No final do ano de 1949, o Reid’s Palace Hotel no Funchal, deu por concluídas as obras de restauro e manutenção que tinha empreendido não muito tempo antes.
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Com um cunho e uma clientela fortemente britânicos, decidiu convidar para abrilhantar a rentrée, o inglês vivo mais famoso do mundo: nada mais, nada menos do que Winston Churchill.

Este, como era sobejamente conhecido, nunca tinha tido qualquer problema em passar uns dias bem passados, à custa dos diversos admiradores que muito justamente tinha feito em quase todo o mundo.

Churchill e a sua mulher Clementine, chegaram à Madeira no primeiro dia do ano de 1950, no navio Durban Castle, acompanhados como era habitual de uma extensa comitiva, de que fazia parte uma filha, médicos, secretários e secretárias, os mais importantes dos quais, aqueles a quem ditava tudo o que depois aparecia escrito com o seu nome.

Por exemplo os diversos epigramas que espalhou deliciosamente pela história, contemporânea e universal, as frases de efeito, ou sobretudo as obras magistrais, como a História da Segunda Guerra Mundial.

Naquela altura Churchill liderava a oposição conservadora ao governo trabalhista de Clement Atlee, depois de ter perdido o poder em Julho de 1945, numas eleições com um resultado muito mais surpreendente do que o do recente Brexit.

As eleições de 1945 tinham sido disputadas em torno de duas questões fraturantes para a sociedade inglesa, uma interna e outra externa.

Ao nível interno, a existência (ou não) de um serviço nacional de saúde, e a nível externo, a independência da Índia.

Ir ao médico e não pagar, era qualquer coisa que uns tantos anos antes não teria cabimento, nem na mais delirante ficção de H.G. Wells, mas que a onda de movimentos socialistas, sociais democratas e democratas cristãos, de uma Europa unida na paz e na solidariedade, iriam promover, começando logo ali, pela velha Inglaterra, onde se realizaram as primeiras eleições europeias do pós-guerra.

A independência da Índia, era à boa maneira inglesa, uma coisa que estava pensada desde o primeiro dia que os britânicos puseram o pé (a bota !) no sub-continente.

O colonialismo possuía o seu direito alicerçado na força. E em Inglaterra, a política externa, onde se incluía a colonial, era um assunto menos do Foreign Office, do que da Royal Navy.

Mas aquela força tinha claudicado. E precisamente no pior sítio, quando em Singapura, quase paredes meias com a Índia, o exército inglês tinha sido varrido pelos quase colies dos japoneses.

O indian affair, deixava de ser um assunto dos militares e passava para os finórios dos diplomatas do gabinete colonial, e este hipocritamente continuou  a bater na mesma tecla.

Abandonavam a Índia, eles mais do que ninguém queriam finalmente poder regressar aos verdes e ao nevoeiro da Old Albion, iam-se embora no primeiro P&O, but unfortunately, não o podiam fazer porque como todos bem o sabiam, ali à mesa das negociações, naquela altura, quando acontecesse, indianos e muçulmanos iam exterminar-se mutuamente. O dever era ficar!

Este discurso estafado, que contudo tinha algo de verdadeiro, alterou-se abruptamente no final da guerra, quando hindus e muçulmanos finalmente se colocaram de acordo quanto à forma de resolverem os seus problemas numa Índia independente.

Foi isto que pressentiu o líder dos trabalhistas, Clement Attlee, até à altura colega do primeiro ministro Winston Churchill no Gabinete de Guerra.

Com base na promessa da independência da Índia, ou seja, de que os rapazes regressados da frente não iriam partir para outra guerra, e na criação do serviço nacional de saúde, e em erros conservadores, como as calúnias lançadas sobre os socialistas, de que seriam idênticos à Gestapo, levou os trabalhistas ao poder. Coisa que se podia pensar vagamente; apeando Churchill, coisa que ninguém pensava ser possível, muito menos ele, o Major Attlee.

A competência de Clement Attlee variava rigorosamente na proporção inversa do seu carisma. A um dos políticos mais competentes que o século XX conheceu, nas palavras dos próprios opositores, correspondia uma completa ausência de charme, que não fosse o seu sorriso franco e bondoso.

Trabalhista, com profundos princípios socialistas, tinha sido de uma lealdade irrepreensível ao conservador Churchill, no grupo muito restrito de homens que compuseram o Gabinete de Guerra que tinha conduzido a Grã-Bretanha à vitória, constituindo com a sua tranquilidade e conhecimento profundo dos assuntos, um conta-peso indispensável à truculência emotiva do líder do gabinete e primeiro-ministro.

