O aumento da temperatura do planeta reflecte-se no Árctico e isso terá impacto na segurança dos Estados Unidos, na salvaguarda das espécies da região, na preservação dos stocks de pesca e nos riscos de agravamento da poluição marinha decorrentes do aumento de exploração de hidrocarbonetos e da actividade de cruzeiros, concluiu um relatório do Congresso dos Estados Unidos
Matt Pine
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Num relatório de Outubro deste ano, coordenado pelo especialista em assuntos navais Ronald O’Rourke, o serviço de pesquisa do Congresso dos Estados Unidos traçou um panorama das principais questões relacionadas com o Árctico que têm manifesto interesse para Washington e podem afectar o país nos próximos anos, refere o Safety4Sea.

O tema assume especial importância não só devido aos efeitos das alterações climáticas naquela região do globo, mas também porque os cinco Estados com costa para o Árctico – Estados Unidos, Canadá, Rússia, Noruega e Dinamarca – apresentaram ou estão em vias de apresentar submissões de pedidos de extensão das suas plataformas continentais (à semelhança do que fez Portugal) junto das Nações Unidas.

A publicação recorda que no caso da Rússia, o pedido inclui a Cordilheira Lomonosov (submarina), que contempla uma distância significativa através do centro do Oceano Árctico. Juntamente com esse factor e a questão climática, o estado das embarcações de navegação no gelo, a importância da pesca (até porque ali existem numerosos stocks comerciais), a alteração das condições de navegação no Árctico ou o impacto de derrames petrolíferos na região, mereceram uma análise entregue aos congressistas.

Segundo a publicação, seis grandes preocupações foram destacadas no relatório. Uma é a referência ao facto de as mudanças no Árctico decorrentes das alterações climáticas, como o aumento de temperatura das águas, facilitará a exploração de petróleo e gás na região.

Outra preocupação decorre também das alterações climáticas e consiste no desafio que consistirá para as explorações onshore (em terra) o efeito do aumento das temperaturas no permafrost (camada de solo da região do Árctico, formado por terra, gelo e rochas congeladas, que chega a atingir 300 metros de profundidade no Inverno e pode diminuir para 0,5 a dois metros no Verão).

A terceira preocupação apresentada aos congressistas é do aumento do risco de poluição marinha resultante do aumento da exploração de petróleo e gás na região, bem como do crescimento da actividade de cruzeiros no Árctico, que também é induzido pela maior possibilidade de navegação ali permitida pelo degelo provocado pelas temperaturas mais elevadas.

O relatório refere também o aumento de dificuldade nas actividades de eventuais derrames petrolíferos em águas cobertas e gelo, decorrente da ausência de estratégias de limpeza desenvolvidas que ainda se verifica, apesar do desenvolvimento tecnológico.

As mudanças em curso no Árctico reflectem-se também em espécies locais protegidas ou em risco de extinção, com eventual migração de peixes para outras águas. O relatório cita, por exemplo, o caso do urso polar, cuja existência esta ameaçada.

Finalmente, o documento refere que dois dos três quebra-gelos polares da Guarda Costeira dos Estados Unidos excederam os 30 anos de serviço previstos e que um deles nem sequer está operacional. Apesar disso, a Guarda Costeira norte-americana já terá iniciado um processo para construção de três novos quebra-gelos polares pesados.

Tudo isto tem implicações no plano da segurança. Diz o relatório que “embora exista uma cooperação internacional significativa em questões árcticas, o Árctico é cadavez mais visto por alguns observadores como uma questão de segurança emergente; alguns dos Estados árcticos costeiros, principalmente a Rússia, anunciaram a intenção de desencadear acções para reforçar a sua presença militar na região; as forças militares dos Estados Unidos, particularmente a Marinha e a Guarda Costeira, começaram a prestar mais atenção à região no seu quadro de planeamento de operações”.



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