Música à maré, ou a bossa nova
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Gastaram-se.

Um dos melhores livreiros que conheci até hoje, com loja ao Loreto, deu-me aquela resposta quando lhe perguntei o que é que tinha acontecido às primeiras edições de Eça de Queirós. Porque é que eram tão raras, e portanto tão caras.

Como somos dois admiradores incondicionais do grande escritor, acabámos por ficar satisfeitos com aquela explicação, ele claro mais ainda do que eu, porque apesar da amizade, mantemos a tradicional relação cliente/fornecedor. E continuou:

Foram lidos até à extinção. Comprados, lidos, emprestados, novamente lidos, etc. E os que não se gastaram, ficaram deteriorados pelas condições de leitura.

Passou-me para as mãos uma primeira edição de O Crime do Padre Amaro, com a capa em mau estado, mas o interior ainda mais. Páginas manchadas a cinzento, e com autêntica gordura.

Eram lidos clandestinamente, sobretudo pelas mulheres. Donas de casa ou governantas mais esclarecidas. Este por exemplo, as páginas acinzentadas são da humidade do vapor de água engordurado, e as acastanhadas, azeite e banha. O livro foi lido às escondidas numa cozinha.

Depois, um tanto maldosamente (mas para meu encanto, devo confessar), apontou para outras estantes onde se alinhavam imaculadas, coleções originais de grandes vultos da literatura, e não conseguimos deixar de concordar os dois:

Gastaram-se.

Quase cem anos depois, aconteceu algo semelhante com os discos originais da bossa nova, em que muito deles estão empenados pelo sol, manchados de sal, encravados por areia.

Não é particularmente complicado seguir a evolução do samba, desde as suas raízes em África, a sua passagem pela Bahia, e o seu nascimento no Rio de Janeiro, nos últimos anos do século XIX, nos morros cariocas, pela mãos e os pés da população negra, recentemente liberta da escravidão, e que tinha vindo do nordeste, e estava agora desocupada, depois de extinta a atividade baseada em mão de obra escrava.

Dos morros, o samba desceu para o asfalto, para a mítica Praça Onze, para a zona dos cais, o mangue, os sobrados da zona norte, e sempre transformado, subiu novamente os morros, Mangueira, Estácio, S.Carlos, e derramou-se pela cidade, Rádio Nacional, ali junto ao porto, subúrbios, Vila Isabel, Penha, Avenidas Rio Branco e Getúlio Vargas, Laranjeiras, Catete, Botafogo, até que atravessou os túneis, e chegou ao mar.

Nos anos cinquenta do século passado, o samba chegava a Copacabana, transformado em samba canção. Às avenidas, praças, ruas e becos, onde à noite funcionavam as boates e os inferninhos, que faziam naquela altura a noite de Copa tão glamorosa como a de Habana.

Mas à praia, o samba só chegou quase no final daquela década, indo pela orla, à beira do mar, ou pelo intrincado de ruas charmosas como a Rua Canning. Transpôs o Arpoador, e fez a entrada triunfal em Ipanema, quando em Agosto de 1958 a rádio tocou pela primeira Chega de saudade, na voz e no violão de João Gilberto. Tinha começado a bossa nova.

O contacto da música brasileira com a erudita é relevante. Em 1917 Darius Milhaud desembarcou no Rio de Janeiro, na qualidade de secretário de Paul Claudel, colocado como embaixador na capital brasileira.

Milhaud apaixonou-se pela música popular brasileira, deixando-nos deste relacionamento um conjunto de obras, como Saudades do Brasil, que faz parte do reportório de todas as grandes orquestras mundiais. Por essa altura o grande (em tudo) Heitor Villa Lobos, trabalhava profusamente esta relação entre música erudita e folclore, seguindo a tendência dos mestres europeus quase contemporâneos, de resistência à tirania do cânone alemão.

Villa, vai pegar precisamente na música de Bach, e compor a série das bachianas, onde faz incursões pelo choro, esta música popular tão carioca.

Em 1956, o poeta e diplomata Vinicius de Moraes, à altura secretário da embaixada brasileira em Paris, levou à cena no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na noite de 25 de Setembro, a peça Orfeu da Conceição, uma adaptação do mito grego de Orfeu e Eurídice ao Carnaval das favelas dos morros cariocas. Tinha cenários do arquiteto Oscar Niemeyer, que naquela altura já estava também a projetar Brasília, música de António Carlos Jobim e poemas de Vinicius de Moraes, os mesmos que assinaram depois Chega de saudade, e que iam fazer ainda diversas obras primas, como Garota de Ipanema.

Anos mais tarde, em 1959, o cineasta francês Marcel Camus, adaptou a peça ao cinema, e com novas músicas do músico e do poeta, fez um filme extraordinário, Orfeu Negro, que ganhou no ano seguinte o Óscar para o melhor filme estrangeiro. Ver o filme foi a maior emoção da infância de um menino, levado ao cinema pela mão da sua mãe, chamado Barack Obama, e que anos mais tarde seria presidente dos Estados Unidos.

Bem, mas voltemos à nossa bossa nova, que deixámos nos areais de Ipanema.

O lado sofisticado, suavemente erudito, da bossa nova, e que era, e é, samba, afastou-a contudo da restante música brasileira.

Tinha um território muito preciso e precioso, Ipanema. Estendia-se entre o Arpoador e ponta do Leblon, e estreitava-se entre a praia e a Lagoa Rodrigo de Freitas. Os seus músicos moravam ali, ou perto, e o seu público era a classe média e alta da burguesia brasileira, que habitava pequenos prédios de ruas tranquilas e arborizadas.

Como viviam permanentemente com a areia da praia nos pés, os prédios tinham dois elevadores, um deles, de serviço, reservado a bábás e banhistas, e o outro, o social, à restante população. E não era raro ver um ministro da república a utilizar, ora um ora outro elevador.

A acompanhar uma música e uma letra de muito bom senso e muito bom gosto, nomes como Newton Mendonça, Silvinha Telles, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, Nara Leão, Roberto Menescal, e tantos outros, construíram uma lírica de é sol, é sal, é sul…a onda que se ergueu no mar…ela vem sempre tem esse mar no olhar…num doce balanço a caminho do mar… dia de luz, festa de sol, e o barquinho a deslizar no macio azul do mar…

Mas um dia, exausta de exposição, sem as raízes populares do samba, do fado, do tango ou do jazz, a bossa nova, que precisava apenas de uma suave claridade, extingui-se.

O final da bossa nova coincide sensivelmente com o início do regime dos militares, em 1964. Por razões populistas, era preciso dar à imensa juventude brasileira, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, das cidades ao sertão, a sua música, e então nasceu uma coisa de massas, incompatível com a bossa, que era requintada, efémera e fugaz.

Chegaram até nós algumas gravações originais, discos gastos de tocarem, e tocarem, moídos como cana de açucar, quase quadriculados, de tantos riscos na horizontal como na vertical. Gastaram-se.

Hoje a bossa nova existe na arquitetura de Brasília, e na música que se pode ouvir em instantes raros, em qualquer lugar do mundo. Até nos elevadores.



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