Candidatura de 278.500 euros já aprovada no MAR 2020
Docapesca
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Entre 2012 e 2015, inclusive, as seis candidaturas de sensibilização das populações para valorização e consumo responsável de espécies de pescado promovidos pela Docapesca e co-financiados (entre 70 e 72 por cento) pelo PROMAR (Programa Operacional Pesca, apoiado financeiramente pelo Fundo Europeu das Pescas) representaram um investimento elegível de 730 mil euros.

Se detalharmos os objectivos dessas candidaturas, podemos dizer que serviram para valorizar o pescado transaccionado nas lotas do continente, promover e divulgar os produtos de pesca no mercado interno e externo, valorizar as espécies sustentáveis do ponto de vista ambiental e abundantes na costa portuguesa com grande importância para a frota de pesca (nomeadamente a pequena pesca e as artes de cerco) e inovar na apresentação e confecção gastronómica do pescado (promovendo o desenvolvimento de receitas inovadoras e novos produtos, como a hambúrguer de cavala).

Em 2012, conforme reconheceu a empresa ao nosso jornal, a Docapesca, no quadro da sua visão orientada para a transferência de valor para o sector das pescas, assumiu o papel de “agente dinamizador de iniciativas de mobilização da sociedade para um consumo sustentável e responsável”, seguindo modelos de aulas gratuitas de culinária, showcookings ou workshops com pescado nacional e degustações de pescado fresco ou em conservas.

As aulas têm decorrido em mercados municipais e grandes superfícies, as demonstrações ao público em espaços de cozinha interactivos, festivais e certames gastronómicos e as degustações em eventos relacionados com a actividade da Docapesca, enquadradas no “projecto CCL – Comprovativo de Compra em Lota, cuja etiqueta identifica o pescado fresco das lotas nos pontos de venda ao público sob a assinatura É da Lota. É de confiança”, segundo a Docapesca.

No âmbito do projecto CCL – Comprovativo de Compra em Lota, a Docapesca promove também acções no mercado nacional junto da grande distribuição, do pequeno retalho, da restauração e hotelaria, das escolas, dos desportistas e da comunidade científica. Entre essas acções, destacam-se as campanhas de valorização da cavala, carapau e do polvo, envolvendo municípios, organizações de produtores e associações do sector e escolas de hotelaria. No 1º semestre deste ano, desenvolveu 107 acções de promoção da cavala e do carapau em todo o país, em colaboração com as escolas de hotelaria de todo o país.

Foi neste contexto de valorização do pescado, que a Docapesca quer consolidar e intensificar, que surgiram os circuitos curtos, ou de proximidade, de distribuição dos produtos da pesca, com tradução em três cabazes já implementados (Cabaz do Mar, Cabaz do Peixe e Cabaz Fresco Mar). “O que os circuitos de proximidade pretendem é valorizar os mercados da pequena pesca”, referiu ao nosso jornal a presidente do Conselho de Administração da empresa, Teresa Coelho.

O que parece ter sido o êxito da iniciativa junto da fileira do pescado despertou maiores ambições na Docapesca. Com base neste modelo, a empresa quer “criar uma rede nacional de circuitos de proximidade, aproveitando as melhores práticas de cada um dos três casos”, refere Teresa Coelho. “Queremos estudá-los e replicá-los por todo o país”, refere, sem descurar uma atenção especial às especificidades de cada comunidade piscatória, como os seus hábitos alimentares e as espécies mais comuns em cada uma delas.

Nesse sentido, a Docapesca tem já uma candidatura anual aprovada no âmbito do programa Mar 2020, no valor de 278.500 euros (investimento elegível), destinada à promoção, valorização e divulgação internacional do pescado português, na qual se integra este projecto de criação de uma rede nacional de circuitos de proximidade da distribuição deste produto. Desse montante, 208.875 euros provirão do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP) e o restante do orçamento de Estado, ou seja, da própria Docapesca, segundo apurámos junto de fonte próxima do processo.

No plano internacional, segundo a Docapesca, o seu objectivo é divulgar o pescado português, “salientando os seus atributos qualitativos e de sustentabilidade dos recursos, com uma comunicação associada ao Melhor Peixe do Mundo, com vista ao incremento das exportações”.

