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Os cariocas foram um extraordinário conjunto vocal brasileiro, que sobressaiu no panorama musical do país nos anos quarenta, cinquenta e sessenta, com um principal destaque para o período da bossa nova.

Seriam eles que na boite Au Bon Gourmet, em Copacabana, numa noite de Agosto de 1962, cantariam pela primeira vez Garota de Ipanema, e que não muito depois seria a música mais tocada do planeta.

Mas os cariocas, para mim, são também a quinta dinastia, uma outra, dentro da última dinastia portuguesa dos Braganças. Mais precisamente D. Maria II, D. Luís e D. Carlos, e vão buscar o nome à rainha, mãe e avó, D. Maria, nascida, no Rio de Janeiro.

A entrega à resolução dos problemas do Estado, a visão liberal destes, a cultura dos príncipes, e pelo menos nos dois últimos, a paixão pelo mar, foram características dos cariocas.Luís viu inclusivamente a sua carreira de oficial da Armada interrompida pela morte do irmão D. Pedro V, obrigando-o a suceder-lhe, e a ter que se dedicar à governação do país.

Isso não o impediu de se dedicar aos assuntos do espírito, ao ponto de até há bem pouco tempo, as traduções de Shakespeare que havia disponíveis nas livrarias, terem a assinatura de Luís de Bragança.

Afinal, a mesma simplicidade e naturalidade com que o filho assinou as suas telas: Carlos de Bragança

E Carlos, teve uma paixão por demais conhecida pelo mar, expressa na criação do Aquário Vasco da Gama, e pelas campanhas oceanográficas levadas a cabo na nossa costa.

O Brasil, foi fundado em conformidade com o modelo económico de produção/exportação, que aliás ainda influencia na atualidade a economia do país, e com este modelo conseguiu ter a hegemonia mundial de três matérias primas à escala universal. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, o açúcar, na Bahia, no Rio de Janeiro e sobretudo no Recife. No século XVII, o ouro, produzido em Minas Gerais e exportado pelo Rio de Janeiro, e no século XIX e XX, o café, em Minas, no Rio de Janeiro, e sobretudo em S. Paulo. Isto para além de outros três grandes períodos económicos, como sejam os do tabaco, da borracha e do cacau.

Ou seja, o Rio de Janeiro participou em todos os três grandes impulsos desenvolvimentistas do país, sendo a única região do Brasil a fazê-lo, e quando o D. João VI e a corte aqui chegaram, o Rio ofereceu à corte toda a exuberância de uma capital nos trópicos.

Se o paraíso existe na terra, é aqui próximo.

Em Janeiro de 1502, Américo Vespúcio, um navegador florentino, que ficaria para sempre justamente imortalizado por ter tido a perceção de que não estava na Índia, como Colombo morreu a julgar que estava, mas sim num novo continente, a que acabou por dar o seu nome, não conseguiu exprimir de outra forma a impressão que o Rio de Janeiro lhe causou.

E três séculos depois, em Março de 1808, quando a família real portuguesa desembarcou na cidade, aquela afirmação, apesar da chaga da escravatura e do perigo da febre amarela, conservava-se plenamente verdadeira.

Os portugueses da metrópole mergulharam num reino encantado de sinhôs e sinhás, viscondes, barões, coronéis, iôiôs e iaiás, mucambas, imperadores, curumim, sararás, macumbas, maracas, guaranis, desembargadores, xácaras, sabiás, sítios, missionários, xícaras, dindinhos, vice-reis, sobrados, casas-grandes, jararacas, moleques, sapotis, tucanos, camas de rede, mangas, tupis, capitães-mor, mosquiteiros, bispos, capitães-do-mato, mascates, tatus, senhores de engenho, tapioca, araras, cachaça e dendê, creolos, cafunés, fulos, aimorés, quindins e lundus.

E as crianças ainda tinham direito a mingaus.

A estadia no Rio de Janeiro nunca mais seria esquecida, por um grupo imenso de portugueses.

