Mais do que o desequilíbrio actual entre a oferta e a procura, a transformação dos padrões de consumo não deixarão ter graves, sérias e profundas consequências para o mercado do transporte marítimo, a viver já extensa e profunda turbulência.

A turbulência que está afectar os diversos sectores do transporte marítimo não se deve só ao excesso de capacidade de novos navios que tem pressionado a queda do preço do frete. Corrigir a volatilidade aumentando o número de abates e diminuindo o número de encomendas para restabelecer o equilíbrio entre oferta e procura não é suficiente. A transformação dos padrões de consumo que a quarta revolução industrial está a gerar põe em risco muitos sectores tradicionais da nossa economia inclusive o transporte marítimo, obrigando a adaptação à nova realidade. Novas tecnologias como a inteligência artificial, robótica, carros sem condutores, genética, internet das coisas, cloud, big data, energias renováveis, impressores 3D, armazenamento energético estão em conjunto a gerar um novo modelo de negócio que transforma a forma como vivemos e trabalhamos. O sucesso de plataformas como a Uber e Airbnb revelam como a agregação de dados e a sua utilização apropriada gera valor e põe em risco os sectores tradicionais. Na revolução precedente temeu-se que a contentorização poderia sofrer um decréscimo do volume com o surgimento do consumo de e-books, Spotify e tantos outros serviços digitais que substituíram produtos físicos, mas o que se verificou a partir de 1990 foi um aumento do tráfego marítimo de mercadorias que cresceu sete vezes mais. A industrialização da China que se transformou na maior fábrica do mundo em apenas três décadas foi um factor determinante para o enorme crescimento do transporte marítimo e foi suficiente para compensar a perda de volume pelo o aparecimento dos serviços digitais. Petroleiros, graneleiros e porta contentores abasteciam o país com matérias-primas, peças e componentes e em seguida distribuíam os produtos acabados dessa gigantesca fábrica para todo o mundo. Contudo a industrialização da China que tirou cerca de 500 milhões da miséria só foi possível pela conjugação de dois factores: uma mão de obra barata e abundante e por um Ocidente ávido de consumo. Hoje, em cada vez mais domínios, máquinas inteligentes e flexíveis estão a substituir a mão de obra e no Ocidente, uma população cada vez mais envelhecida, está a consumir mais serviços. Vai ser difícil às novas gerações dos países emergentes replicarem este modelo de industrialização porque enfrentam o desafio da inteligência artificial e da robotização.  A actual transição de uma economia industrial para uma economia de serviços na China, sem se vislumbrar outro país ou continente que a substitua, está a afectar drasticamente o transporte marítimo, pois á medida que a quarta revolução industrial evolui, o modelo de produção e consumo está a transformar-se e a ter um impacto no comércio global. Se hoje é difícil prever todo o impacto das impressoras 3D na produção de padrões o certo é que estamos perante uma tendência para uma produção mais regionalizada o que obrigará à redefinição de novas rotas marítimas que tendem a ser mais curtas. Outra inovação que tem tido um enorme progresso – o automóvel sem condutor – poderá em breve ditar um decréscimo substancial das vendas, (a uma família bastará um automóvel), o que afectará bastante o transporte marítimo. Contudo para se perceber a verdadeira disrupção que esta nova revolução está a criar nos hábitos de consumo não basta olhar para o impacto isolado de cada inovação mas é indispensável percepcionar as novas dinâmicas que estão a emergir mundialmente e que são cruciais no transporte marítimo: demografia, energia e urbanização. O défice demográfico e o envelhecimento da população nos países desenvolvidos e na China está a provocar uma alteração nos hábitos de consumo, visto ser uma população que procura agora serviços na área da saúde e do turismo em detrimento dos bens transacionáveis. Na energia o desenvolvimento das renováveis e o progresso de baterias que permitem armazenar a energia produzida pelo vento e sol estão a permitir a redução do consumo de hidrocarbonetos. Na China, a enorme redução na importação de carvão nos últimos três anos, uma das matérias-primas mais transacionadas via graneleiros, fez baixar o preço do frete no sector para níveis inferiores aos anos da crise de 2008.  Por último a crescente urbanização que se verificou no passado e que permitiu o acesso da população a um maior número de bens e produtos beneficiou bastante o transporte marítimo. Responsáveis por 80% do PIB mundial, as cidades são o verdadeiro motor da economia mundial onde se consome mais energia e recursos. Contudo no que respeita ao consumo de recursos o modelo actual está esgotado e torna-se visível a sua insustentabilidade. A escassez de água potável em muitas regiões do mundo é um exemplo da necessidade de mudança. Uma das vantagens da quarta revolução industrial é que está a abrir portas a um modelo mais produtivo e eficiente reduzindo os recursos na produção de bens. Apesar de se esperar que a migração para as cidades continue a crescer, permitindo a uma população cada vez maior aceder a um número mais variado de bens de consumo, a diminuição no consumo de recursos na produção de bens, irá pressionar o transporte marítimo. As consequências de todas estas dinâmicas a par do excesso de capacidade de navios está a colocar o transporte marítimo e os estaleiros navais numa situação muito difícil. O pedido de falência na semana passada da Sul Coreana Hanjin, a sétima a nível mundial em porta contentores e a primeira no país, revela a situação dramática que se vive no sector. Com um preço de frete que não cobre os custos de operação e com uma dívida no curto prazo de 2.7 biliões de dólares para uma liquidez de 205 milhões no final de 2015, é difícil evitar a falência. A situação dramática dos estaleiros navais por falta de encomendas ou o seu adiamento já obrigou em 2015 o governo chinês a encerrar 70 estaleiros com uma capacidade de 10% a nível mundial e até 2017, segundo os analistas, a situação irá piorar ainda mais.

