Trains and boats and planes (Trains and boats and planes - Burt Bacharach & Hal David)
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Em África existem quatro tipos de paisagem: a savana, a floresta, a montanha e o caminho de ferro.

Os comboios transportam o mar.

Os comboios transportam sobretudo o mar, levando-o aos infelizes do interior  do continente, que ficaram privados dele por uma divisão de terras injusta.

As linhas do caminho de ferro nascem no mar, e vão desaguar nos confins da terra, autênticos rios ao contrário.

Por este motivo os carris ainda ajudam a costurar por dentro a unidade continental, fornecendo-lhe um formato lógico que geralmente as fronteiras políticas não conseguiram, e uma vez que o equipamento tem que respeitar os acidentes geográficos, um rio, uma montanha, uma lagoa, coisa que as fronteiras traçadas por meridianos e paralelos não fizeram.

Chegava-se a África de barco, e embrenhava-se por ela adentro no comboio, que partia dali muito perto.

Em alguns casos, como o do Caminho de Ferro de Benguela, um bilhete único dava direito a desembarcar no Lobito, dormir no hotel, e partir no dia seguinte rumo aos interiores de África.

Só o regresso não estava já assegurado. Mas caramba, isto constituia parte do fascínio de África!.

Por todas as razões, fazia todo sentido concentrar a gestão de todo este mundo num único organismo, e surgiram os omnipotentes Caminhos de Ferro.

Uma entidade quase mitológica, pelo poder que detinha, aonde chegava, e pelo número de pessoas que empregava, que geria os portos e o comboio, e naturalmente toda a infraestrutura que lhe estava associada.

Como este modelo também fosse muito do agrado dos ingleses, mas neste caso o organismo central não era o estado, como nos empreendimentos portugueses, mas uma companhia privada colonial, estavam constituídos   os senhores de África, os Caminhos de Ferro!

E quando no primeiro terço do século XX os aviões fizeram a sua aparição nos céus de África, e começaram a enxamear os horizontes, nada mais natural do que incluí-los nos Caminhos de Ferro.

Não serviam para levar e trazer pessoas e coisas para e de, o interior de África?. Não precisavam de oficinas de manutenção, de engenheiros, de casas para albergar as famílias das tripulações, de hospitais para os cuidados de saúde, e de cinemas e clubes para divertimento?. Pois que compartilhassem tudo, que os custos eram mais reduzidos, o aborrecimento era menor, e conseguia-se naquele tempo, à beira das águas calmas da baía de Luanda, uma coisa que os gurus mundiais da gestão só iriam descobrir muitos anos mais tarde: a estratégia integrada  de transportes.

A inclusão da aviação nos Caminhos de Ferro, tanto em Angola como em Moçambique, fez do Director-Geral dos Caminhos de Ferro, a pessoa mais importante do território, mais até do que o próprio Governador, e do meu pai, que era aviador, um membro dessa comunidade mundial, que são os ferroviários.

Uma coisa que contribuiu para a importância desmesurada do comboio em África, foi o seu sentido de oportunidade. Alguns anos após a revolução industrial, o comboio tem o apogeu do seu desenvolvimento, enquanto maquinismo, assentamento de carris e processos administrativos, coincidente com a penetração colonial no continente, típica dos últimos anos do século XIX.

O comboio transportava para a costa, as pessoas, os minérios, o gado e a produção agrícola.

Ah, e não só. E o Pai Natal.

A vinte e quatro de Dezembro o Caminho de Ferro organizava a maior festa de toda a Angola. Aberta a todos os filhos dos funcionários, dos engenheiros aos ajudantes de serventes, pretos, mulatos e brancos, ombro com ombro, num espaço apinhado, reunia-mo-nos na estação ao pé do porto, para receber o Pai Natal que fazia a sua entrada triunfante na estação, à frente de um velha locomotiva imperial.

O bondoso velhinho para não defraudar ninguém, vinha rigorosamente vestido como pode ser visto em qualquer das suas representações universais; casacão vermelho, botas forradas a pelo, gorro na cabeça. Roupa que deve ser bastante confortável na Lapónia.

Só que em África, em Luanda, vinte quatro de Dezembro pode muito bem ser o dia mais quente do ano. Os termómetros escaldam, o sol pinga a pique do zénite, e o pouco alcatrão que ainda existe agarra-se aos pés.

Isto fazia com que o nosso personagem, antes de começar a distribuir os brinquedos, tivesse que ser reanimado a poder de ventoinhas. Mas depois, já restabelecido, ninguém o conseguia parar na distribuição dos brinquedos.

Desafortunadamente já não tenho nenhum deles. Mas tenho uma coisa   melhor, que é esta suave lembrança.



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