O lançamento da Fundação Oceano Azul é um momento histórico para Portugal. Ao Grupo Jerónimo Martins, como financiadores, e a Tiago Pitta e Cunha, como mentor da ideia, os nossos parabéns.
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A afirmação de se constituir o lançamento da Fundação Oceano Azul como um momento histórico para Portugal poderá perecer algo exagerado e, como tal, algo irónico, mas não é.

Não é nem uma coisa nem outra porque, de facto, pela primeira vez, vemos um grande Grupo Económico nacional como o Grupo Jerónimo Martins, investir numa área da qual, até agora, a maioria dos portugueses, apesar da toda a retórica oficial, oficiosa e até particular, têm andado mais ou menos afastados, ou seja, do Mar _ ou Oceanos, numa expressão menos politicamente carregada.

Dir-se-á que a Fundação Oceano Azul coloca e acentua exactamente a tónica da Conservação dos Oceanos para se colocar numa perspectiva algo mais propositadamente neutra, asséptica, mais próxima até de um certo tom de inócuo ambientalismo internacional ou mesmo internacionalista, passível de ser mais imediatamente melhor recebido e aplaudido, afastando-se assim, intencional e correspondentemente também, de qualquer eventual proximidade a um qualquer plano mais económico ou de afirmação nacional, como deveria e deverá ser nossa primordial preocupação enquanto nação marítima com consciência de si.

Não deixando de ser em grande parte assim, importa todavia não esquecer que a Conservação dos Oceanos não se faz, não é possível ser feita, sem desenvolvimento tecnológico e que todo o desenvolvimento tecnológico não deixa, como não pode deixar, de conduzir a um correlato desenvolvimento económico nas mais diversas e distintas áreas que não deixarão nunca de se lhe encontrar também associadas.

Nesse enquadramento, mesmo não se encontrando referido explicitamente, a preocupação de um correlato desenvolvimento económico não deixa, como não pode deixar, de se encontrar implícito a todo o projecto.

Por outro lado, embora também nada seja explicitamente referido no que respeita a uma qualquer afirmação nacional, ao integrar no elenco de Curadores algumas das figuras internacionais actualmente mais emblemáticas e notáveis à cabeça de algumas das maiores e mais respeitáveis instituições mundiais ligadas hoje à defesa dos oceanos, alguma afirmação nacional não deixará de estar assim igualmente implícita.

Em simultâneo, vendo o conjunto de figuras notáveis que se juntaram no Convento do Beato para celebrarem o lançamento da Fundação Oceano Azul, desde ex-Presidentes da República a alguns dos mais destacados empresários nacionais, passando pelas mais altas figuras actuais, e algumas passadas, da Banca e das finanças, até líderes de algumas das mais influentes e predominantes instituições e organizações nacionais, incluindo presidentes, actuais e passados, de outras grandes fundações nacionais, além de políticos dos mais variados quadrantes e outras tantas mais ilustres e distintas figuras da sociedade, a maior parte das quais nunca encontrámos, nem alguma vez esperávamos poder vir a encontrar, em qualquer cerimónia de alguma forma ligada aos assuntos mar, de algum modo está-se a falar de afirmação nacional, mais directa ou indirectamente, e se outra virtude o lançamento da Fundação Oceano Azul não tivesse, essa seria já suficiente.

Seria suficiente porquanto, fazendo perceber como o prestígio atrai prestígio, como o prestígio atrai dinheiro, como dinheiro atrai dinheiro, talvez muitos dos presentes, percebendo como o mar começa e pode atrair prestígio, atraindo concomitantemente tudo o mais, como descrito, talvez comecem a pensar também na possibilidade, mesmo que remota, de poderem vir a investir seriamente em qualquer uma das muitas actividades ligadas ao mar como nunca, até aqui, alguma vez tenham talvez pensado poderem vir a fazê-lo e, quem sabe, talvez um dia possamos mesmo vir a assistir a algo semelhante ao que sucedeu na mítica e implacável rivalidade entre um Rockefeller e um Carnegie que, depois de uma vida inteira a lutarem pelo título de quem era o homem mais rico do mundo, terminarem a lutar pelo título de quem seria reconhecidamente o maior filantropo da humanidade, assistindo assim, entre nós, a outras famílias empresariais portuguesas disputarem igualmente à família Soares dos Santos o título de mais amantes e apaixonadas famílias, militantemente empenhadas, na conservação dos oceanos e no desenvolvimento das múltiplas actividades relacionadas com os assuntos do mar, investindo correspondentemente para tal.

