formulação não seja eventualmente a mais feliz, admite-se plausível entender-se perfeitamente quanto pretendeu, de facto, significar e que não seria, com certeza,  a intenção de regressar às muito controversas discussões medievais sobre a possível, ou impossível, presciência de Deus sobre os «futuros contingentes», mas tão só, e muito bem, acentuar como o futuro, longe de estar «inventado», depende muito, crucialmente, da nossa actual capacidade de o pensamos e da consequente acção que estivermos dispostos a verdadeira e responsavelmente realizar.

Mas dessa «reinvenção», entre alguns exemplos enunciados, nenhum respeitou ao Mar nem se figura que essa possibilidade haja, por um breve momento que fosse, aflorado sequer.

Porquê?

Porque o Mar da República é, de facto, distinto do Mar de Portugal, como exposto inicialmente?

Muito provavelmente.

Quanto temos uma República completamente dominada pelos «afectos», não é o que tenderá, naturalmente, a suceder?

Muito provavelmente.

E isso importa?

Importa.

Como afirmou o Presidente a República no seu discurso na Academia de Marinha, repetimos, «havendo um consenso natural quanto à estratégia nacional para o mar, só nos falta o mais importante, explicitá-la e fazê-la partilhar permanentemente com os portugueses, transformá-la em realidade viva e conferir-lhe a urgência das escolhas inadiáveis. Fazê-la partilhar pelos Portugueses, sem o que será sempre uma prioridade não assumida por quantos decidem pleitos eleitorais, optam quanto aos novos governantes e, sobretudo, podem transformar uma evidência de minorias em realidade vivida pelo todo nacional», importa agora sermos capazes de cumprir tão decisivo desígnio, sabendo não podermos contar muito com quaisquer instâncias oficiais, o que significa também uma redobrada responsabilidade do Jornal da Economia do Mar conseguir, como desde início, congregar todos quantos, tendo verdadeira consciência da importância do Mar para Portugal e o consequente pensamento estratégico, recusam que tudo se fique por uma questão de «afectos, «emoções», «sentimentos»,  «paixões», por mais nobres e bem-intencionadas que sejam, obrigando os políticos não apenas a darem a devida atenção ao Mar, aos Assuntos do Mar, mas a agirem consequentemente, como nem sempre tem sido feito.

Como ficou bem patente também na Conferência «If the Oceans Will Rule the World, Who Will Rule de Oceans?», ainda não é tarde demais, mas estamos próximo disso e não podemos continuar a dar-nos ao luxo de nos atrasarmos mais.

Voltaremos ao assunto.

 



2 comentários em “Mar de Portugal e Mar da República”

  1. Orlando Temes de Oliveira diz:

    Parabéns pelo que está escrito atrás
    Os portugueses ou são surdos ou não compreendem. Ambas as hipóteses são pouco animadoras

  2. Luis diz:

    O Presidente da República não é governante.
    Tudo aquilo que o responsável por este artigo “Mar de Portugal e Mar da República” refere, deve dirigir ao chefe do governo que é o primeiro ministro.

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