Atravessar o deserto de navio
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A dezassete de Novembro de mil oitocentos e sessenta e nove, Eça de Queirós apontou no seu caderninho de notas, com a sua letra inclinada, ágil e nervosa, tudo aquilo que observou no dia da inauguração do Canal do Suez.

Não muito mais tarde, em 18 de Janeiro do ano seguinte, estas notas viriam a público na edição desse dia do Diário de Notícias, e desta forma:

Mas naquele dia 17, da inauguração, Port Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos urras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheias de flâmulas, de arcos, de  flores, de música, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspeto da vida. A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas.

A crónica prossegue por mais umas tantas linhas, na prosa admirável do escritor, e prosseguiria nas edições diárias do jornal, dos três dias seguintes, ou seja entre 18 e 21 de Janeiro de 1870.

De comboio.

Os caminhos de ferro egípcios não têm uma velocidade fixa. Vão aos caprichos do maquinista, que, de vez em quando, pára a máquina, desce, acende o cachimbo, ri com algum velho conhecimento de estrada, sorve minuciosamente o seu café, torna a subir bocejando, e faz partir distraidamente o comboio.

E de barco.

O embarque fez-se com a confusão habitual, complicada com os embaraços de um mar agitado: os barcos iam cheios de gente, uns de pé, outros sentados na borda, roçando pela água, outros gravemente equilibrados sobre  a acumulação pitoresca de bagagens.

Ao contrário daquilo que por vezes se afirma, Eça de Queirós não empreendeu  a viagem à Palestina, Egipto e Síria, entre meados de Outubro de 1869 e os primeiros dias de Janeiro de 1870, a expensas do Diário de Notícias, ou sequer com a incumbência de escrever reportagens para o jornal, sobre a exótica viagem, e sobretudo sobre a aguardada inauguração do Canal do Suez.

Eça fez a viagem apenas por seu próprio desejo e iniciativa, na companhia de Luís de Resende, filho dos Condes de Resende, e seu futuro cunhado, e  somente no regresso é que Eduardo Coelho, o fundador e proprietário do Jornal de Notícias, seu grande amigo, lhe fez o convite para as quatro reportagens saídas no princípio de 1870, o ano da famosíssima geração.

Daquela viagem, Eça de Queirós trouxe um baú a abarrotar de caderninhos de apontamentos, muitos ainda com grãos de areia entre as páginas, que deixou em grande parte para os os filhos, e os amigos escritores, próximos,  decifrarem, e publicarem postumamente em escritos dispersos, sempre para grande felicidade nossa.

O mais importante trouxe na memória, e foi com este material, que quase vinte anos mais tarde, em 1887, construiu essa relíquia da humanidade que é A relíquia, que Harold Bloom, um dos mais respeitados críticos literários da atualidade, classifica como um dos cem melhores livros de sempre da literatura universal.

 O canal, cuja inauguração o nosso escritor assistiu, consistia essencialmente numa ranhura no deserto suficiente para deixar passar navios, com cerca de  165 quilómetros de comprimento, 50 metros de largura, e 8 de profundidade, a unir as cidades de Port Said no Mediterrâneo e Suez no Mar Vermelho,  e perdurou durante anos, até uma reforma em 1963, e às grandes obras de 2015, que o alteraram significativamente.

Contra o projeto levantaram-se mais vozes do que a areia dos areais das imediações da obra. E literalmente. Uma das críticas era que os ventos do deserto iam cobrir a obra rapidamente, inutilizando-a e tapando-a. Como a melhor resposta a uma tolice é outra tolice, os defensores do projeto argumentaram. As pirâmides também estava ali há séculos  e os ventos arenosos, não as conseguiam cobrir. Nem mais!

A obra demorou uns exatos dez anos, entre 25 de Abril de 1859 e o nosso dia da inauguração.

Curiosamente, o seu capital mais importante, e  fundamental na mobilização e contratação dos milhares de braços necessários, acabaria por ser a água.

A água, potável ou não, era guardada nos palácios como tesouros, e se até os ricos bebiam água salobra, o povo, disputava-a, barrenta e inquinada, com os camelos que se preparavam para atravessar o deserto em caravanas.

Ferdinand de Lesseps, o arquiteto e obreiro do canal, tinha um problema por resolver  com a água, como teria mais tarde na catástrofe do Panamá. Só que os dois de sinal contrário. Na América Central, não sabia o que fazer com tanta água, que caía constantemente na forma de chuva, e que trasvazando dos lagos, lhe devorava a geometria da obra, diluindo-a em lama. No médio oriente, havia anciãos que se lembravam do dia em que tinha  chovido, o que fazia com que muitos, a acreditar em relatos fidedignos, se aterrorizassem perante a primeira árvore que viam na sua vida já adulta.

