A singularidade de um povo é, com certeza, pervasiva, i.e., não pode deixar de manifestar-se e estar presente desde os mais pequenos aos mais importantes e decisivos actos, como a singularidade de comandar um navio, responsabilidade profusamente retratada na obra, «Comandar no Mar», para quem o souber ler, assim o prova.
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«Quero ver o criador nas criaturas»

Frei Agostinho da Cruz

 

Se é sempre nas horas mais extremas que mais brilha o verdadeiro carácter de cada um, talvez poucas actividades haja em que tão sistematicamente sejam os homens chamados a dar prova desse mesmo possível brilho do que a bordo de um navio.

De facto, pelas características inerentes à vida a bordo, espaço confinado, isolado, em que todos se encontram em contínuo convívio com todos, horas fio, dias a fio, semanas a fio, meses a fio, sem possibilidade de desistência, fuga ou disfarce, onde as virtudes, todas as virtudes, de cada um, são sistematicamente chamadas a superior testemunho, a exigência é, naturalmente, permanente e a mais elevada.

E se o meio nem sempre é hostil, sendo até, não raras vezes, calmo e aprazível, a qualquer momento, porém, tudo é passível de se inverter, impondo provação extrema a cada um, eventualmente mesmo até ao limite das respectivas capacidades, com a plena consciência de uma falha, mesmo a mais pequena falha, tudo e todos poder colocar em risco, exacto momento em que mais se exige que todos confiem em todos, começando, acima de todos, pelo próprio Comandante.

Como lembra o Almirante Henrique Alexandre da Fonseca, o primeiro responsável pela edição desta notável obra, «Comandar no Mar», citando Camões, se «um fraco Rei faz fraca a forte gente», mais importa, importa tudo, a escolha e o carácter de um Comandante.

Enquanto Comandante Naval, embora não fosse talvez o principal e único responsável pela nomeação dos novos Comandantes dos diversos navios da nossa Marinha, tendo todavia a superior incumbência de os empossar, querendo presenteá-los com algo que pudesse ajudá-los no cumprimento da sua alta missão, deparando-se, como relata na Introdução, com a total ausência de livros de testemunho de antigos Oficiais da Armada sobre a experiência de Comando de forma a passar ás novas gerações os ensinamentos recolhidos, acabou por se ver na contingência de mais não poder senão oferecer o livro Command at Sea, publicado pelo U.S. Naval Institute.

Como reconhece, longe do ideal, apenas, de facto, o possível.

A intenção não ficou, porém, esquecida, e quando teve a oportunidade de editar o livro, Um Cruzador … e duas Fragatas, atendendo aos testemunhos dos diversos Comandantes que se sucederam no comando do N.R.P. Vasco da Gama, regressou a ideia de editar um livro exactamente sobre o exercício das funções de Comando de um navio, de forma a tentar preencher a lacuna anteriormente detectada.

Assim, sob a Coordenação do Comandante Orlando Themes de Oliveira, nasceu a obra, Comandar no Mar, recolhendo o testemunho de antigos Comandantes, não apenas da Armada, i.e., de navios de guerra, incluindo Comando de Submarinos, mas igualmente da Marinha Mercante e até o caso de navios de Cruzeiro, com a ambição também não apenas de transmissão de conhecimento e experiência em sentido estrito, mas até passível de poder vir a ser lida e meditada nas Universidades, sobretudo nas Faculdades ou Cursos mais directa e indirectamente relacionados com a Gestão, uma vez Comandar ser, de facto, muito próximo de Gerir, se assim se pode dizer, embora Comandar esteja tradicionalmente mais ligado a Comandar pessoas e a Gestão mais próximo de um conceito de administração de bens e recursos materiais em geral, não deixando todavia, uma e outra, de sempre se entrecruzarem, como não deixou também de sublinhar na apresentação da obra o seu magnífico Coordenador.

Nesso sentido se compreende igualmente pedido endereçado a João Carlos Espada, Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, para prefaciar a obra, bem como a primeira apresentação pública da obra ter sido realizada nas instalações do mesmo Instituto.

