Uma das melhores recordações que possuo é de estar sentado nas escadarias de um sobradão pintado de azul celeste, no Pelourinho, em plena S.Salvador da Bahia de todos os Santos, ou apenas Bahia, a três palmos de duas raparigas muito bonitas, que conversavam sobre qualquer coisa que ainda hoje não sei minimamente o que fosse.

Carta a Eça de Queiroz, Engenho Cajaíba, março de 1877

Uma das melhores recordações que possuo é de estar sentado nas escadarias de um sobradão pintado de azul celeste, no Pelourinho, em plena S.Salvador da Bahia de todos os Santos, ou apenas Bahia, a três palmos de duas raparigas muito bonitas, que conversavam sobre qualquer coisa que ainda hoje não sei minimamente o que fosse.

Mas do que me recordo perfeita e maravilhosamente, é da sonoridade.

Uma perguntava em Jobim e a outra respondia em Ravel, a outra voltava a perguntar, mas agora em Villa-Lobos, e a outra respondia em Debussy, e vai por aí.

E no entanto, ambas falavam em português, ou melhor em brasileiro.

A língua portuguesa, falada e escrita no Brasil, que para simplicidade de exposição e economia de texto, vamos designar por brasileira, foi a coisa mais extraordinária que deixámos ao Brasil, a par de Ipanema, claro.

No meu caso particular, sou-lhe profundamente devedor, quando a partir dos anos sessenta, pude beneficiar da excelente oferta cultural brasileira daquele período, e usufruir ainda do maravilhoso romance dos anos trinta, ou nordestino ou realista, de Jorge Amado, José Lins do Rego, Erico Veríssimo (gaúcho), Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, e depois João Guimarães Rosa, e mais longinquamente de Machado de Assis, da poesia de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e João Cabral do Melo Neto, ou daquilo que foram os anos dourados da crônica & bossa nova, tipicamente carioca, que nos chegavam nas páginas de revistas como O Cruzeiro, Revista do Globo, ou Manchete, ou ainda para os mais atentos e privilegiados, de jornais como Jornal do Brasil, O Estado de S.Paulo ou O Globo, estes sobretudo com os excelentes cadernos culturais, alguma coisa que nem de perto nem de longe existia no panorama editorial português.

Nas crônicas de Rubem Braga, António Maria, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, a mesma Raquel de Queiroz, Carlinhos de Oliveira, Fernando Sabino ou Otto Lara Resende, víamos e aprendíamos um outro português, simples, macio, preciso, ainda sem o modismo posterior da gíria, capaz de nomear e significar coisas, as mesmas coisas afinal, num formato interdito ao português de Portugal: complicado, rijo e vago.

Nos anos setenta e oitenta,  a criação literária brasileira oscilou entre dois centros: o jornal O Pasquim, no Rio de Janeiro, com Ivan Lessa, Millôr Fernandes, Paulo Francis, etc, e a Universidade de S.Paulo, onde os seus sociólogos/historiadores/políticos, como Antonio Candido, Sérgio Buarque de Hollanda, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso (duas vezes Presidente da República) tentavam a partir da denominada ditadura cultural da USP, explicar e interpretar o Brasil, na continuação, mas agora com bases quase exclusivamente científicas, do que tinha feito a geração de trinta.

No final dos anos setenta, e seguintes, já o panorama cultural e literário português tinha conseguido sacudir o ranço do período autoritário, e através da evolução da imprensa, com semanários de ótima qualidade, com bons suplementos literários, e até com jornais exclusivamente dedicadas às letras, começava a atenuar o brilho que irradiava do português do lado de lá do Atlântico.

E naturalmente, o mesmo aconteceu com a nossa literatura, que beneficiou do aparecimento de um conjunto de escritores de grande qualidade, que correndo o risco de ser injusto nas citações, gravitaram ao redor de dois polos, como sejam José Saramago e António Lobo Antunes.

Entretanto a literatura escrita em brasileiro chega até aos nossos dias, com uma qualidade extraordinária, que lhe advém de um conjunto de nomes de onde se destaca Raduan Nassar (Prémio Camões de 2016), que no zénite do seu talento, com dois livros publicados, Lavoura arcaica e Um copo de cólera, decidiu não voltar a escrever.

Motivo: ia dedicar-se à criação. A critica e os seus aficionados, julgaram tratar-se de uma boutade ou de um mero jogo de palavras.

Mas desafortunadamente para todos, não era. Ia na realidade dedicar-se à verdadeira criação: a de galinhas.

Instalou-se numa enorme quinta/fazenda nos arredores de S.Paulo, onde e desde então, se dedica devotadamente àquela outra criação.

E quando a intelectualidade reclama a sua ausência, responde com uma clareza desconcertante e definitiva, que não tinha mais nada para dizer.

Atualmente de uma série de grandes escritores brasileiros, é talvez possível destacar três nomes: Milton Hatoum, Fernanda Torres e Bernardo Carvalho.

O primeiro, nascido em Manaus mas a viver em S.Paulo, depois de diversos anos a viver na Europa, e a frequentar as suas grandes universidades, é um escritor de uma excelente e escassa obra, já que costuma intervalar os livros por cerca de dez anos, tantos quantos os necessários para escrever as suas obras primas, como por exemplo Relato de um certo Oriente.

E depois ainda há os enormes cronistas da atualidade, com uma dispersão geográfica coerente e notável. Ruy Castro no Rio de Janeiro, António Prata em S.Paulo, e Luís Fernando Veríssimo em Porto Alegre.

Presentemente estamos a viver os faustos das comemorações dos dois séculos de independência do Brasil, feito de pronunciamentos para figurarem na História dos dois países.

Pela minha parte, tive sempre um enorme interesse pelo pormenor histórico, capaz de explicar com mais exatidão um determinado fato, do que as teses e tratados que lhe são dedicados.

Não se trata de eleger o pitoresco, ou trocar o back office pelo front office, na narrativa histórica, mas tão somente de possuir a fortuna de estar na posse de conhecimentos particulares, capazes de contribuir para o esclarecimento ou a consolidação de uma interpretação, quando não mesmo, para a sua correção.

Aquando da nossa presença nos territórios ultramarinos, os compêndios escritos sobre a vida nos trópicos, eram pulverizados pelos testemunhos, não dos grão-capitães, sobre a forma como exerciam o poder, mas pelo das jovens mães portuguesas, quando colocadas a viver com as suas famílias em Africa, e que demoravam dois dias para secar uma fralda dos filhos ao frio e à chuva da Europa, e um quarto de hora, sob o sol equatorial.

E neste exato dia, com os inevitáveis programas comemorativos, alguns desprovidos de sentido e de qualidade, prefiro voltar ao início deste trabalho, e celebrar o acontecimento com uma estória, não longínqua como a da escadaria na Bahia, mas muito recente, e passada do lado de cá.

De passeio pelo agradabilíssimo carreiro de saibro e sombra, onde assentam bancos de madeira, a meio do Jardim da Assunção, a envolver a Igreja do mesmo nome em Cascais, deparei-me com um tradicional Procura-se, preso à coluna de um dos candeeiros.

Um dono, procurava desesperadamente pelo seu papagaio, e solicitava para tanto a ajuda de quem pudesse colaborar no seu regresso ao lar, coisa que espero muito sinceramente que já tenha acontecido neste momento.  

Por baixo da fotografia de um louro simpático, descreviam-se as suas principais caraterísticas diferenciadoras.

E uma delas, a última, mas seguramente a mais importante, era:

Fala brasileiro.

A casa grande, um belo e largo edifício, voltado para o mar, e circundado por altas palmeiras imperiais…


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