Lançada ontem a Década dos Oceanos da ONU, Portugal tem pouco a festejar. Não será o que se irá ver defender mas, a definhar, não vai passar, no melhor dos casos, de um mero associado menor, eventualmente útil e simpático, mas sem qualquer papel relevante ou, muito menos, decisivo a desempenhar.
AESDP

É possível não celebrar o lançamento da Década dos Oceanos como proposto pelas Nações Unidas, dados os seus tão altos, nobilíssimos e tão invulgarmente despojados altruísticos propósitos?

Difícil.

Difícil, particularmente quando a intenção visada é a salvação do Planeta, do Clima e da própria Humanidade de todas as mais viciosas práticas do pobre «ánthropos» afogado em ganância, desalmadamente ávido de lucro e embriagado de poder.

Como não nos impressionarmos, comovermo-nos, «sensibilizarmo-nos», muito mesmo, com o vídeo de lançamento da Década dos Oceanos?

Que crítica, de António Guterres a Marcelo Rebelo de Sousa, poderá haver a ser feita?

Não são as todas as mais preocupações formuladas por todas as singulares figuras do elenco, dignas todas da maior admiração, as mais sérias, prementes e angustiantes preocupações de todos, hoje, e nossas também?

Não estão os Oceanos a acidificar?

Não estão os corais a morrer? A sobrepesca a colocar em causa a sustentabilidade alimentar futura do planeta e modo de vida e sustento de milhões e milhões por esse mundo fora?

E não são os Oceanos, e o respectivo equilíbrio e saúde, decisivos, cruciais, à mitigação e tentativa de anulação dos piores, mais terríveis e nefastos efeitos das «Alteração Climáticas»?

Assim se afigura.

Que dizer, então?

Como diria Bastiat, há sempre «o que se vê e o que não vê» _ e se o que se vê é tocante, o que não se vê é preocupante.

Para nós, Portugueses, o que logo sobressai é não se ver qualquer relevo de Portugal em todo o acto, a não ser, indirectamente, como figura simpática e útil ao receber a próxima Conferência dos Oceanos _ como se o facto de ser aqui e não na Papua Nova Guiné tivesse alguma relevância especial.

Sejamos francos, independentemente do respeito devido e que se possa ter em relação ao Secretário-Geral das Nações Unidas, a figura do Secretário-Geral é sempre pouco mais do que uma figura de estilo e o facto de ser António Guterres Português isso nada acrescenta nem torna, por si só, Portugal relevante.

Basta ouvir o seu discurso para o compreender.

O facto do Presidente da República encerrar a Sessão de Lançamento tampouco mais significado possui do que mera formalidade porque Portugal irá ser, como já referido, o anfitrião da próxima Conferência dos Oceanos, nada mais.

Nem vale a pena muito comentar o discurso do Presidente da República, muito «oceânicas-nações-unidas correcto», como seria, de resto, próprio e de esperar. O interessante é que, mesmo na introdução realizada pelo apresentador sugere, desde logo, tratar-se de uma espécie de extra, fora do contexto mais «duro» da sessão de lançamento, mas inevitável dada a já referida circunstância.

Veja-se em contrapartida, a que entidade foi entregue a apresentação e com quem contracena o apresentador, quem chefia a UNESCO e quem coordena o COI.

Em recente e muita significativa entrevista, afirmava peremptoriamente Jorge Oliveira e Carmo, Subdirector de Política do Mar durante cinco anos: «os Estados já não mandam nada»!…

Será realmente assim ou será também parte a aparência, ou seja, não mandando, aparentemente, de forma directa, não continuam, alguns, a mandar de forma talvez mais subtil e indirecta mas não menos _ ou até talvez mais _ efectivamente?…

Assim parece.

E nós?…

Nós por aqui continuamos iludindo-nos possuir ainda uma importância que só nós a nós próprios nos atribuímos, prontos a fazermos figura de «Pastorinha das Aflições Climáticas» das Nações, campeões das preocupações da ONU na esperança, que sabe, de um reconhecimento que não deixará, provavelmente, de ser facilmente atribuído, com um sorriso…

Entretanto pugnaremos, bravamente, contra a mineração marinha, por exemplo, com as mais justificadas e inegáveis razões _ e admirados seremos por isso.

Entretanto, porém, recusando-se o mundo a um recuo de bem-estar e evolução tecnológica e mesmo no que respeita à possibilidade de proceder à tão necessária transição energética, não se vê como não avançar nesse sentido.

Do Cobalto, indispensável à transição energética e sem reservas conhecidas em terra que permitam tal realizar, à Terras Raras, determinantes de um ponto de vista tecnológico mas não sem complexos enquadramentos políticos e geopolíticos, tornam a mineração em Mar profundo uma inevitabilidade.

Não por acaso, a Nautilus prossegue paulatinamente o seu projecto no Pacífico, na Papua Nova Guiné, assim como o consórcio Sino-Britânico assim o faz igualmente na Islândia, entre outros múltiplos casos.

Nós que fazemos? Procuramos, dada a inevitabilidade, desenvolver tecnologia adequada e o mais ambientalmente neutra possível?

Tem a mineração em Mar profundo terríveis consequências para os organismos bênticos nas áreas adjacentes?

Com todo a certeza mas, para além de ser necessário encontrar tecnologia que permita mitigar os seus mais nefastos efeitos, não tem igualmente os mais negros efeitos ambientais a actual mineração, por exemplo, das Terras Raras em terra?

O mundo é complexo, sem dúvida mas também não devemos ser ingénuos.

Infelizmente, estamos, ou continuamos, falidos. O orçamento do Ministério do Mar é o que se conhece e a perspectiva de podermos inverter efectivamente a tendência não se vislumbra sequer.

Portugal definha _ e esse movimento só tende a acelerar…

Os tempos não são auspiciosos.

Talvez pouco mais nos reste, de facto, do que celebrarmos em uníssono com a ONU a Década dos Oceanos _ esperando que daí venham ainda alguns dinheiros para investimento na investigação nas Ciência do Mar.

Talvez mais não nos reste senão começarmo-nos a preparar para entregarmos o nosso Mar, em definitivo à União Europeia _ ou seja, a quem tem meios, capacidade e conhecimento para o gerir.

Talvez _ por razões de sanidade mental _ o melhor seja mesmo continuarmos a fingir que não se passa nada.



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