Os homens do mar são, porventura, os mais supersticiosos entre todos os seres humanos.

Esse facto, na actualidade, pode ser identificado em múltiplas e variadas crenças relacionadas com o azar das tripulações e com os comportamentos dos navios face aos imponderáveis do mar, que servem, frequentemente, para alimentar histórias ligadas às viagens marítimas.

Na antiguidade, qualquer navegação na imensidão do mar tinha associada o terror que a mitologia da época foi desenvolvendo para explicar as tempestades, as mortes de marinheiros, bem como os naufrágios e os desaparecimentos de navios. À falta de conhecerem os perigos marítimos, os nossos antepassados criaram várias narrativas simbólicas e imaginativas para explicar a causalidade das tragédias ocorridas. São casos paradigmáticos das superstições resultantes de mitos fantasiosos, os monstros marinhos que destruíam os navios e devoravam as suas tripulações, bem como o fim do oceano Atlântico, cujas águas caíam em cascata a sul do cabo Bojador, levando ao desaparecimento dos navios.

O movimento científico iniciado por Portugal no século XV, do qual resultou o progresso da navegação astronómica, o traçado de cartas náuticas com a implantação da latitude dos lugares, bem como o estudo das marés, das correntes e dos ventos, associado à construção de navios mais robustos e à formação de técnicos náuticos, contribuiu para eliminar muitos dos mitos fantásticos da antiguidade e, consequentemente, reduzir as superstições marítimas relacionadas com o desconhecimento náutico, hidrográfico e geográfico. Tais superstições foram muito criticadas pelos filósofos desde o Renascimento. No século XVIII Voltaire escreveu que eram o vício dos tolos e, durante todo o século XIX, foram comummente consideradas como fraqueza de espírito!

Embora negadas pela ciência e criticadas pelos intelectuais, as superstições dos marinheiros nunca deixaram de existir. Transformaram-se e, na actualidade, têm uma origem distinta das crenças irracionais e obsoletas do passado. A sua persistência resulta do facto de os homens do mar continuarem a acreditar em situações com relações de causalidade que não se podem demonstrar de forma racional ou empírica. Por isso, embora os marinheiros do nosso tempo já não tenham medo dos monstros marinhos ou do fim dos oceanos, perante acontecimentos inexplicáveis pela ciência, comportam-se como os seus antepassados, supondo existirem forças sobrenaturais que promovem a causalidade das situações. Estão, neste caso, as superstições ligadas a palavras interditas, como mulher, corda, coelho e boa sorte, ou a atitudes proibidas, como assobiar a bordo, ou rebaptizar os navios, porque todas elas atraem a má sorte para a tripulação.

A par destas superstições relacionadas com o azar, os marinheiros a desenvolveram outras crenças associadas a atributos paradoxais dos navios, nomeadamente, a alma, a personalidade e o género, cuja génese pode ser encontrada no seu comportamento face aos indefiníveis riscos do mar.

Sobre a alma dos navios podemos interrogar-nos se objectos inanimados possuem essa faculdade. Mas, os marinheiros, fundamentados na experiência da sua vida a bordo, clara e consensualmente afirmam que sim. Fazem-no, de forma inequívoca, porque o seu navio não é um objecto inerte, mas um “ser vivo” que, como eles, nasce, cresce e envelhece, e com quem partilham, em total cumplicidade, momentos de extrema felicidade e de perigosa adversidade. Por isso, qualquer marinheiro considera que o seu navio tem uma alma, da qual emana uma linguagem própria para exprimir e viver as situações complexas decorrentes da subtileza do mar.

O cidadão comum, sem grande contacto com o mar, não concorda com a existência de navios com alma. Invariavelmente considera que os navios se destinam, apenas, a satisfazer as necessidades utilitárias ligadas ao comércio, à pesca, ao recreio e à guerra. Porém, esse mesmo cidadão, quando está a bordo de um navio, ao qual confia sua vida e os seus sonhos, perante um temporal dificilmente não lhe confere uma alma e, quantas vezes, fica convencido que o navio é, igualmente, dotado de uma personalidade, consubstanciada num conjunto de características marcantes, ligadas a padrões de comportamento recorrentes e consistentes.

Uma alma e uma personalidade mas, também, um género! Com efeito, os marinheiros acreditam que uns navios, por terem aparência esbelta, flancos generosos e uma forma inimitável de sulcar o mar com leveza e doçura, são do género feminino, enquanto outros navios, por possuírem um aspecto robusto, o casco altivo e navegarem rasgando as águas com fragor e firmeza, são do género masculino. Na realidade, o comportamento elegante de um navio no mar, só encontra igual na beleza dos gestos de uma mulher sofisticada. Mas o comportamento resoluto de um navio no mar, só é traduzido fielmente pelas atitudes firmes de um homem atlético.

Quer as superstições sejam fundadas no azar das tripulações ou no comportamento dos navios em presença da imprevisibilidade do mar, há uma característica comum a todas elas: Estão ligadas à suposição da existência de forças sobrenaturais, que determinam a vida dos marinheiros, cuja causalidade a ciência ainda não explica.



2 comentários em “Superstições dos marinheiros”

  1. pedro zanoni cavalcante silva diz:

    Acredito, que participei da primeira viagem em um vaso de guerra, na qual foi admitida a presença de mulheres. Foi em 1971, no Ntr Soares Ddutra – G 22. Um deslocamento de aproximadamente 10.000 milhas. Na ocasião fui informado, de que dá azer transportar mulheres em navios de guerra. Podemos considerar a operação – viagem prêmio em convênio com o Instituo Euvaldo Lodi – como precursora da presença da mulher na Marinha do Brasil.

  2. Daniel diz:

    Ao fim de 43 anos de Mar, nunca ouvi falar em nada disso.
    Quanto ao chamar cabo à “corda”, é uma tradição e não uma suprestição e quanto ao navio ser uma Mulher, têm que perguntar isso aos ingleses, pois são os únicos que tratam os navios pelo feminino “she”.
    Com os melhores cumprimentos.

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