Os produtores mostram-se satisfeitos com o trabalho da Docapesca na valorização das espécies menos valorizadas capturadas na costa portuguesa, embora, na opinião de Carlos Macedo, da Administração da Artesanal Pesca, uma cooperativa de armadores de pesca que colabora nas iniciativas sempre que solicitada, tais acções tenham “um efeito diminuto na valorização dessas espécies, pois têm efectividade no mercado da 1ª venda, que absorve uma parte marginal da quantidade capturada dessas espécies em particular”.

 

As espécies e os motivos

 

As espécies assumidamente eleitas pela Docapesca para valorização têm sido a cavala e o carapau-negrão, com base em critérios de natureza nutricional, ambiental e económica. A empresa rejeita que a valorização destas espécies, tradicionalmente consideradas de menor valor, tenha por objectivo substituir a sardinha, cuja captura está sujeita a limitações por razões de sustentabilidade dos stocks, mas admite que o consumo de cavala e carapau-negrão constituem alternativas saudáveis e acessíveis.

E não deixa de ser verdade que a diminuição do stock da sardinha – uma realidade recente nas águas portuguesas reconhecida por entidades oficiais, como o antigo Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR) -, desviou a atenção dos pescadores para outras espécies, como a cavala. Ao fazê-lo, os pescadores procuraram compensar a perda de rentabilidade resultante da crescente e preocupante escassez sardinha.

Em 2012, o IPIMAR admitia que o volume de sardinha nas águas portuguesas entre 2002 e 2011 diminuíra 55% e registava também menos capturas. Actualmente, está comprovado o aumento da biomassa da sardinha ibérica e o próprio Conselho Internacional para a Exploração dos Mares (CIEM), que recomendou um limite de captura de 12 mil toneladas para este ano, já recomendou um limite de 23 mil toneladas para 2017. Uma proposta que sugere indícios científicos de recuperação do stock, mas que não deverá afectar os projectos da Docapesca para valorizar outras espécies. Até porque mesmo esse valor é apenas um terço do que se capturava há sete anos.

Carlos Macedo, a propósito da relação entre a sardinha e outras espécies menos valorizadas, considera que “o interesse dos pescadores pela pesca da cavala e do carapau negrão (ou de qualquer outra espécie) depende apenas de dois factores: da abundância da espécie e da existência de canais para o escoamento da produção; não é (sobretudo) por reduzir a abundância de sardinha que se pesca mais cavala e carapau; isso acontece porque se criaram canais para escoar a captura das embarcações”.

Questionado pelo nosso jornal sobre se é mais rentável, actualmente e no curto/médio prazo, explorar a sardinha, a cavala, o carapau-negrão ou outras espécies, Carlos Macedo responde que “aquilo que é mais rentável pescar no curto e médio prazo dependerá sempre daquilo que o mar tiver para nos dar; numa actividade extractiva em que não controlamos a produção, como numa fábrica de produção em série, temos de estar preparados para trabalhar com o que temos, dentro de um limite de razoabilidade”.

Admite, no entanto, que não se pode “entrar em excessos, seja capturando para além do razoável, seja limitando as capturas para alem do razoável, como aconteceu com a sardinha, onde os últimos dados científicos vêm agora confirmar que se limitou excessivamente a captura”.

Além da cavala e do carapau-negrão, espécies pouco valorizadas a que a Docapesca está a dedicar atenção e recursos, existem outras espécies de menor valor que estão no radar dos cientistas e do mercado. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), sucessor do IPIMAR, refere a boga e a tainha. Já a Associação da Indústria Alimentar Pelo Frio (ALIF), com base em dados da Docapesca, refere a sarda e o berbigão, além da cavala e do carapau-negrão, como as espécies comercialmente menos valorizadas em lota.

No plano nutricional, a cavala e o carapau-negrão são espécies ricas em ómega 3, que são ácidos gordos marinhos, com um papel importante na prevenção de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, na diminuição do teor de triglicéridos (gordura resultante da transformação dos açucares) no sangue e na prevenção e tratamento de arritmias. Existem também algumas evidências que estão a ser avaliadas por estudos, de que os ómega 3 podem ter igualmente um papel no combate ao cancro e na prevenção da obesidade.

Segundo a Docapesca, “a falta de ingestão de ómega 3 por um longo período de tempo tem sido associada a atrasos no crescimento, problemas de visão e distúrbios neurológicos”. E de acordo com a ALIF, quem quiser apostar numa dieta rica em ómega 3, fará uma opção mais acertada se consumir cavala ou sarda, sem prejuízo do “bom aporte” destes ácidos gordos no carapau-negrão.