A intenção não poderia ser mais nobre mas, quer pelo Prefácio, quer pela apresentação da mesma, teme-se não estar a hoje Universidade, seja a Universidade Católica Portuguesa, seja a Universidade Portuguesa em geral, de facto, salvo muito raras e muito honrosas eventuais excepções, apta a ajudar a formar e dotar as novas gerações de mais ampla visão e capacidades para o efectivo Comando, seja no Mar, seja em que circunstância for, de Portugueses, em Português, como se afigura ter sido, desde início, a principal e mais nobre intenção dos Editores.

Porque se afirma quanto acaba de ficar escrito?

Leia-se, por exemplo, o Prefácio de João Carlos Espada e formule-se a questão: o que tem o ilustre Professor a dizer?

Para além do reconhecimento da nobreza de carácter exigida pelo comando no mar, a preocupação essencial do Prefaciador, segundo se afigura, respeita à «importância crucial da educação do carácter numa sociedade livre e civilizada».

Imaginar uma dita «sociedade civilizada» que não seja livre, não deixará de parecer algo paradoxal, evidentemente, mas, esquecendo esse pormenor que não deixa de ter a virtude de nos fazer sorrir, o que entende o insigne Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa como «sociedade civilizada», ou qual, para si, o subjacente conceito de Civilização?

«Basicamente, consiste na consciência de que diferentes padrões de comportamento geram diferentes consequências e de que o conhecimento dessas diferenças pode e deve ser transmitido de geração em geração. Uma sociedade livre e civilizada é aquela que procura poupar cada nova geração ao desconforto de ter de aprender do zero e à sua própria custa o que as gerações anteriores foram aprendendo gradualmente e transmitindo às gerações seguintes.»

Infelizmente, porém, vivem a gerações novas uma época de «relativismo pós-moderno», como refere igualmente o distinto Professor João Carlos Espada, ou seja, uma época em que as gerações novas vivem subjugadas ao dogma da não existência de padrões de comportamento melhores ou piores, mais elevados ou mais vulgares, conduzindo assim a uma «rebelião adolescente» contra a hierarquia dos mesmos «padrões de comportamento» em resultado de um sempre errada e ml formulada pergunta, sempre a mesma: «quem é que detém o poder de definir quais são os padrões certos e quais os errados?».

Felizmente, não deixa o eminente Professor João Carlos Espada de logo responder e esclarecer tão adolescente interrogação: «ninguém e todos. Ninguém, no sentido em que os padrões de nobreza de carácter não foram propriamente desenhados por alguém em exclusivo. Todos, no sentido de que todos podemos sentir as consequências da ausência de padrões de comportamento e todos podemos tentar aprender com essas consequências.»

O que temos, por junto?

Padrões, padrões, «padrões de comportamento», mas padrões, ainda assim,

Ou seja, a «importância crucial da educação do carácter numa sociedade livre e civilizada», respeita essencialmente, para o distinto Professor, segundo se afigura, à transmissão de «padrões de comportamento», de forma a evitar o «desconforto» de ter alguém de aprender à própria custa, devendo as novas gerações perceber isso mesmo, o que é sobremaneira decisivo a bordo de um navio, de modo a evitar, pela boa-educação do carácter, ou seja, pela simples e mecânica repetição, imagina-se, de quanto já provado, dos tais «padrões de comportamento» já devidamente instituídos e aceites, o tal possível «desconforto» de ter alguém de aprender à própria custa.

Percebe-se o alcance e a elevação de tão alto conceito de Educação e, se mais necessário fora para melhor ilustrar quanto afirmado, coloquemos então os nossos olhos, como sugere o ilustre Professor João Carlos Espada, nos excelsos Britânicos e na sua feliz expressão gentlemen, expressão tão intraduzível para Português quanto saudade para Inglês, expressão, adianta ainda, brilhantemente definida pelo Austríaco-Britânico Karl Popper, como «aqueles que não se tomam demasiado a sério, mas que estão prontos para tomar os seus deveres muito a sério, especialmente quando a maioria à sua volta só fala nos seus direitos».

Como se percebe, para nós, Portugueses, não é fácil, pela definição dada, traduzir o extraordinário e tão singular gentlemen para Português.

Talvez a missão da Universidade, da Universidade Portuguesa, seja, de facto, formar gentlemen, em transformar as novas gerações de Portugueses em novas louváveis gerações de Britânicos?

