Mar dos Sargaços é uma expressão profundamente simbólica, evocando não apenas um vago lugar geográfico lá longe no Atlântico mas, acima de tudo, um dos maiores feitos da humanidade pelos Grandes Portugueses de Quatrocentos protagonizado. Que seja, em parte, também o símbolo da III Grande Conferência do Jornal da Economia do Mar.
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Muito antes da chegado de Vasco da Gama à Índia, abrindo uma nova era na História da Humanidade, a muito justa e propriamente Era Gâmica, hoje talvez dita Primeira Globalização, cometeram os Portugueses o mais notável feito da descoberta o regime dos Alísios, a verdadeira chave para a navegação no Atlântico, percebendo como o regresso pela Volta do Mar do Sargaço era, afinal, também o grande segredo.

Ao contrário de Mefistófeles, obrigado a sair sempre pela mesma porta de entrada, compreenderam os Portugueses a liberdade do método indirecto, o mais eficaz, por vezes até mesmo o único eficaz.

Nem sempre o aparentemente mais óbvio é o mais certo ou o mais verdadeiro, como nem sempre a distância mais curta entre dois pontos é a linha recta, assim como as loxodromias o dizem.

E o que tem tudo isso a ver com a actualidade e com a III Grande Conferência do Jornal da Economia do Mar?

Tudo.

Tal como no passado, a grandeza de Portugal não respeita nem decorre directamente das condições naturais da sua existência mas, como sempre, da inteligência em saber orientar, partindo do enquadramento em que lhe é dado viver, a consequente acção a uma diferente ordem da realidade.

Alguma vez teve Portugal natural razão de existência?

Aparentemente, não, como Castelhanos, mais tarde transmutados em Espanhóis, sempre souberam e notaram, nunca conseguindo, porém, inteiramente compreendê-lo nem negá-lo, como gostariam de o ter sabido fazer em não raros momentos da História.

Todavia, se sabemos todos também que a História não se repete, todos sabemos igualmente existirem haver constantes que, exactamente por o serem, permanecem, alterando-se, porém, os desafios exigidos em cada época.

No termos de um ciclo dominado pelas «Forças da História», pela «Revolta das Massas», pela «Psicologia das Multidões» e pelo «Primado da Economia», um dos grandes desafios é, naturalmente, retornar à mais funda e perene sabedoria dos Portugueses, ou seja, ou seja, à consideração de não sermos apenas sujeitos passivos das «Forças da História», meras moléculas de um informe massa em movimento sabe-se lá para onde ou para quê, inorgânicas partículas agidas sempre por tão insondáveis quanto eventualmente inconfessáveis agentes, reconhecendo apenas como único e absoluto critério de justificação da existência o dito sucesso económico mas, pelo contrário, ser o Homem livre porque «interpõe entre a sensação e a acção o pensamento», como os de Quatrocentos o sabiam.

Em termos nacionais isso significa também haver quem saiba pensar a nação na sua singularidade, dar-lhe a consciência que a própria nação necessita ter de si, saber em pensá-la, em suma, em termos estratégicos, ou seja, em termos estratégicos, sabê-la pensar a partir do Mar, em ordem ao Mar, compreendendo como Portugal é, acima de tudo, uma Nação Marítima, eminentemente Marítima, com tudo quanto tal sempre implica.

Por isso mesmo, também, a importância, a verdadeira importância, da III Grande Conferência do Jornal da Economia do Mar.

Porque importa ouvir e entender, ouvir atentamente e entender verdadeiramente, quem mais reflectiu, mais pensou e mais escreveu ao longo dos últimos anos em Portugal sobre Estratégia, sobre Planeamento Estratégico, sobre o Mar, com Portugal e o futuro «a haver» sempre na alma.

Porque importa perceber que consciência Marítima temos ou não temos enquanto nação, com particular atenção às novas gerações que agirão e formarão Portugal de acordo, naturalmente, com a consciência do que Portugal é ou não é para ser.

Porque importa perceber, ontem como hoje, como os movimentos indirectos são, não raras vezes, a mais directa forma de se atingirem as mais primordiais finalidades estratégicas, como sucede com as Áreas Marinhas Protegidas, com uma gestão adequada das Patentes, de modo garantirmos uma eventual protecção e internacional reconhecimento da singularidade dos nossos recursos talvez difícil de alcançar por outros meios.

Porque a essa mesma garantia se encontra talvez associado o possível desenvolvimento de uma tão decisiva área como a Biotecnologia, onde Portugal foi já capaz de demonstrar todos os seus mais avançados pergaminhos e deve e tem de saber continuar a fazê-lo.

Porque sabendo tudo isso conjugar na devida direcção, importa saber desenvolver igualmente as novas tecnologias que vão desde os sistemas de automação à robótica, como dos sistemas de informação às energias, entre tantos outros mais, sabendo aproveitar todas as oportunidades oferecidas pelas novas possibilidades de digitalização do mundo, partindo, por exemplo dos portos como pólos de inovação, uma vez constituírem-se como um perfeito universo moderno à escala.

Porque tudo isso implica igualmente saber determinar exactamente quais os sistemas necessários e mais adequados para garantir a plena vigilância, segurança e defesa do nosso mar, imprescindível para que terceiros não venham nunca a poder arvorar essa prerrogativa invocando qualquer deficiência ou incapacidade da nossa parte.

Porque o mar, o Mar, para esta Nação Atlântica, é muito mais do que um mero conjunto de actividades económicas mas acima de tudo o elemento determinante tanto da nossa independência como da nossa singularidade e não perceber isso não é apenas não perceber nada mas condenar-nos a uma vil e miserável existência.

O que importa, porque não pode deixar de importar, a todos.

 

III Grande Conferência do Jornal da Economia do Mar

Estratégia – O Sal e a Vida do Mar de Portugal

 Centro de Congressos do Estoril

​22 e 23 de Junho de 2017

08:30 – 09:30 – Registo e Recepção aos Participantes

09:30 – 10:15 – Sessão de Boas-Vindas e Introdução

10:15 – 11:00 – Sessão de Abertura

12:00 – 13:00 – Visão Estratégica do Mar do Portugal

13:00 – 14:30 – Almoço – Degustação Docapesca

14:30 – 16:00 – Portugal Nação Marítima vs Nação Continental

16:00 – 17:30 – Os Portos como Pólos de Desenvolvimento Tecnológico

17:30 – 18:30 – Convívio e Visita à Exposição

23 de Junho de 2017

09:30 – 11:00 – Valor Estratégico das Áreas Marinhas Protegidas

11:00 – 11:30 – Intervalo

11:30 – 12:00 – Patentes e Defesa do Nosso Património

13:00 – 14:30 – Almoço Livre

14:30 – 16:00 – Decisão e Indecisão nos Caminhos da Biotecnologia

16:00 – 17:30 – Dos Sistemas de Defesa do Nosso Mar

17:30 – 18:30 – Reconhecimentos Marítimos

18:30 – 18:45 – Palavras Finais de Encerramento



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«Foi Portugal que deu ao Mar a dimensão que tem hoje.»
António E. Cançado
«Num sentimento de febre de ser para além doutro Oceano»
Fernando Pessoa
Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.
Vergílio Ferreira
Só a alma sabe falar com o mar
Fiama Hasse Pais Brandão
Há mar e mar, há ir e voltar ... e é exactamente no voltar que está o génio.
Paráfrase a Alexandre O’Neill