Em termos gerais, o consumo de pescado é, aliás, recomendado entre nutricionistas e em múltiplos estudos nutricionais. Além de conter ómega 3, o pescado é “um alimento de eleição para uma alimentação mais saudável, dado que é uma excelente fonte de vitaminas, minerais (fósforo, iodo, selénio, cálcio, potássio, zinco, cobre e magnésio) e proteínas de elevado valor biológico (contêm todos os aminoácidos essenciais”, refere a Docapesca, acrescentando os baixos teores de sódio e colesterol.

No caso dos ómega 3, a empresa recorda que na prevenção das doenças cardiovasculares, a dose diária recomendada é de 500 mg, que pode ser obtida com 15 g de cavala ou carapau ou, em alternativa, com 250 g de bacalhau (ou 170 g de pescada, ou 100 g de polvo, ou 30 g de dourada), o que evidencia uma diferença de quantidade necessária a uma dieta mais saudável, conforme as espécies.

No plano ambiental, o consumo de espécies menos valorizadas pode contribuir para a sustentabilidade dos stocks de pescado das águas portuguesas, onde são especialmente abundantes. Esta realidade, associada ao facto de os portugueses serem os terceiros maiores consumidores de pescado do mundo e os primeiros da Europa (56 Kg/ano por pessoa, em média), contudo, leva a Docapesca a sugerir uma responsabilidade acrescida de armadores e pescadores durante as capturas para manter a sustentabilidade dos stocks.

No plano económico, a valorização de espécies desprezadas, designadamente, a cavala e o carapau-negrão, traduz uma estratégia de aproveitamento de pescado abundante na costa portuguesa, “sustentável, com elevado volume de transacção em lota e, ao mesmo tempo, com um preço médio que pode e deve ser valorizado, reforçando a percepção positiva destas espécies como um alimento de baixo custo, saudável, rico em ómega 3, gastronomicamente versátil e com uma gestão sustentável do recurso”, conforme admitiu a Docapesca ao nosso jornal.

Ainda segundo a empresa, por serem pouco conhecidas do público, estas espécies têm um potencial de mercado significativo, bem como do ponto de vista nutricional e gastronómico. A Docapesca considera ainda que “ao nível dos pontos de venda, estas espécies, enquanto produtos frescos, nacionais, da nossa frota e das nossas lotas, são mais atractivas, devendo ser potenciada a sua relação de proximidade com o consumidor”.

Face à dimensão e quantidade destas espécies na costa nacional, o seu aproveitamento pode igualmente contribuir para que Portugal equilibre a sua balança comercial de pescado ao nível de certas importações. Ao despertar as pessoas para o consumo de espécies menos valorizadas que se encontram na nossa costa, as campanhas sugerem alternativas ao consumo de algumas espécies importadas e que, segundo alguns nutricionistas, têm valores nutricionais questionáveis.

 

Modificar hábitos alimentares

 

A identificação de novas espécies de pescado, das suas vantagens nutricionais e dos benefícios que representam para a economia, porém, não bastam para modificar hábitos alimentares enraizados há muito, assentes (no que ao peixe diz respeito) numa cultura gastronómica tradicionalmente ligada ao bacalhau, à sardinha e ao salmão.

Hábitos cuja mudança, ou diversificação, também é importante para garantir a sustentabilidade do pescado, conforme referia a Global Footprint Network em relatório apresentado no ano passado. As campanhas da Docapesca têm surtido algum efeito, mas permanecem resistências.

Segundo a Docapesca, “os hábitos de consumo de pescado nacional revelam ainda pouca procura por espécies como a cavala e o carapau nos pontos de venda, o que se reflecte directamente numa menor valorização na 1ª venda em lota e, por conseguinte, num menor rendimento por parte dos nossos pescadores”.

No entender de Carlos Macedo, “essas espécies poderiam e deveriam entrar de forma mais efectiva nos hábitos alimentares dos portugueses; só tínhamos a ganhar; em qualidade organoléptica, muito superior a alguns produtos que são apresentados hoje nas superfícies comerciais, como o peixe-gato riscado, a perca do Nilo ou o salmão”.

O mesmo responsável considera também que “em termos económicos, poderíamos equilibrar ou até inverter a nossa balança comercial do peixe” e a propósito do enraizamento cultural, que considera subjectivo, afirma que as espécies menos valorizadas “já fizeram parte dos hábitos alimentares dos portugueses, sobretudo, nas zonas ribeirinhas”.

