Razão & Finalidade

Uma das maiores singularidades de Portugal reside exactamente na circunstância de Portugal não ter, de facto, qualquer bem patente e justificada razão prática de existência, como, e muito bem, sempre viram e nos apontaram os nossos pressupostos primos de Castela.

Se a D. Afonso Henriques devemos a nossa independência política, a D. Dinis a afirmação da nossa autonomia cultural e a D. Duarte a nossa liberdade espiritual, em momento algum foram razões de ordem prática a determinarem tais momentos, embora nenhum deles deixasse de ter, como é evidente, as mais altas, vastas e amplas repercussões nessa mesma ordem dita prática. Mesmo com D. João II, o mais extraordinariamente prático dos nossos Reis, num momento de afirmação universal de Portugal, quanto se visava sempre esteve muito além da mera e imediata ordem prática das coisas, hoje passível de ser traduzida também como a correspondente ordem económica das coisas.

Se olharmos com olhos de ver, se olharmos para um mapa da Península Ibérica esquecendo a nossa condição de Portugueses, com facilidade admitimos a estranheza da nossa independência, para não dizer mesmo o absurdo de tal facto. E no entanto, por mais extraordinário que parece e seja, no entanto, mais abissal distinção difícil seria haver entre uns e outros. De um lado, a Nação Talassocrática, Marítima, por excelência; do outro, a Nação Epirocrática, Continental, por excelência, com todas as virtudes e singularidades que Jacques Pirenne, na sua monumental obra, «As Grandes Correntes da História Universal», soube muito bem ver, determinar e definir.

Não, não foi o Mar que nos definiu, fomos nós, Portugueses, Primeira Potência Marítima da Mundo, que soubemos dar ao Mar a realidade que, sendo-lhe própria, não possuía e hoje tem e por todos é reconhecida.

Não, os Descobrimentos não foram obra do acaso mas uma verdadeira epopeia realizada com a mais extraordinária inteligência, a mais magnífica ciência e a mais genuína fé.

A primordial importância do Mar para Portugal nunca foi nem é económica mas Geopolítica e Geoestratégica. E não perceber isto é não perceber coisa alguma.

Ah!, sim, na ordem prática das coisas, a economia assume hoje primordial determinação, tudo dominando, todo subjugando, tudo esmagando?

Sim, em parte sim, como, em parte, sempre assim sucedeu. Todavia importa não esquecer nunca não se constituir a economia senão como um meio de afirmação da liberdade e que, mesmo quando o seu prestígio nos leva a crer ser o seu domínio avassalador, predominante e primordial, é apenas isso mesmo, prestígio, porque, na realidade, na mais real realidade, é sempre efeito e nunca causa, não deixando nunca também o seu carácter de ser exclusivamente instrumental.

Sim, bem sabemos como, tal como a natureza, também a política tem horror ao vazio e como hoje «a diplomacia, a política e a economia mais não são senão a continuação da guerra por outros meios», numa muito curiosa inversão da célebre máxima de Clausewitz.

Sim, ilusão não temos como na ordem prática, sem economia, sem um mínimo de economia, não há Geopolítica nem Geoestratégia que valham pela impossibilidade de disposição dos correspondentes meios necessários à sua real afirmação. Mas não nos iludamos também porque, sem correcta noção de Geopolítica e de Geoestratégia, não há igualmente economia alguma que valha. Pelo menos para nós, Portugueses.

Por isso, por tudo isso e tudo o mais quanto implícito fica, nasce o Jornal da Economia do Mar.

Para acentuar a consciência Geopolítica e Geoestratégica de Portugal no mundo?

Sem dúvida, mas não apenas, porque, como igualmente referido, não entendendo a economia apenas na mais comum acepção de crematística mas, acima de tudo, como aquela arte, onde se inclui também muita ciência, de ordenar e dispor os recursos, naturais, tecnológicos ou humanos, tendo sempre em vista, cumulativamente, tanto a sua multiplicação como a plena realização dos objectivos propugnados pela política, com verdadeiro sentido geopolítico e geoestratégico, em ordem à plena afirmação da liberdade de Portugal no mundo.

E como sem mercado não há economia, e como sem informação não há mercado, não pode o Jornal da Economia do Mar deixar de ser também o lugar comum de todos quantos intensamente vivendo a economia e os assuntos do mar, encontrem aqui, por excelência, o seu ponto encontro, o seu porto de abrigo, sem esquecer, parafraseando Pessoa, não separando já o mar mas continuando a unir, seja também, de facto, em nova idade, o grande transmutor do Lusófono conhecimento do Mar em verdadeiro acto económico e real poder estratégico.



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«Foi Portugal que deu ao Mar a dimensão que tem hoje.»
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