Num relatório anual sobre o transporte marítimo, a UNCTAD reconhece riscos na formação de alianças e fusões entre as grandes empresas do sector e também incertezas no comércio marítimo global
MPC Container Ships
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A formação de alianças entre as empresas de transporte marítimo, num fenómeno denominado consolidação, permanece inabalável, criando uma dinâmica complexa com os portos, que por esse motivo enfrentam desafios infra-estruturais importantes, refere o mais recente Relatório de Transporte Marítimo (Review of Maritime Transport 2018)  da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (United Nations Conference on Trade and Development, ou UNCTAD).

Segundo o relatório, em Junho deste ano, as 10 principais empresas de transporte marítimo representavam 70% da capacidade mundial instalada do sector. Em Janeiro, porém, ainda eram 15 as empresas do sector que representavam 70,3% dessa capacidade. O documento conclui que este reforço da consolidação tem vindo a conferir às empresas uma crescente capacidade negocial, que se reflecte na sua relação com os portos.

Além da relação com os portos, a UNCTAD considera também que esta consolidação no sector, reforçando o poder das empresas no mercado, pode gerar diminuição de fornecimentos e da qualidade dos serviços e preços mais altos. Nalguns casos, admite o relatório, tais efeitos já se fazem sentir. E dá o exemplo da diminuição do número de operadores em Estados insulares em desenvolvimento e em países estruturalmente fracos em desenvolvimento, onde isso se nota desde 2017.

“Existe uma necessidade de analisar as implicações das fusões e alianças e da integração vertical na indústria, bem como de avaliar quaisquer potenciais efeitos negativos”, refere Shamika N. Sirimanne, Director da Divisão de Tecnologia e Logística da UNCTAD, acrescentando que “isso exigirá o compromisso de todas as partes relevantes, como as autoridades de concorrência, empresas de transporte contentorizado, carregadores e portos”.

“O aumento da dimensão dos navios e o surgimento de mega-alianças aumentaram as exigências de adaptação dos portos; enquanto as empresas de transporte marítimo parecem ter beneficiado de ganhos de eficiência resultantes da consolidação e da reestruturação das alianças, os portos não conheceram benefícios ao mesmo ritmo”, refere o documento. Ritmos diferentes que podem agravar a relação entre empresas e portos porque muitas vezes as primeiras estão envolvidas nas operações portuárias, com reflexo nos regimes e prazos das concessões dos terminais.

Apesar deste receio, a UNCTAD admite que o volume global de tráfego de carga movimentada nos portos cresceu depressa em 2017, depois de dois anos de fraco desempenho. O relatório estima que 732 milhões de TEU tenham sido movimentadas em 2017 e que a perspectiva permanece positiva, assente no crescimento económico esperado e nos planos de desenvolvimento infra-estrutural dos portos.

Os dados recolhidos pela UNCTAD revelam que em 2017 o movimento global de carga atingiu 10,7 mil milhões de toneladas, o que representou o mais rápido crescimento do comércio marítimo dos últimos cinco anos (+4%). E em quase todos os segmentos de carga: +6,4% em carga contentorizada, +5,1% nos principais granéis sólidos e +3,9% nos produtos petrolíferos refinados e no gás. Já os carregamentos de crude terão crescido 2,4%, uma evolução menor do que em 2016, que foi de 4%.

A expectativa de crescimento económico, porém, não está isenta de riscos geradores de incerteza, que a UNCTAD identifica: a tensão comercial entre os Estados Unidos e a China, a transição energética global em curso, as mudanças económicas em economias como a China, e nos padrões das cadeias de valor em todo o mundo.

Se usadas correctamente, algumas das tendências que se verificam, como a digitalização, o comércio electrónico e a iniciativa chinesa Uma Faixa, Uma Rota (One Belt, One Road), cujos impactos ainda se desconhecem, poderão induzir um crescimento no comércio marítimo global, considera a UNCTAD. Que menciona sete grandes tendências neste sector: proteccionismo, digitalização, excesso de capacidade instalada, escala, alterações climáticas, consolidação e relacionamento entre portos e empresas de transporte marítimo.



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