Em meados do século XVIII, parte da literatura inglesa que aborda o assunto Brasil, fala em The Brazils.
Vladimir Yemelyanov

No fundo, encontra-se aqui o pretexto britânico de dividir, separar, desagregar, aquela massa continental imensa, que mesmo estando nas mãos dos seus mais antigos, constantes e fiéis (pelo menos no que toca a Portugal) aliados, não deixa pela sua monumentalidade, de causar perturbações nos jogos estratégicos e diplomáticos, que Londres como capital do mundo, tem que estar permanentemente a jogar.

Trata-se, coisa rara em política, de excesso de estabilidade.

Esta postura inglesa vai atingir mesmo o Brasil recém independente, quando o Foreign Office fez ver a D.Pedro I que a nova aventura brasileira no Sul, com a tentativa de retorno  – mais um – à Colónia  de Sacramento, contrariava o seu apoio ao projeto de tornar aquele território nas proximidades da embocadura do Rio da Prata, liberto dos interesses portugueses ou espanhóis, e brasileiros ou argentinos, e torná-lo igualmente independente com o nome de Uruguai.

Mas os The Brazils, ficavam bem mais ao norte.

A enorme porção territorial que situada entre o que é atualmente a Amazónia e o Rio Grande do Norte, e que durante o período colonial abrangia as terras banhadas pelo Amazonas e o Grão-Pará e Maranhão.

Este último território, teve sempre uma enorme importância e influência na configuração do Brasil, mudando de limites e de designação ao longo dos séculos, com fusões e separações, ao sabor dos interesses instalados em Lisboa, com destaque para Pombal, e no terreno, para o seu irmão, Francisco Xavier de Mendoça Furtado, que no Brasil, entre 1751 e 1759, como governador do recém-criado Estado do Grão-Pará, acabou por menorizar a importância do Maranhão. Terminaria a longa carreira administrativa como Secretário de Estado da Marinha e do Ultramar.

Mas esta aparente separação do Norte com o restante Brasil, não tinha apenas contornos conjunturais, quer fossem políticos, funcionais, militares e económicos, mas igualmente os intemporais e estruturais, impostos pela geografia.

A visualização de um mapa do Atlântico Sul, permite constatar que entre o Seixas e Cabo Branco, na Paraíba, fica o ponto mais ocidental de toda a América, o qual está mais próximo de Dacar, no Senegal e em África, do que de S.Paulo.

E no longuíssimo período da navegação à vela, que chega ao início do século XX, o regime de ventos que impera num e noutro lado daquele cabo, fazia com que uma viagem entre S.Luís do Maranhão e o Rio de Janeiro, fosse mais rápida e fácil, escalando Lisboa.

Mas como sabemos, neste início de 2022, em que se comemoram os duzentos anos da independência do Brasil, felizmente estas particularidades, por muito importantes que tenham sido, não constituíram obstáculo à unidade do território.

Esta, nomeadamente quanto ao que respeita a causas e consequências, tem sido (para meu grande prazer) amplamente estudada, explicada e discutida, sobretudo quando confrontada com o estilhaçar da América espanhola em doze países independentes.

De entre outras coisas, da abordagem ao assunto e da respetiva literatura especializada, destacam-se dois grandes fatores para aquele acontecimento.

A imposição cultural à totalidade dos territórios e a língua comum.

A imposição cultural tem a ver sobretudo com a fragilidade das populações nativas da América do Sul, incapazes de opor verdadeira resistência ao poderio dominador das duas nações ibéricas logo no século XVI, e depois de cooperar – salvo raros contributos isolados – para a identidade cultural das nações coloniais, ao princípio, e independentes mais tarde. E mesmo levando em linha de conta que na América Central, particularmente no México, os espanhóis tiveram que contornar a resistência organizada e feroz de povos bem mais evoluídos do que aqueles que existiam ao Sul. É também por causa disto, que a cultura daquele país é a que ostenta uma matriz índia mais vincada.

Como é sabido, na América do Sul, portugueses e espanhóis, beneficiaram – meramente do ponto de vista político e militar, claro – do escasso contributo das populações autóctones para o estatuto cultural dos territórios, deixando espaço aberto para que os valores culturais típicos dos dois povos ibéricos, fossem transportados, implantados e estendidos aos domínios americanos que couberam a cada um deles.

Sobretudo no que respeita à língua, porventura a mais poderosa ferramenta cultural que existe, igualmente os dois países conseguiram homogeneizar a sua fala e escrita, em todo o território sob sua administração, excetuando particularidades isoladas como o Nheengatu ou Língua Geral, muito incentivado pelos jesuítas, e falado no Brasil até quase ao final do século XIX, e a curiosidade de Bogotá, na Colômbia, se orgulhar de que fala um castelhano mais puro do que aquele que se fala nas seções da Academia em Madrid.

Ora, a presença de uma cultura e língua hegemónica, atuante e fortemente partilhada tanto na América Portuguesa como na Espanhola, acabou paradoxalmente, por unir o Brasil e dividir a restante América do Sul.

Fica a restar então, na essência, a razão política capaz de produzir dois processos históricos tão distintos como são a agregação e a desagregação.

E naturalmente que estamos a desconsiderar por agora, outros fatores importantes, de onde se destaca a presença tutelar na América Espanhola, de uma cordilheira como os Andes, com cerca de oito mil quilómetros de extensão, do Norte ao Sul, e mais de quatro mil metros de altitude média, inibidora de uma vizinhança profícua entre territórios e populações.

De qualquer forma, aí temos até aos nossos dias duas Américas do Sul tão distintas em tanta coisa; um processo que é interessante e importante sob o ponto de vista da diversidade cultural, social e política, mas com incómodos na criação de um projeto e voz comum para todo o continente, e de uma economia, se não unificada, pelo menos integrada, como é bem patente nas agruras que tem sofrido o dossier do MercoSul.

E para satisfação daqueles, como os ingleses no passado recente com os seus The Brazils, e dos que ainda hoje apostam na divisão, para melhor cumprir os seus desígnios na região.

Isto faz-nos recordar a frase saborosíssima de François Mauriac, Prémio Nobel da Literatura em 1952, ao comentar enquanto francês a situação da Alemanha, dividida entre Alemanha Ocidental e Oriental, no rescaldo da segunda guerra mundial.

Gosto tanto da Alemanha, que até estou contente por agora existirem duas.



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