Tinham vindo para que o seu rei continuasse a assegurar a independência do país, ameaçada pelas invasões francesas, e começaram a regressar ao longo dos anos vinte do século XIX, extinta a ameaça, e para continuar em Lisboa a governação. Houve dossiers que foram abertos em Lisboa, e fechados no Rio de Janeiro; outros foram abertos e fechados no Rio. E outros ainda, foram de Lisboa por resolver, regressaram na mesma do Rio de Janeiro, e assim permanecem até hoje, salutarmente arquivados nos pendentes.

Aquela estadia, deitou raízes quase tão fortes quanto as das árvores da Mata Atlântica. Foi o que aconteceu com a descendência da monarquia portuguesa. Fruto do casamento do príncipe herdeiro D. Pedro, futuro D. Pedro IV, com a princesa austríaca D. Leopoldina, nascia em 1819, no palácio de S. Cristóvão, no Rio de Janeiro, D. Maria, a nossa rainha D. Maria II, a carioca.

Este gesto, é prenhe de significado, porque confirma e contínua uma prática tão saborosamente portuguesa, de se nascer no ultramar, no local de residência dos pais na altura, ao invés daquilo que faziam os ingleses, franceses e belgas, de ir nascer à metrópole.

O seu irmão Pedro, seria Imperador do Brasil, o único monarca nas Américas, do Alasca à Patagónia, e de um território que já era quase metade da América do Sul.

Os restantes cariocas disseminaram-se pelas cortes importantes da Europa, encantando com o exotismo da sua proveniência, contando estórias quase inacreditáveis de uma cidade encravada na floresta, à beira da água, e recortada por morros, enseadas e ilhas. Falar sobre a cidade era uma forma de mitigar as saudades.

E Dona Francisca Carolina Joana Leopoldina Romana Xavier de Paula Micaela Rafaela Gabriela Gonzaga de Bragança, a mana Chica, como sempre lhe chamou o irmão Pedro, que tinha por ela uma enorme paixão, encantou a corte francesa com a sua graça e cultura, morreu nos arredores de Paris, eternamente saudosa das canjas de papagaio que comia em criança.

A forma como o Rio de Janeiro foi arrancado da Mata Atlântica que cobria o litoral brasileiro, e adentrava pelo território até onde a humidade marinha permitia, fez-se de erros consideráveis, sobretudo através da especulação imobiliária das classes privilegiadas, e da ocupação dos morros pelas favelas por parte das classes pobres, e do descaso ecológico com as águas das baías e das lagoas.

O muito que sobrou desta prática predatória, ou somente irresponsável, é suficiente ainda hoje para provocar aquela excitação febril, semelhante à que acometeu Stendhal em Florença, causada pelo excesso de beleza.

Na malha urbana da cidade, ainda se consegue ver registos daquelas três épocas de riqueza, e encontrar construções magníficas desde o século XVII até à atualidade, porque a transferência da capital do país do Rio de Janeiro para Brasília tem pouco mais do que meio século.

Pedras, azulejos, madeiras, mármores, tintas e ferros, derrubaram a natureza o suficiente apenas para colocar em seu lugar construções belíssimas, e a maior parte destas ainda deixou essa natureza nos jardins, ou murada, em pátios interiores.

O Rio de Janeiro foi subtraído rua a rua, praça a praça, jardim a jardim, ao Éden, e isso ainda hoje pode ser observado nas árvores da cidade. Tantas e tão extraordinárias, que dificultam a sua perceção numa primeira aproximação com a cidade.

Não se trata, não, da vegetação que cobre os morros que circundam a cidade, mas sim das árvores que ocupam, preenchem, extravasam os passeios que marginam as ruas, sejam as antigas da zona norte, ofuscadas pela decadência urbana desta zona, sujas como a paisagem circundante, sejam as verdejantes, de troncos nodosos e folhas cerosas, de onde pendem uma miríade de apêndices vegetais, e que constituem túneis de sombra, que na zona sul, unem em muitas ruas de Copacabana, Ipanema e Leblon, os morros com o mar.

Ciclos de sol e chuva, debaixo de uma temperatura sempre alta, alimentam este pathos clorofílico, reforçado pelo carinho com que os moradores das ruas tratam os seus antepassados pré colombianos (mais propriamente, pré cabralinos),ou as tenras árvores que a autarquia ou a comunidade continua a plantar.