Refere porém que “a capacidade económica e de marketing dos grandes grupos económicos que comercializam espécies como o salmão, e que investem milhões para que uma espécie que há poucos anos não tinha qualquer significado para o consumidor nacional seja hoje das espécies mais comercializadas e consumidas”.

Para este responsável, isso é” um absoluto contra-senso, que só pode ser combatido por um grande envolvimento de todas as instituições, desde o Estado até todos os operadores envolvidos (desde a produção à comercialização); os portugueses têm de reaprender a valorizar o que é seu e ainda por cima de melhor qualidade”.

O primeiro factor requerido para diversificar os hábitos alimentares é o envolvimento de toda a fileira do pescado. Produtores, investigadores, distribuidores, Estado e mesmo a restauração, todos têm um papel a desempenhar no processo. Embora esta ideia seja consensual, os ritmos ou os interesses de cada segmento nem sempre coincidem, pelo que os resultados demoram a surgir.

De acordo com Teresa Coelho, quando se fala em valorização do pescado “é na perspectiva de parcerias com o sector; quando fazemos as campanhas, é para transferir valor para o sector e para melhorar os rendimentos da pesca”. A mesma responsável acrescenta que “há uma consciência colectiva de que este processo de valorização não é isolado, antes é integrado com a investigação (do IPMA) e os interesses da indústria”.

Ao falar de hábitos, teremos de falar de crianças, a primeira linha da introdução de rotinas tendencialmente perenes. E falar de crianças significa falar de escolas. A Docapesca admite que muitas vezes entram nas escolas filetes importados de menor valor nutricional do que a cavala, por exemplo.

Nesse sentido, a empresa desenvolve um esforço para introduzir a cavala nas dietas escolares, sob várias formas, como filetes, hambúrgueres, almôndegas, croquetes lasanhas ou mesmo pizzas. Uma tendência confirmada por investigadoras do IPMA, que assumem a intenção de chegar a uma faixa etária mais nova. Nesse sentido, a Docapesca tem apelado à indústria para encontrar novas formas de apresentar o produto e sensibilizado as cadeias de distribuição e as empresas de catering escolar.

Fonte da Eurest Portugal, uma empresa de restauração fornecedora de refeições a restaurantes, escolas, hospitais, empresas e espaços públicos (como cafetarias e áreas de serviço), admite que “a disponibilização de produtos derivados de cavala (como por exemplo, hambúrgueres e almôndegas)” permitirá um “crescimento exponencial do consumo deste peixe, principalmente na população mais jovem”.

Um esforço que tarda em ser eficaz. Carlos Macedo, reconhecendo que a Artesanal Pesca está mais vocacionada para vender em volume, por grosso, pelo que não fornece directamente as escolas, sabe, por via indirecta, “através de clientes que estão mais vocacionados para esse tipo de comercialização”, que têm existido solicitações, mas que “infelizmente, não têm volumes significantes”.

A mesma fonte da Eurest Portugal, que não encara “a aposta na cavala como uma possível substituição do salmão”, defende que o objecivo da empresa é contribuir para uma “uma alimentação mais sustentável e que, concomitantemente, promova a dinamização da economia portuguesa através do consumo do pescado português”.

Falar de crianças também implica falar de famílias. Numa sociedade com ritmos acelerados de vida quotidiana, nem sempre sobra tempo para confeccionar e apresentar uma refeição…como antigamente. Pelo que a solução para a diversificação pode passar pela apresentação de produtos mais convenientes, em que o peixe é apresentado já amanhado, pronto a cozinhar.

E isso pode ser feito sem prejuízo da frescura do pescado, asseguram investigadoras do IPMA. “A aposta é num pescado saudável (e aqui entra a escolha das espécies), fácil de utilizar e fresco”, referem. Até porque, admitem, “os portugueses ainda valorizam a frescura do peixe”. Mas não só os portugueses. Segundo as cientistas do IPMA, existem estudos que revelam que “os consumidores do sul da Europa têm apetência por filetes de peixe fresco, mesmo embalado”. E essa tendência estará a aumentar.