Churchill retribuiu toda aquela dedicação frutuosa, chamando a Attlee, A sheep in sheep’s clothing. Um cordeiro com pele de cordeiro.

E estava em Potsdam, como primeiro-ministro, a desenhar com os aliados o mundo, sobretudo a Europa do futuro, quando lhe vieram dizer que o atordoado Clement Attlee, já vinha a caminho para o substituir, porque tinha acabado de ganhar as eleições.

Entre as duas guerras Churchill tinha, como tantos, criticado os termos do Tratado de Versalhes, que destruiu a economia da Alemanha, e colocou o seu povo à mercê de radicalismos políticos, e depois, como raros, a política de apaziguamento com os nazis seguido pelos governos das democracias, com destaque para o governo britânico, responsável pelo encorajamento de Hitler na sua violência interna anti-semita, e na ocupação da Renânia, anexação da Áustria e invasão da Checoslováquia.

Quando o chefe do seu governo, Neville Chamberlain, em Setembro de 38, regressou da ignomínia de Munique, com a paz a qualquer custo, ludibriado pelos alemães, e com um minúsculo papel onde estes prometiam a paz eterna, não hesitou:

Entre a guerra ou a desonra, escolhes-te a desonra. Agora, vais ter a guerra e a desonra.

Tiradas destas, e práticas consentâneas, permitiam-lhe explicar a quem estivesse disposto a ouvi-lo, e nunca faltou gente para isto, o funcionamento de uma sessão em Westminster, e a disposição dos lugares, frente a frente, olhos nos olhos.

Ali, e apontava para o lugar da oposição, sentam-se os meus adversários, e aqui, apontando para a bancada do seu partido, os meus inimigos.

Mas também o levaram à chefia do governo inglês, quando o parlamento retirou a confiança a Chamberlain, onde foi decisivo para derrotar os ainda conciliadores recalcitrantes, como Lord Halifax, que ainda achavam possível um compromisso com o tigre, quando já tinham a cabeça dentro da sua boca.

Depois conduziu a guerra durante um longo período sozinho, convocando com os seus discursos no parlamento, e escutados na rádio, os ingleses a baterem-se no mar, em terra, no ar (nunca tantos…), e claro nas praias. Para isto, já tinham tomado o jeito em Dunquerque.

Foi obrigado a fazer as pazes e a aliar-se com o marxismo, o seu velho inimigo, e na sua pior versão, a do camarada José Estaline.

E teve uma sintonia total com o presidente Franklin Roosevelt, unidos pela língua, a democracia, e a paixão pela marinha.

Instigou os seus colegas aliados a refletirem no formato futuro do mundo, mas só depois de estar seguro de que ia haver alguma coisa que ia sobrar da carnificina.

Primeiro apenas com os norte-americanos na Terra Nova, quando conceberam em conjunto a Carta do Atlântico, autêntica certidão de óbito do império britânico, assinada a troco da salvação da Ilha, depois em Casablanca, e sobretudo em Ialta.

Em Potdsdam, com a paz vitoriosa à vista, vieram comunicar-lhe que já não era necessário, porque o povo inglês prescindia dele em favor de outro.

As duas guerras, que Winston Churchill tinha ajudado a vencer, sobretudo a segunda, acabaram de forma desastrosa para ele.

No final da primeira, em 1918, Churchill temia ser visto em público, tamanha era a animosidade contra si, responsabilizando-o, com alguma dose de justiça, pelo terrível episódio da tentativa de desembarque de uma força aliada em Galípoli, nos Dardanelos turcos, entre Abril de 1915 e Janeiro de 1916, com o objetivo de desviar para aí as atenções otomanas e alemãs.

Churchill, na altura em que se confirmou a extensão da derrota, e os pormenores, ainda tentou salvar a honra, ingressando como oficial num regimento, colocado em França, numa das piores frentes da batalha.

Na sua passagem pelos governos liberais, a meio dos anos dez do século XX, Churchill tinha mesmo trabalhado em prol de políticas assistencialistas, que ajudassem a esbater os efeitos da terrível desigualdade social que grassava no povo inglês, mas quanto à Índia, o seu entendimento ia pouco além das cargas de cavalaria e dos corredores do palácio dos vices-reis.

Chamou sempre a Gandhi, o faquir semi-nú, e se fosse necessário uma prova do sucesso da resistência passiva deste, e da sua mensagem, como forma de luta, bastava o fracasso de Churchill na sua compreensão e combate. E contudo, respeitava, e percebia muitíssimo bem, a luta armada dos irlandeses pela sua independência.

