O sector da Construção Naval, como ficou bem patente no mais recente Seminário organizado em conjunto pelo Jornal da Economia do Mar com a AIN, é um bom espelho da importância, a que nunca atendemos devidamente, das instâncias intermédias.
Ilhas Paracel
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Na verdade, olhando para a evolução da atitude económica em Portugal ao longo dos últimos decénios, logo sobressai a persistência de uma mesma visão do mundo que tanto conduziu no passado à explícita política do «Condicionamento Industrial» como hoje, embora expressando-se em mais subtis e dissimulados modos, ao que podemos designar como «Condicionamento Electivo», fruto tanto de um desmesurado peso do Governo sobre a vida económico-empresarial como de uma mesma misantrópica visão do mundo muito própria de um certo Iluminismo que, após todas as suas sucessivas transmutações de adaptação ao longo dos tempos, veio a resultar no impante Neopragmatismo, uma espécie de estranha conjugação entre a mais pura plutocracia e muitas aspirações do mais puro socialismo, que hoje tudo domina e esmaga.

Há sempre a boa justificação para o peso do Governo sobre a vida económico-empresarial em Portugal dada a dimensão do nosso mercado e suposta necessidade de um suplemento de oxigénio que só mesmo o Governo poderá dar sector empresarial, tanto mais quanto encontrando-se, como também é patente e reconhecido, em séria situação de descapitalização.

Em tal circunstância, o que sucede é que em lugar de reforçarem as instâncias intermédias, a atitude mais vulgar das empresas nacionais é exactamente a inversa, ou seja, a de procurar encontrar por si mesmas os meios mais adequados de aproximação ao Governo de forma obterem uma pequena vantagem, seja ela qual for, a prazo, profundamente destrutiva.

Salva-se a árvore mas talvez, a prazo, se esteja realmente a destruir a floresta porque tal atitude tende inevitavelmente a conduzir a uma das mais perniciosas, nefastas e destrutivas situações como é a situação de tudo se figurar relativamente arbitrário ou, pelo menos, não exclusivamente dependente de quanto respeita empresarialmente a cada um, o que somado à falta de confiança e estabilidade jurídica e fiscal, por exemplo, torna todos os cálculos de risco numa quase lotaria e todo o investimento um quase mero acto de fé.

Ao contrário do que vulgarmente se diz e muitos ingenuamente crêem, o princípio do bom funcionamento de uma economia reside antes de mais e primordialmente na existência de mercados tão perfeitamente regulados e transparentes quanto possível. O mundo não é perfeito evidentemente, mas quanto melhor funcionar o mercado melhor desempenho terá a economia de uma nação como um todo.

E é exactamente nesse plano que as Instâncias Intermédias podem ter um papel crucial ao estabelecerem e garantirem, por um lado, as melhores condições de livre iniciativa e correspondente mercado para todos, bem como, por outro, em sentido inverso, assegurando que o Governo não se imiscui onde não deve imiscuir-se mas não deixa de desenvolver as políticas e subsequentes acções melhor adequadas à evolução do respectivo sector como um todo.

O segundo aspecto não é de somenos importância, bem pelo contrário. Num mundo crescentemente competitivo e aberto, é mesmo da maior importância porquanto as condições de mercado oferecidas a um sector, bem como as respectivas políticas e estratégias de internacionalização, são hoje determinantes, como é, por exemplo paradigmático a política e estratégia desenvolvida pelo Governo de Paris em relação seu próprio sector naval, não sem o apoio e estreita coordenação com o GICAN, o equivalente Francês de uma AIN bem mais desenvolvida e actuante, evidentemente.

Ao não valorizarmos as Instâncias Intermédias, a própria actuação de uma AIN encontra-se muito limitada por natureza mas, da formação, passando por múltiplos outros aspectos, até mesmo eventualmente à internacionalização e projecção internacional das empresas Portuguesas do sector naval, o seu papel poderia, e deveria, ser muito mais amplo, a bem não apenas do sector mas também da economia como um todo e, enquanto tal, também do próprio Governo.

Infelizmente, tal não sucede, o que não preocupa mas deveria preocupar até o Governo que, nesse sentido, poderia inclusive estabelecer algumas políticas tendentes a alterar a situação.

Por outro lado, mitigando um pouco tal situação, o que o Seminário também demonstrou foi uma crescente capacidade de decisiva cooperação entre empresas, ou talvez mais especificamente, entre empresas ou sectores com outras diversas entidades, de modo a tornar possível, além de um certo grau de escala, uma capacidade de investigação e desenvolvimento que de outro modo seria muito difícil, senão mesmo impossível obter.

Talvez o caso mais notável e significativo seja mesmo o da Marinha Portuguesa com varias outras entidades, desde empresas a Universidade e Laboratórios de Investigação e Desenvolvimento em áreas de tão crucial importância para o nosso futuro como a robótica e veículos autónomos, aéreos, de navegação de superfície, submergíveis e submarinos, ou comunicação submarina, não deixando de ter as maiores repercussões internas como também externas, dotando as mesmas empresas e respectivas Universidades e Laboratórios de Investigação e Desenvolvimento, com uma capacidade de projecção que dificilmente poderiam adquirir de outra forma, demonstrando a crucial importância de uma linha de desenvolvimento que importa incrementar e reforçar o mais possível.

O próprio Seminário não deixava de se subordinar, em parte, a esse mesmo objectivo, como anunciado, uma vez que se afigura também cada vez mais importante perceber, por um lado, a procura do mercado, bem como por outro, a necessidade de ganhar escala, de forma a conseguirmos adquirir tanto uma efectiva capacidade de projecção como até, que sabe, de liderança tecnológica, ultrapassando não raramente a nossa mais grave falha, ou seja, a falha da adequada passagem da mais brilhante concepção dos mais avançados projectos à sua consequente e efectiva materialização.

Dois aspectos relativamente independentes mas também relativamente complementares um vez estar subjacente a ambos a mesma necessidade de nos libertamos, de uma vez por todas, das saias do Governo e termos uma outra perspectiva da tão necessária cooperação geometricamente variável entre todos, percebendo tanto, por um lado, os exactos contornos da nova concorrência quanto, por outro, dos novos desafios que a todos o mundo actual coloca.



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