Sem água, Lesseps, tinha que a ir buscar a qualquer lado, se queria ter trabalhadores. A solução foi ir buscá-la ao Nilo, e transportá-la para o deserto  e para a obra, por meio de outro canal que corria paralelo ao avanço dos trabalhos, permitindo não só matar a sede, como irrigar pequenos oásis, onde floresceram hortas e pomares, de enorme utilidade para a alimentação e o conforto dos acampamentos.

A imprensa da época, destaca a grande simpatia que a obra do Canal do  Suez granjeou no Egipto, em virtude do outro canal, que possibilitou levar água ao deserto.

A arquitetura da obra não foi particularmente complexa, sobretudo se comparada com a da política necessária à sua realização.

Esta política desenrolou-se entre dois  principais cenários: os corredores governamentais e os gabinetes das administrações das grandes casas bancárias, em Paris, e os desertos; os palácios, decrépitos ou luxuriantes, dos paxás, e as tendas dos xeques tribais, por onde havia que passar as gruas e outros equipamentos.

Os governos na Europa, tinham que lidar com o estranhíssimo e periclitante equilíbrio de poderes, herdado do Congresso de Viena de 1814, e que ia ter a sua primeira grande crise logo em 1870 e 1871, com o conflito entre a França e a Prússia, e a fundação da Alemanha, prelúdio do conflito europeu e mundial de 14-18.

Era necessário colocar as chancelarias todas de acordo com a abertura do canal, ou pelo menos não colocar nenhuma (das que jogavam o grande jogo, claro) contra. E isso foi bastante problemático com a Inglaterra.

E no oriente próximo, era preciso distribuir equitativamente as proteções coloniais e os subornos, entre uma miríade de governantes, mais ao menos egípcios, de onde emergiam os paxás, que podiam ser esclarecidos, oriundos das universidades e boulevards de Paris, ou despóticos, dos confins das satrapias asiáticas, uns e outros com uma sede insaciável em fundar cidades que perpetuassem os seus nomes naquele reino de areia. Said Paxá, Port Said, Abas Paxá, Abasíade, Ismail Paxá, Ismailia.

Vegetavam à luz do império otomano, mas onde as políticas imperiais europeias, semeavam de sombras comprometidas os seus domínios, possibilitada pelo descaso e ocaso, da Sublime Porta de Istambul.

Não são poucos os que defendem que cada metro de avanço do canal, custou muito mais em autorizações aos diversos pressupostos senhores do terreno, do que em empreitada, somados a mão de obra e os equipamentos.

A propriedade do mesmo metro de terreno, foi reivindicada  por mais do que um suposto  xeque proprietário, e foi necessário agradar a todos.

Esta prática foi continuada ali, algum depois da abertura do canal, e teve o seu ápice, quando os ingleses em 1917, através da Declaração Balfour, há  exatamente cem anos, decidiram dar a mesma terra aos judeus e aos árabes, originando um conflito, de que ainda ontem assisti a episódios em direto, no telejornal da noite.

A Inglaterra estava dividida entre as suas duas marinhas. Enquanto a marinha mercante ficou entusiasmada com uma passagem que lhe encurtava a viagem para a Índia em cerca de sete mil quilómetros, a Armada,  via nisto mesmo um perigo relevante, precisamente porque facilitava o acesso à Índia, tornando-a vulnerável ao assedio de outros.

Os britânicos  acompanharam sempre tudo com a necessária atenção, desde as reuniões na Europa até ao quotidiano da empreitada no deserto. Ficaram atentos à composição acionista do capital investido, que repartiu a propriedade do canal entre o Egipto e a França, onde num total de 384 000 ações, a França possuía cerca de 55%, e permaneceram desconfiados e descontentes, até conseguir em 1875, por intermédio do Primeiro Ministro Benjamin Disraeli, o inventor do imperialismo britânico, adquirir o capital egípcio, torrado pelo paxás nos casinos europeus, trocando-o por fichas de roleta, ou como recompensa pelo incómodos da Inglaterra em começar a preparar-se para ocupar o Egipto, como aconteceria  em 1882, estacionando o corpo expedicionário britânico em posições estratégicas, naturalmente, ao longo das margens do canal.

Nos anos seguintes, o canal conservou formalmente o estatuto de neutralidade, por forma a estar ao serviço de qualquer nação que dele precisasse, mas este estatuto seria bastante tutelado pelos ingleses, os quais  estabeleceram os seus critérios de neutralidade.

Mas não foi apenas Eça de Queirós a assinalar no seu diário, a abertura do Canal do Suez.

A tia de uma tia da minha tia, na pacatez das faldas beirãs, na entrada de 17 de Novembro de 1869 do seu diário, registava a sua maravilhosa perplexidade:

E imaginar que o Mediterrâneo não se escoou todo por ali.



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