Uma das personagens mais filmada e fotografada do século XX, em algumas imagens Churchill aparece vestido com os célebres macacões, desenhados por si, misto de fato-macaco e pijama, e como se isto não bastasse, alguns podiam ser vermelho vivo, e como se não bastasse, alguns, de veludo.

Churchill esparramava dentro deles o corpo roliço, e acreditava que daquela maneira, ficava tão apto a receber embaixadores como a assentar tijolos.

Aliás, orgulhou-se sempre de estar inscrito na associação inglesa de pedreiros, e esta retribuiu com o orgulho de ser a única congénere no mundo,

que tinha um pedreiro que assentava tijolos a fumar charuto.

Um dos embaixadores que foi recebido naqueles modos, foi o nosso Armindo Monteiro, representante de governo português em Londres, em plena guerra, anglófilo radical, com veneração por Churchill (talvez ainda mais, pelo seu ministro dos negócios estrangeiros, Anthony Eden), recebido em 12 de Novembro de 1942, no nº 10 de Downing Street, e que não escondeu a sua perplexidade:

Confesso que a situação ao mesmo tempo me diverte infinitamente e me constrange. Aqui estou, de fraque e colarinhos empertigados entre as paredes mais cheias de segredos da Europa, na minha frente está o homem que concentra em si as esperanças de meia humanidade…e, miséria das coisas humanas, entre tão altas tradições e tão altas responsabilidades, esse homem não encontra para vestir senão um fato de ópera cómica!.

Frente a frente, na mítica mesa do conselho de ministros, o nosso embaixador não regista isto, mas deve ter tomado a temperatura ao tampo, em busca de um pouco de calor que revelasse que o seu anfitrião tinha interrompido uma soneca para o receber, depois de mais uma noite de trabalho a acompanhar na sala dos mapas a progressão de um comboio no Atlântico Norte.

Na Madeira, Churchill, fumou metros de charutos e bebeu litros de uísque, e sobretudo pintou.

Aparece numa fotografia famosa, de cavalete, pincel e charuto, em Câmara de Lobos, a um punhado de quilómetros do Funchal.

E preparava-se para ficar deliciosamente na ilha até dia 16, quando as notícias de Londres, informaram que uma crise política, atirava a Inglaterra para eleições antecipadas ainda naquele ano.

Assim, a 12 de Janeiro de 1950, um hidroavião da Aquila Airways, que operava na linha regular Southampton – Lisboa – Madeira, descolava da baía do Funchal, com Winston Churchill a bordo.

O Leão voltava a casa.

Voava uma vez mais para a glória. Nas eleições de Fevereiro daquele ano, os conservadores iam reduzir substancialmente a diferença para os trabalhistas de Clement Attlee, e finalmente em Outubro de 1951, os conservadores, com uma percentagem ligeiramente inferior à dos trabalhistas, mas com mais lugares no parlamento, faziam Churchill chegar pela primeira vez ao nº 10 de Downing Street através de eleições, coroando uma carreira política de mais de meio século, iniciada com o ingresso no parlamento em 1900, numa altura em que o mundo era a Europa, e o parlamento britânico era o quarto pilar do equilíbrio civilizacional, juntamente com a cúria romana, o exército alemão e a Sorbonne francesa.

O século XX ficou impregnado do personagem Churchill; muito mais para Charles Dickens do que para Shakespeare. Imperialista puro, criticou a severidade da intervenção de Lord Kitchener nos arredores de Cartum; conservador, os operários nas reuniões, disputavam o privilégio de lhe acender os charutos.

À medida que o hidroavião subia, e que era cada vez mais avião e menos barco, Churchill não podia deixar de pensar na frase que entre todas as que o ajudaram a ser uma lenda, era a mais verdadeira, e que definia e resumia todas as outras.

A História vai ser boa para mim, até porque vou ser eu a escrevê-la.

E escreveu-a tão bem, que em 1953 ganhou o Prémio Nobel da literatura.



3 comentários em “Um Leão na Madeira”

  1. Óscar Mota diz:

    Artigo brilhante em absoluto. Com um invólucro modesto.

  2. Óscar Mota diz:

    Pretendi escrever um comentário com um elogio mais que merecido. Solicitações ulteriores ultrapassam-me. Desculpem

  3. Artur Manuel Pires diz:

    Caro Óscar Mota, muito obrigado pelas suas palavras. Saber que alguém leu o que escrevemos é muito gratificante, apenas superado pelo conhecimento de que para além disso, gostaram daquilo que escrevemos.
    Afinal, mesmo que alguém diga o contrário, não escrevemos com outra finalidade.

    O meu profundo agradecimento, uma vez mais, extensível ao Jornal da Economia do Mar, que proporcionou tudo.

    Artur Manuel Pires

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