Em honra e louvor de Luís Fernando, o Veríssimo
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De véspera

Respondeu-me cordial o nadador-salvador.

A praia está suficientemente cheia para a senhora das bolas de Berlim, se quiser fazer negócio, ter que andar de asa delta.

E por isso tinha perguntado não menos cordial ao nadador-salvador, qual era a melhor altura para chegar e arranjar um lugar.

Ele tinha respondido aquilo, e mais. Que naquela simpática vila, entre a época alta e a baixa, a população variava menos do que entre a maré alta e a baixa.

Ainda não coloquei os pés na areia, e constato que toda aquela gente levou suficientemente a sério o ensinamento contido no capítulo um, versículo vinte e oito do Génesis: crescei e multiplicai-vos.

Para mim sobrou o princípio da impenetrabilidade: dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Mas não é isto que me vai inibir. Abandono a segurança do passeio empedrado, com a toalha enrolada debaixo do braço, e nas pontas dos pés, contacto com a areia.

Durante algum tempo e alguns metros, pratico uma estranha dança que devia fazer as delícias a um coreógrafo de uma escola pós avant-garde.

E por instantes lamento que não saiba levitar. O Técnico devia ter aulas de levitação no currículo, ministradas por um professor tibetano, de preferência em substituição de uma daquelas sinistras análises matemáticas.

Paro num oásis, com não mais do que meio metro de lado, tolhido por um mal-estar atroz, que me percorre o corpo todo, da ponta dos pés (o que é natural) até ao lóbulo das orelhas.

Contudo, chego a sorrir ao pensar naquela coreografia de há pouco, até porque a uma pequena distância de mim, uma rapariga bastante bonita, imita os mesmos gestos, e em busca de um oásis semelhante ao meu.

Infelizmente não lhe posso ceder nem um milímetro. Tenho pena, porque ela é francamente bonita, mas se o fizesse, íamos ficar numa intimidade tal que ia levantar suspeitas ao cabo de mar, e embaraços ao namorado dela, que estivesse onde estivesse, seguramente existia. E se calhar mais do que um.

Mas sou uma pessoa decente, e vejo com agrado que ela conseguiu arranjar o seu próprio pedacinho de areia para descansar a planta dos pés, e portanto o seu belo corpo.   

Repito, sou uma pessoa decente. Mas há quem não o seja, como constato ao verificar que o marmanjo que está deitado ao lado do local onde ela repousa os pés, estava disposto a sacrificar a população toda do universo – quanto mais a da praia! – para desobstruir aquela parcela de areia ali mesmo ao seu lado.

Penso com mágoa que não posso ficar ali a vida toda, com os calcanhares colados, o que já começa a provocar outra espécie de dor.

E de repente, fosse ainda pelos passos que tinha dado até ali, fosse sobretudo pelo desconforto que experimentava, associado à luminosidade impressionista da manhã, vi-me transposto para muitos anos antes, para a escuridão aveludada (ou as poltronas é que eram de veludo?) do Metropolitan Opera, de Nova Iorque, onde tinha assistido à opera Einstein on the beach, com música de Philip Glass e encenação de Robert Wilson.

Regresso à atualidade, e à minha dor, mas mesmo assim, com extrema habilidade rodo o corpo todo em quase 360º, e constato que Einstein não está na minha praia.

Tenho, como julgo que todos, uma profunda admiração pelo cientista, mas dadas as circunstâncias, não deixo de ficar aliviado. Menos um.

Com aquela movimentação, verifiquei que à minha volta, outras pessoas desesperadas ambicionam o meu quadradinho de areia, para descansar as suas próprias dores.

E eu, que como já sabem, sou uma pessoa decente, faço-me novamente àquele areal congestionado, qual pequeno Saara nipónico.

Os espaços tornam-se, custa a acreditar, mais escassos e exíguos, e eu penso numa crónica que li do extraordinário António Prata, onde ele explica o programa eleitoral do PSTM, um partido brasileiro concorrente a umas quaisquer eleições. Pegava-se no comprimento do litoral brasileiro, dividia-se pela população, e chegava-se ao número mágico de 5 metros de areal para cada cidadão.

Mesmo sem fazer as contas, acho que aquela era uma excelente proposta para fazer chegar a justiça à praia, e claro, acabar com o meu tormento.

Passo revoltado por famílias inteiras que ocupam não toalhas, mas carpetes, vagamente turcas.

Um destes aglomerados humanos, espraia-se felicíssimo por uma superfície tamanha, que nos intervalos livres se podem reconhecer pormenores de A Ronda da noite de Rembrandt.

Assim, como é que alguma vez vou poder esticar a minha toalha onde está representado apenas um dos quadrinhos do Lotus Azul do Tintin…

Aproximo-me dá água, e sinto com prazer a areia cada vez mais húmida.   

A não mais do que meia dúzia de metros do areal da praia, sob o azul profundo da água, circula uma corrente alimentada pelos glaciares que há milhões de anos derretem tranquilos ao norte, muito ao norte.

E quem entra na água, deixa atrás de si um rastro de vapor.

Ah, mas de repente e finalmente consigo avistar um rosto conhecido.

Não me recordo exatamente de onde, mas ele talvez sim, porque refastelado numa toalha que tem tudo para ser confortável, rasga-me um sorriso por demais encorajador.

Que eu não posso de forma alguma desperdiçar, não estou minimamente em situação para isto, e pergunto-lhe como é que conseguiu aquele lugar.

Sem perder o sorriso, respondeu-me:

Deixou-me uma tia minha em herança



2 comentários em “Einstein não vai à minha praia”

  1. Pedro de Noronha diz:

    Muito bom.

    Boa praia … e na próxima, leve uns chinelos 🙂

  2. Artur Manuel Pires diz:

    Muito obrigado pela tradicional generosidade de apreciação. Na realidade, uns chinelos que permitissem andar em pontas, devia ajudar.
    Reiterando os agradecimentos, e igualmente com votos de excelente praia,

    Artur Manuel Pires

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