E o que tem tudo isto a ver com o Mar?

Muito mais do que, talvez, à primeira vista, possa parecer.

Na cerimónia realizada no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, o discurso de apresentação da obra ficou, entretanto, a cargo da Professora Lívia Franco que preparou para o efeito um tão brilhante ensaio académico sobre o Poder, quanto, infelizmente, muito pouco Português, ou seja, muito pouco pensado em Português.

Quando referimos como brilhante o ensaio então lido, não estamos a pretender introduzir qualquer tom mais ou menos irónico, muito longe disso, mas a reconhecer ser um ensaio ou um discurso redigido segundo as mais exigentes regras e cânones académicos, facilmente elogiado e aplaudido, por conseguinte, em qualquer Universidade do Mundo Ocidental, no mínimo.

Todavia, temos de reconhecer igualmente que, entre as dezenas de autores citados, segundo as mesmas regras e cânones, não esquecendo quase nenhum dos mais importantes autores da filosofia política e, mais recentemente até, da geoestratégia, de Platão e Aristóteles até um Joseph Nye, não se ouviu, em contrapartida, uma única citação que fosse de qualquer autor Português, salvo, evidentemente, breves referências dos autores coligidos na própria obra.

A questão vai, evidentemente muito para além da mera nomeação ou citação de autores para se centrar no facto de se constituir um discurso tão  pouco pensado em Português que, mesmo entre as mais clássicas das figuras, dois dos autores que mais terão influenciado, a determinado momento, a formação do pensamento Português, para além de nomes como um Platão ou Aristóteles, evidentemente, vez alguma foram citados, como Dante ou Vico, o que não deixa de ser igualmente significativo.

António Quadros defendia há anos a necessidade de uma Paideia Portuguesa como os Gregos tiveram a sua, monumentalmente exposta por Werner Jaeger na obra com esse mesmo exacto título. Que a Universidade representasse por inteiro essa Paideia Portuguesa seria, com certeza, pedir demais, mas que se aproximasse um mínimo, isso, cremos, seria legítimo. Infelizmente, nem isso.

Porque importa tudo isso? O que significa, ou pode significar, pensar em Português?

Tentemos sintetizar, exemplificando.

O que importa aos Portugueses numa reflexão sobre o Poder?

A Autoridade.

Por índole, temperamento e superior inteligência, os Portugueses desdenham tanto o Poder quanto respeitam a Autoridade, uma vez associarem sempre o conceito de Autoridade ao de Autor, ou seja, mesmo conhecendo os limites de quem está neste mundo, sempre respeitam quem respeita, acima de tudo o pensamento, mas não veneram a capacidade de coacção e de condução de quem que que seja a fazer seja o que for, apenas por uma questão de posição, de mando, de puro Poder, em suma, a tender sempre, enquanto tal, para a arbitrariedade, a ponto de só um Português, tão Português como Padre Antonio Vieira poder dizer: «Para converter almas, não bastam só palavras, são necessárias  palavras e luz. Se quando o pregador fala por fora, o Espírito Santos alumia por dentro: se quando as nossas vozes vão aos ouvidos, os raios da sua luz entram ao coração, logo se converte o mundo».

Do que falamos sempre não é da conversão de almas? Conversar não significa isso mesmo?

Assim se compreenderá melhor também, cremos, as palavras de D. Duarte no seu Leal Conselheiro e o Andar Dereito.

Não se destaca a Lealdade como uma das grandes e mais singulares qualidades dos Portugueses, dos verdadeiros Portugueses com consciência e orgulho de o serem?

A Lealdade, porém, não é meramente pessoal, em sentido estrito, nem muito menos mecânica, se assim se pode dizer igualmente, mas forjada na luta contra o Mal, cujas causas se sabe serem sempre ocultas, representada sempre também tanto na verdadeira Amizade quanto no que se diz como Espírito de Corpo, para quem souber ler e entender o que as palavras realmente significam.

E como todos reconhecem, se os Portugueses tendem a ser extremamente individualistas, é porque prezam também, como talvez poucos outros povos, a Liberdade sem a qual nada de quanto dito anteriormente teria qualquer sentido.