E, evidentemente, neste enquadramento, nunca será de mais assinalar a igual a extraordinária capacidade que o lançamento da Fundação Oceano Azul teve inclusive para concitar o interesse e o apoio do Presidente da República, uma figura aparentemente afastada dos assuntos do mar mas que não só não deixou de estar activamente presente na cerimónia com um brilhante discurso de encerramento, como a todos surpreenderia, inclusive, com duas extraordinárias revelações.

Antes de mais, independentemente do anúncio da muito merecida e próxima atribuição da Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial a Alexandre Soares dos Santos, o patriarca da família a quem se devem muitas e muito louváveis iniciativas,  entre as quais a Fundação Soares dos Santos e agora também a Fundação Oceano Azul, não podendo, naturalmente, o anúncio de tal distinção ter sido mais oportuno nem mais pertinente, a primeira grande revelação, proferida pelo próprio Presidente da República respeitou ao facto da sua visita às Ilhas Selvagens, logo realizada no início do seu mandato, nada dever a quaisquer razões de afirmação de soberania, como nós, patetas e inscientes dos mais verdadeiras e altos desígnios pátrios, julgávamos, mas tão só a preocupações de pura e exclusiva ordem ambiental e de conservação dos oceanos…

Que visão!…

Assim tendo sido, como poderia não estar no lançamento da Fundação Oceano Azul, primordialmente dedicada, de facto, à conservação dos oceanos?…

Absolutamente extraordinário, de facto.

Entretanto, uma segunda revelação, não menos importante, embora talvez expressa de forma menos directa mas não menos explicita, foi sobre o convite que terá endereçado a Tiago Pitta e Cunha para assessorar a Presidência da República nas questões relativas aos assuntos do mar mas, optando Tiago Pitta e Cunha pela Presidência Executiva da Fundação Oceano Azul, ter ficado tal possibilidade, não sem pena sua, evidentemente, inviabilizada.

Assim sendo, subentendido ficou também que a dificuldade de encontrar em Portugal uma outra figura como Tiago Pitta e Cunha, explica, afinal, porque continua a Presidência da República, ainda hoje, sem assessor para os assuntos do mar, nada devendo tal circunstância, como, entre outros, chegámos nós próprios erradamente a crer, a qualquer menor preocupação do actual Senhor Presidente da República pelos assuntos do mar mas, pelo contrário e apenas tão só, porque, em assunto tão sério, difícil tem vindo, contínua e reiteradamente a manifestar-se, assim depreende, a possibilidade de  encontrar quem possa substituir, à altura, uma pessoa com o brilho intelectual, a notável personalidade e a singular capacidade do anterior assessor do anterior Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva

Dificuldade compreensível que tudo explica, de facto.

Apesar disso e sem querermos diminuir a singularidade de uma figura personalidade única como a de Tiago Pitta e Cunha, que tanto respeitamos e realmente admiramos por toda a sua mais genuína luta de anos para que Portugal voltasse a ter a consciência da nação marítima que na sua essência verdadeiramente é, só esperamos que o Senhor Presidente da República possa encontrar, com a maior brevidade possível, senão uma figura como a de Tiago Pitta e Cunha, como é reconhecidamente difícil, alguém que, pelo menos, o possa aconselhar minimamente sobre os assuntos marítimos e até o possa mesmo represente ou substituir nas muitas cerimónias e eventos em que importar manifestar a Presidência da República o seu apoio e marcar a devida presença com um mínimo de conhecimento de causa.

Entretanto, regressando à cerimónia de apresentação da Fundação Oceano Azul, o único momento que se afigurou talvez menos plenamente conseguido, foi quando Tiago Pitta e Cunha, no painel de debate com o Conselho de Curadores e Consultores Especiais do Conselho de Curadores, naturalmente e por óbvias razões, a decorrer em inglês, não encontrou, afinal, nenhum interlocutor que, não obstante e apesar disso, pensasse, realmente, em português.

Foi pena mas apenas um pormenor que não deslustra uma grande cerimónia que constituiu, de facto e como referido, um momento histórico para Portugal, não podendo o Jornal da Economia do Mar deixar de endereçar, por isso mesmo, os mais reconhecidos e sinceros parabéns ao Grupo Jerónimo Martins, personificado na família Soares dos Santos, pelo investimento realizado, bem como a Tiago Pitta e Cunha, como Presidente Executivo da Fundação Oceano Azul e verdadeiro mentor de todo o projecto, pela visão e notável capacidade de realização demonstradas.

Os nossos Parabéns sinceros e Longa Vida à Fundação Oceano Azul.



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