Uma das inovações da terceira revolução industrial foi a possibilidade de armazenagem na Internet de um vasto conjunto de dados por um custo irrisório. Apesar de dispormos de toda essa informação o nosso o modelo de decisão que perdura há décadas e que nos moldou a nossa forma de pensar continuou a basear-se numa análise retrospectiva dos factos. Tipicamente analisa-se em retrospectiva um vasto conjunto de informações afim de se evitar no futuro os erros do passado. A crise de 2008 é um excelente exemplo. Após o desastre, ou seja, retrospectivamente é que se agregou um vasto conjunto de factos que permitiram concluir sobre as causas da crise. Com a explosão recente de dados digitais e o seu armazenamento percebeu-se a vantagem em os utilizar. Algoritmos são concebidos para cruzar milhares de dados com o objectivo de prever as tendências em tempo real nos mais variados sectores da economia. Na quarta revolução industrial o termo «big data», como o nome parece induzir, não se restringe a uma mera aglomeração enorme dados. Em síntese o termo significa a capacidade de processar um conjunto enorme de informações em algo que se aproxima do tempo real permitindo a tomada de decisões de forma mais eficiente em vários domínios inclusive o transporte marítimo e a sua logística. A título de exemplo, no sector agrícola os efeitos de maior eficiência e produtividade começam a ser visíveis numa agricultura que tende para a precisão. Através de sensores que avaliam em tempo real cada metro quadrado de terra, dados como humidade, níveis de nitrogénio, qualidade do ar, doenças… são enviados para a cloud onde se combinam com dados do GPS e modelos de temperatura. Com toda esta informação compilada e avaliada, um serviço de software disponível na cloud pode então gerar instruções precisas ao agricultor do que cada metro quadrado de terra precisa através de um smartphone ou tablet. Em breve os agricultores conduziram tractores que mais parecem cockpits de aviões com informação precisa para cada metro quadrado de terra, evitando o desperdício de água, químicos, sementes que dantes eram espalhados uniformemente por todo o terreno. 

Apesar de todas as transformações nos padrões de consumo muitos armadores ainda se focam no crescimento do PIB mundial e da sua correlação histórica com o crescimento do comércio, embora hoje seja uma evidência que um crescimento do PIB já não é uma garantia de crescimento do comércio. Por outro lado a credibilidade do PIB mundial calculado por instituições como o FMI é hoje posto em causa pelas permanentes correcções. Calculado a partir de dados limitados e históricos está sujeito a erros e não oferece segurança para quem tem de tomar decisões. Beneficiar das tecnologias da quarta revolução para alterar o modelo de decisão deve ser o caminho dos armadores. 



Um comentário em “A turbulência nos transportes marítimos”

  1. António Mesquita Cruz diz:

    É cada vez mais dificil prever o futuro e por consequência a evolução dos negócios. Melhor será ajustar permanentemente, novas ideias e ter sempre um planeamento flexivel, fazer ajustes com a destruição dos negócios é sempre uma péssima ideia.
    Ter sempre um plano alternativo ou um bom business plan é o melhor instrumento de trabalho.

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