De acordo com cientistas do IPMA, baseados num estudo de 2010, em Espanha, muito semelhante a Portugal relativamente ao consumo de pescado, “25 por cento do mercado de consumidores de pescado fresco já então preferiam filetes frescos”. E no norte da Europa já se prefere pescado fresco pronto a cozinhar, no âmbito de uma tendência de mercado que aponta para o consumo de refeições pré-preparadas ou fáceis de utilizar.

O factor conveniência também é interessante para a restauração, que pode reduzir a mão-de-obra, a sujidade e, consequentemente, talvez também o preço das refeições. “Imaginemos um chef a receber um filete; é só preparar”, refere uma investigadora. Independentemente da frescura do peixe, algo de que o chef dificilmente abdicará, até por motivos de reputação (pelo que o produto será certamente fresco), o consumidor nunca saberá se o restaurante recebeu o pescado filetado ou não. “Se o produto for bem preparado e com qualidade, ainda que embalado, a frescura não se perde”, afirmam investigadoras.

Os chefs têm outro papel a desempenhar neste processo, além da selecção do pescado na restauração. Em Portugal, juntamente com alunos das escolas de hotelaria, têm contribuído para desenvolver técnicas de filetagem, nomeadamente, da cavala e do carapau, e aproveitar o potencial nutricional e gastronómico destas espécies.

Ao criarem novas receitas e formas de confecção e apresentação destas espécies, ampliam o seu modo de utilização e favorecem a sua disseminação entre os consumidores. Ao fazerem-no, também desmistificam um preconceito: o de que por serem menos valorizadas, estas espécies só têm aproveitamento pelas classes sociais mais desfavorecidas. Tal como o demonstram alguns chefs de renome nos seus menus de degustação fine dinning.

Carlos Macedo também reconhece a importância da apresentação. “Numa sociedade de consumo como a que vivemos, a apresentação é essencial e um factor decisivo da venda, sobretudo quando, infelizmente, a ignorância e a contra-informação sobre o peixe de qualidade está a aumentar”, refere.

Acrescenta no entanto que “este caminho do pescado processado e embalado está a ser feito de forma paulatina, pois uma parte considerável do consumidor português ainda é um pouco conservador no que diz respeito ao peixe, daí a importância das peixarias; contudo, as novas gerações demonstram cada vez mais interesse nesse tipo de produtos, pelo que no futuro a sua importância será crescente”.

Para o Administrador da Artesanal Pesca, mais do que a apresentação, porém, é a generalização da forma de confecionar as espécies menos valorizadas. Segundo crê, “a apresentação do peixe filetado podia ser uma forma de o valorizar, assim como outras formas de processamento mais complexa, como as hambúrgueres ou as almôndegas; ainda assim e dada a desconfiança que uma grande parte do consumidor português ainda tem relativamente ao peixe processado, creio que generalizar uma confecção simples seria o passo mais determinante”.

Para a Eurest Portugal, relativamente à cavala, “existe uma resistência numa primeira instância, que pode facilmente ser combatida através da apresentação de novas formas (tipo de preparação, confecção) de consumo da cavala, mas também da disponibilização de informação ao consumidor final sobre os benefícios” do seu consumo. Neste momento, a cavala integra as ementas da empresa “na sua forma original”, mas a Eurest Portugal admite que brevemente irá “reinventar o consumo da cavala”, para o que está a trabalhar com um chef.

Outro desafio para a diversificação dos hábitos alimentares de pescado, a que está directamente associada a introdução de novos produtos no mercado, está do lado da indústria, segundo a Associação da Indústria Alimentar pelo Frio (ALIF).Trata-se do sabor intenso de algumas espécies alternativas e em processo de valorização, como o carapau. Tal como a sarda, “é do conhecimento geral que é uma espécie com sabor muito característico, que não agrada à maioria dos consumidores”, refere Manuel Tarré, presidente da associação. A ALIF defende “que a indústria deve intervir no sentido de desmistificar estas tendências; mas para isso é preciso trabalhar o produto e, posteriormente, apostar numa forte campanha de sensibilização ao consumo”.

Trabalhar o produto, significa, entre outras coisas, cuidar da embalagem, ou do packaging, que é outro elemento decisivo para atrair os consumidores. E colocá-lo estrategicamente nas grandes superfícies de distribuição. Para a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), a diversificação dos hábitos de consumo de peixe dos portugueses está directamente associada à sustentabilidade do pescado.