Este gesto, continua a repetir nos dias de hoje, aquele extraordinário de D. João VI, um governante tão injustiçado pela nossa história, de mandar plantar o Jardim Botânico, por decreto de treze de Junho de 1808, onde nos seus cerca de 55 hectares podem ser observadas mais de 6 500 espécies, para além claro da sombra tutelar do Maestro António Carlos Jobim, a flanar no meio daquela orgia de natureza, ou como a iniciativa do seu neto, o Imperador D. Pedro II, de mandar reflorestar a Floresta da Tijuca, em 1862, e que àquela época era um território ameaçado pela extração de madeira, e desflorestação para plantio de café. A reflorestação foi feita com mais de 100 000 mudas, a maioria da Mata Atlântica, e que com os seus 3 200 hectares, constitui hoje a maior área verde urbana do globo.

E esta atividade prodigiosa de plantar árvores num espaço pejado de árvores, vem até à atualidade, com os extraordinários jardins de Burle Marx, no Aterro do Flamengo.

Parece assim, que se por um qualquer cataclismo, aquela terra fosse novamente despovoada, não seria particularmente complicado à Mata Atlântica voltar a ocupar plenamente o seu território primitivo.

João VI é considerado (talvez não muito corretamente) como o nosso último monarca absolutista.

Mas na América teve suficiente tempo para contactar com a realidade dos territórios hispânicos vizinhos do Brasil, e com o surto de independência que grassou nos mesmos, transformando um após outro, nas repúblicas, que apesar das diversas metamorfoses sofridas, chegaram aos nossos dias.

Paradoxalmente, o governante que tinha transferido a capital do país para o outro lado do Atlântico, para salvar a independência de Portugal das hordas napoleónicas, via-se agora rodeado dos ideais liberais americanos, filhos dilectos da revolução francesa.

Não são poucos os historiadores que admitem que o monarca absolutista que embarcou para o Brasil no final de 1807, regressou quase liberal em 1821, resultado da sua passagem pelos trópicos, e que inclusivamente, face ao movimente independentista sul americano, pressentindo a inevitabilidade de que o mesmo se propagasse ao Brasil, teria incentivado o filho Pedro a gerir qualquer atitude de secessão, permitindo desta forma uma afinidade entre os dois países, o que seria mais complicado se o movimento fosse liderado por um qualquer aventureiro lusófobo.

Foi o que na realidade acabou por acontecer, culminando no episódio de Pedro ter sido o quarto de Portugal e primeiro do Brasil, e desta forma a última monarquia portuguesa que se inicia nos trópicos do Rio de Janeiro, vai ser liberal, algo de estranho no seio das restantes governações europeias contemporâneas, fortemente comprometidas com o padrão absolutista saído da Conferência de Viena, depois musculado nos imperialismos que iriam conduzir a Europa, e o Mundo, à grande guerra de 1914-18.

A dinastia dos cariocas foi tragicamente interrompida com as balas que assassinaram D. Carlos no Terreiro do Paço, numa altura em que o Brasil era já uma república.

Sob governos republicanos, os dois países, mergulharam acertadamente nos interesses das suas áreas geográficas respetivas, privilegiando as relações de vizinhança inevitáveis, o Brasil nas Américas e Portugal na Europa, folgando os cabos de amarração atlânticos, mas sem nunca provocar derivas, conforme se pode constatar no recente memorandum de entendimento celebrado em 30 de Novembro último, entre as Armadas dos dois países, com vista a incrementar a segurança marítima, tanto civil como militar.

Os dois vivem momentos diferentes. Portugal na crista de uma onda de otimismo e recuperação, e o Brasil mergulhado numa crise, mas da qual irá sair de certeza absoluta, para emergir para as águas bonançosas das nações primeiras.

E para mim, persiste a presença benfazeja dos cariocas.

Diversas pinturas, e sobretudo fotografias, da Senhora D. Maria II, revelam uma veneranda matrona, roliça à beça, na linguagem crua e maviosa da terra, mas nunca deixo de pensar, respeitosa e simultaneamente carinhosamente, na nossa rainha, que não a veja solta em Ipanema, onde aliás este trabalho foi escrito.



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