Serem os Portugueses individualistas não significa qualquer tendência de fruste solipsismo mas um alto e apurado sentido da Individualidade, sabendo também como a mesma Individualidade se realiza sempre na mais ampla relação e como a Liberdade reside sempre, como diria o nosso Leonardo, em entrepor entre a sensação e a acção o pensamento, não, como outros mais próximos do que Orlando Vitorino designaria magnificamente como Filosofia Triunfante, a Vontade _ sempre grafada com maiúscula, evidentemente.

E o mais extraordinário é que tudo dito, de uma forma ou outra, isto é, mais explicita, mais implicitamente, não deixa de estar e ver permanentemente presente ao longo das páginas de Comandar no Mar.

Surpreendente?

Nem por isso, quer porque, continuando Portugal a ser Portugal, não pode deixar de ser constituído por Portugueses, Portugueses genuinamente Portugueses, quer porque, mesmo que não tão explicitamente reflectido de um modo especulativo, sendo igual característica dos Portugueses, como sublinhava Francisco da Cunha Leão, a identificação entre Pensar e Agir, inevitável é que assim seja e suceda.

E tudo isto importa porque, entendendo nós ter a Civilização princípio na Filosofia, ou seja, no pensamento,  e sendo a Filosofia sempre radicada, como preceituava José Marinho, acentuando sempre Álvaro Ribeiro também, não haver Cultura Portuguesa sem Filosofia Portuguesa, nem Política Portuguesa sem Cultura Portuguesa e, sem Política Portuguesa, não haver, por consequência, possível afirmação de verdadeira independência nacional, quanto hoje sucede não é obra de qualquer mero acaso.

Como referido, Comandar no Mar, não sendo um obra de reflexão especulativa, mas não deixando de espelhar tudo quanto anteriormente sinteticamente exposto, mesmo quando os relatos se inclinam mais para uma mera descrição, merece uma leitura atenta de princípio a fim, até pela variedade de experiências relatadas, como também já referido.

Entre todos os relatos apresentados, um há que gostaríamos de destacar em particular, o do Almirante José Domingos Pereira Cunha, não no sentido de menorizar o restantes mas porque, para além de ter sido, entre os muitos cargos que ocupou ao longo da sua carreira, terminada em 2016 como Vice-Chefe de Estado-Maior da Armada, Comandante da Standing NATO Maritime Group 1 (SNMG1), tendo então liderado a operação Active Endeavour de combate ao terrorismo e as operações Allied Protector e Ocean Shield no Golfo de Áden e no Oceano Índico no combate à pirataria, oferecendo assim uma singular perspectiva de Comando internacional, com possibilidade de melhor compreensão, inclusive, das diversas índoles das diferentes nacionalidades, e mesmo para além de entrecortar o texto com sucessivas citações da Arte da Guerra do Mar, do Padre Frenando Oliveira, o primeiro tratado conhecido sobre tais matérias, publicado originalmente em 1555 e reimpresso em 2008 pelas Edições 70, acompanhado de  um estudo introdutório pelo actual Chefe de Estado-Maior da Armada, Almirante António Silva Ribeiro,  não deixa de relatar, tão inesperada quanto singularmente, algumas deficiências de equipamentos e meios da nossa Armada, conduzindo a situações algo ridículas, ficando-nos por aqui, para uma Nação Marítima, eminentemente Marítima, como Portugal, em resultado, essencialmente, e acima de tudo, de opções políticas e, por certo também, falta de visão estratégica.

Se atendermos, concomitantemente, ao facto de todos os nossos políticos serem, antes de mais, formados, usualmente, na nossa Universidade, percebendo a pouca atenção e compreensão dada a Portugal e ao Mar, começamos também a melhor compreender a importância, como sublinhado, da Universidade saber pensar em Português e de quanto realmente importa tudo quanto anteriormente dito, tanto mais quanto, crendo também nós Portugueses não agirem mal os homens por quererem o mal mas, como defendia Sócrates, por ignorância, ainda mais claro, assim se afigura, tudo se torna e talvez se justifique que, perante uma obra tão significativa como esta, seja, afinal, a questão da Universidade o tema central.



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