“Ciente desta realidade, sendo que este não é um tema e uma necessidade recentes, há muito que o sector da distribuição tem vindo a apostar em práticas e políticas de sustentabilidade do pescado, com base em diversas análises quer sobre os hábitos de consumo dos portugueses, quer sobre o impacto ambiental e nos ecossistemas das práticas piscatórias e de comercialização”, refere a APED.

Para a associação, “as várias insígnias da distribuição são importantes intervenientes na fileira do pescado por representarem uma fatia expressiva nas vendas, levando todos os dias este produto ao consumidor, e por adoptarem princípios, práticas e compromissos que visam a protecção da biodiversidade marinha”.

A APED acrescenta que “o sector da distribuição vê como importantes não só estas práticas e compromissos, mas também o trabalho feito junto do consumidor; é essencial apostar na consciencialização para novos hábitos de consumo de pescado, pelo que a distribuição tem realizado acções de sensibilização, dando um maior grau de visibilidade a pescado proveniente de métodos de captura mais sustentáveis e comunicado nas bancas de peixe/peixaria o Comprovativo de Compra de Lota”.

O investimento é outro factor importante para o êxito do processo de modificação dos hábitos alimentares. Apesar de as empresas investirem cada vez mais na inovação, quer relativamente a novos produtos, quer no packaging, “a falta de apoio financeiro continua a ser, contudo, um entrave a novas tendências de mercado”, referiu o presidente da ALIF ao nosso jornal. O mesmo responsável nota, no entanto, que a inovação fica em segundo plano face às obrigações legislativas “a que as empresas têm que obedecer, nomeadamente no que se refere à rotulagem, o que representa um elevado investimento a assegurar”.

A limitação de meios financeiros disponíveis também afecta a investigação. Face à insuficiência de financiamento, os recursos do IPMA nesta matéria têm sido dirigidos preferencialmente “para as espécies que tradicionalmente são prioritárias, como a pescada, a sardinha, entre outras”, admitem investigadoras do Instituto. “Até há uns anos nem sequer se colocava essa necessidade”, referem.

As mesmas cientistas, no entanto, reconhecem que “agora começa a investir-se na investigação dessas espécies, mas a informação disponível ainda é insuficiente para termos uma boa indicação do impacto da sua exploração”. Uma alusão à boga, por exemplo, em relação à qual se desconhecem “a qualidade nutricional e o valor sensorial”, referem as investigadoras. Informações sem as quais é difícil pensar em introduzir a espécie no mercado.

Motivos suficientes para que o IPMA tenha em preparação um projecto de estudo desta espécie. Tal como a cavala, a boga será incluída numa candidatura do IPMA a um financiamento no âmbito do programa MAR 2020 para estudar a sua componente nutricional e a sustentabilidade dos seus stocks. E porquê a boga? É uma espécie que tem sido capturada e que o IPMA decidiu analisar, visando o interesse económico do sector, mais do que o interesse científico.

 

Efeitos

 

Actualmente, já se sentem efeitos deste processo de sensibilização. De acordo com as investigadoras do IPMA, “já há muita gente a pedir cavala e já existem consumidores que valorizam a cavala pelo aspecto sensorial e nutricional”. Manuel Tarré recorda que “um excelente exemplo de produtos que já se encontram no mercado é a hambúrguer de cavala, de salmão e de peixe panado”.

Para o presidente da ALIF, “este trabalho já foi desenvolvido por algumas empresas associadas da ALIF” e tem gerado produtos diferenciadores, “principalmente quando a aposta é oferecer produtos de pesca ao consumidor mais jovem”. As investigadoras do IPMA acrescentam que a diversificação pode beneficiar a própria indústria conserveira, mas reconhecem que existem industriais ainda “muito fixados em certas espécies às quais o nosso consumidor está mais habituado”.

As cientistas referem que nesse ponto, a indústria conserveira espanhola estará mais adiantada, na medida em que está menos dependente da sardinha. “Eles produzem carapau, sarda, polvo, lulas…diversificam”, esclarecem. E reconhecem que em Portugal há casos em que “só falta a indústria avançar”.

No caso das salsichas de peixe, já esteve um projecto pronto e foram feitos contactos, “até com produtores de salsichas de carne”. Era “um produto chave-na-mão, com estudos feitos que revelavam uma boa adesão por parte dos miúdos”, mas não avançou. “É que a indústria, por vezes, tem medo de avançar”, consideram as cientistas. Tal pode ter a ver com a adaptação dos equipamentos a uma nova produção “e isso custa dinheiro”, admitem.



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