Escala na capital antes de rumar ao Mediterrâneo
Sea Cloud II

Lisboa acolheu ontem dois veleiros que, juntos, celebram em 2016 um centenário: os navios de cruzeiro de luxo Sea Cloud I, que perfaz 85 anos, e Sea Cloud II, que completa 15 anos. No mesmo dia, entrava ao serviço, no Sea Cloud I, uma das cadetes recém – formadas na Escola Náutica Infante D. Henrique (ENIDH), colocada com o apoio da Euromar, que admite contribuir para a colocação profissional de jovens formandos de ciências náuticas. Entre 2015 e o primeiro trimestre deste ano, “a Euromar ajudou a colocar, em navios operados por armadores de referência, 16 jovens portugueses formados pela ENIDH”, referiu a empresa.

O nosso jornal teve oportunidade de visitar o Sea Cloud II, que chegara a Lisboa proveniente da Ilha de Barbados, nas Caraíbas, após 14 dias no mar. Comandado pelo Capitão Evgeny Nemerzhistkiy, russo a residir na Estónia, tinha por destino Cádis e o Mediterrâneo, onde permanecerá até ao fim de Maio. Depois regressa a Lisboa, para rumar ao norte da Europa, antes de voltar ao Mediterrâneo, em Setembro, e retornar às Caraíbas em Novembro.

Com pavilhão de Malta, o Sea Cloud II tem uma tripulação de 63 elementos e 96 passageiros a bordo. Propriedade da Hansa Shipping, foi construído em Espanha, tem 117 metros de comprimento, atinge de 12 a 14 nós de velocidade e o mastro principal mede 57 metros. Possui 29 cabinas com chuveiro e lavabos, 16 junior suites com banheira e lavabos e duas suites de luxo com chuveiro, banheira e lavabos. Tem uma esplanada no convés, com bar e música ao vivo, e um restaurante para 98 pessoas.

Em conversa com a cadete que ontem embarcou no Sea Cloud I, Beatriz, e outras duas colegas que farão o mesmo em Outubro próximo, Inês e Rita, todas com pouco mais de 20 anos, formadas no curso de Pilotagem de Navio da ENIDH, o nosso jornal verificou unanimidade no propósito de seguir carreira no mar. E todas ambicionam chegar a Comandante de navio. Para Beatriz, começar a trabalhar era o motivo de maior entusiasmo. Inês revelou uma paixão poética pelo mar. E Rita prefere ir dando um passo de cada vez.

Embora tenham reconhecido entrar num mundo em que ainda existe alguma resistência à presença de mulheres (quer a bordo, quer na indústria, entre os empregadores), “sobretudo na marinha mercante e na pesca”, considerou Beatriz, porventura devido à natureza mais dura da própria actividade, nenhuma mostrou receio pelo futuro. Acreditam nas suas capacidades profissionais, que terão de apurar com a experiência, e estão decididas a fazer-se respeitar, se for necessário. Mas admitem que este tipo de mentalidade está a mudar.

O que as levou a esta escolha? No caso de Inês, foi claramente o mar. Beatriz descobriu enorme gosto pela actividade durante o próprio curso. E Inês também se sentiu atraída pela vida no mar. Nenhuma tem tradições familiares com raízes marítimas. Família? Não descartam a possibilidade, mas neste momento o mar é o mais importante. Inês coloca-o em primeiro lugar. Beatriz pensa mais na profissão, até “porque cada vez mais as mulheres também têm uma carreira, tal como os homens”. Rita pondera criar uma família, mas tudo depende do percurso que for fazendo.

Correr mundo é algo que está no horizonte de todas. E terá pesado na opção que fizeram. Agrada-lhes a ideia de conhecerem novos lugares e novas gentes, mesmo que isso as deixe longe de casa por longos períodos. Beatriz, a partir de ontem, só irá a casa daqui a 12 meses. A quem pensar seguir este caminho recomendam que se deve “pensar no assunto e não se ficar por medos ou receios”, como disse Rita. Até porque “o mar é um lugar maravilhoso”, conforme referiu Inês.



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