Arnout Nuijt Viveu em Portugal durante anos, onde chegou a exercer mesmo a profissão de Jornalista no Público. Hoje é Director da consultora Atlantico Business Development em Roterdão, Holanda, procurando, entre outros aspectos, incentivar os negócios entre ambos os países e com a CPLP. Um olhar neerlandês sobre Portugal.
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O sector marítimo Português reinventou-se nos últimos anos e várias oportunidades interessantes de negócio surgiram no país. Por um lado, o governo Português tem procurado ativamente a promoção do sector e as suas oportunidades no sentido mais amplo (“Economia do Mar”). Por outro lado, o sector portuário e a logística marítima têm vindo a crescer rapidamente devido ao aumento das exportações e importações portuguesas, bem como o transbordo de carga para outros mercados. O Porto de Leixões hoje em dia é um porto Ibérico muito bem gerido e muito eficiente. Sines é o porto que cresce o mais rápido na UE (que já está no Top 20 dos portos Europeus), enquanto Lisboa aposta num novo terminal de contentores no Barreiro.

Portugal, com a sua política da Economia do Mar, fez um excelente trabalho que já recebeu elogías por parte da União Europeia. Outros governos só podem aprender com Portugal neste aspecto. Também a Holanda. Na Holanda existe a mesma amnésia face a historia marítima do proprio país que existia até há pouco tempo em Portugal. A Holanda tem “pouco mar” comparado com Portugal que tem o seu território enorme no Atlântico. Mas mesmo assim a Holanda pode aprender com os Portugueses como voltar à tradição marítima. Por outro lado Portugal pode beneficiar das boas soluções logísticas Holandesas e atrair investimento Holandês para o sector portuário.

As infraestructuras dos portos em Portugal já são boas. Agora o objectivo pode ser a consolidação e expansão do nivel de ligações com o hinterland da Espanha. Pela primeira vez na história de Portugal não é só mau vento ou mau casamento que vem de Espanha. Agora vai e vem carga. E, o que o mais importante, o volume desta carga pode crescer muito mais. A Espanha agora apresenta uma optima oportunidade de negócio para os portos e empresas logísticas de Portugal. E a proximidade imediata de um mercado de 43 milhões de consumidores com uma economia relançada (com uma excelente taxa de crescimento de 3% em 2016) não pode ser ignorada por empresas de transportes e logística Portuguesas e estrangeiras.

Mas uma das coisas que faltam no sector marítimo Portugues é melhorar a integração multimodal de transportes. Como observe a excelente LEME – Barómetro da Economia do Mar 2015 (da consultora PwC), um dos desafios do sector é: “conceber os portos marítimos nacionais como autênticas plataformas logísticas integradas em cadeias logísticas internacionais, maximizando o interface entre autoestradas do mar, rodovia, ferrovia e aeroportos, fazendo com que os transportadores passem a utilizar Portugal como hub (…)”.

Bom, é mesmo neste aspecto estratégico que a experiência dos empresarios de Holanda pode ajudar. Ainda por cima é a hora certa para atrair o sector marítimo Holandês para Portugal. Muitas empresas marítimas de Holanda perderam interesse de investir em Africa, Brasil ou outros paises, mas têm que continuar a investir para crescer e sobreviver. O sector está sempre a procura de novos mercados. Portugal pode oferecer boas oportunidades. Operadores logísticos Holandesas podem instalar-se nos portos Portugueses ou investir em parceiros Portugueses. Portugal também pode aproveitar a experiência Holandesa na estructuração das opções multimodais nos transportes para países vizinhos.

Em termos logísticos os dois paises são complementares e andam pelo mundo sem qualquer competição. O sector de logística marítima da Holanda serve não só a Holanda, mas também grande parte da Alemanha, Inglaterra e outros países no Norte de Europa. Portugal serve Portugal, um pedaço de Espanha e tem ligações priviligeados com os PALOPS. A conjugação de esforços de ambas as partes, neste aspecto, pode ser altamente lucrativa.

Existe mais um USP dos portos Portugueses que pode convencer investidores estrangeiros: a segurança. Olhamos ao Médio Oriente. Várias empresas Holandesas nos últimos anos investiram num porto chamada Sohar, em Omã (outro país com grande história marítima). O novo porto de Sohar fica fora do Estreito de Ormuz, e é um grande suceso em termos de negócios. Um grande medo no Médio Oriente é um conflicto no Golfo Pérsico que vai resultar no bloqueia do Estreito de Ormuz. Mas através do Porto de Sohar, cujo localização fora do Estreito é muita mais segura, a carga vai sempre chegar ao destino por via terrestre.

Por ponto de vista estratégico e geopolítico, os portos Portugueses occupam também uma optima posição. Encontram-se no Altântico perto da porta de entrada do mar Mediterrâneo: o Estreito de Gibraltar. Uma localização que pode ser de grande valor no futuro. A instabilidade está a crescer no mar Mediterrâneo: há ondas de refugiados, há ameaças de terrorismo por todo lado, há terrorismo mesmo na Tunísia, no Egipto, o radicalismo está a surgir na Argélia e nos Maroccos e há guerra civil na Líbia. Enfim, o mar Mediterrâneo já nao e tão seguro como era.

Portugal fica longe destes problemas e os seus portos são seguros, porque são situados no Atlântico. Bem, o Estreito de Gibraltar nao é o Estreito de Ormuz, isto é óbvio. Mas se as coisas vão piorar no mar Mediterrâneo (o risco é claro) os portos no Atlântico podem oferecer ligações seguras para a carga entre as Americas e o mar Mediterrâneo atravès de ligações ferroviárias e auto-estrada através da Peninsula Ibérica.

Há sempre quem diz que investimento estrangeiro é perigoso. Mas os Holandeses não têm agenda geopolítica como outros paises têm. Empresários Holandesas têm idéias próprias e interesses próprios. Vêm fazer negócios. Ponto final. Foi sempre assim. Repare-se, quando no Século XVII Portugal quis reconquistar a parte do Brasil ocupada pelos Holandesas da Companhia das Índias Ocidentais (a WIC), os Portugueses foram comprar navios e canhões em Amesterdão a outros empresários Holandeses ligados ao concorrente da WIC, a VOC (Companhia das Índias Orientais). Para um Holandês tudo é negócio, e não geo-estratégia. E a geo-estratégia dos outros sempre traz negócio.

E os Portugueses, o que podem trazer da Holanda? Empresas exportadores de Portugal podem aproveitar muito mais do excelente sistema logística de Holanda e sobretudo das ligações óptimas com a Alemanha, especialmente com os partes occidentais (os estados de Nord-Rhein Westfalen e Hessen). Muitas empresas do resto do mundo o fazem também, porque não os Portugueses? Podem aproveitar da integração Europeia e exportar mais para Alemanha atravès da Holanda.

Empresas Portuguesas também são bem-vindas a fazer alianças e parcerias com empresas Holandesas para juntos investir nos PALOPS, numa aliança bi-cultural de conhecimento, experiência tecnología e financiamento.

Holanda e Portugal são pequenos países Europeus que sempre têm que reinventar o seu papel e a sua posição no mundo. Precisam de colaboração com outros, mas não precisam de colaboração com países muito maiores e com tendência de domínio. Mas por outro lado nem a Holanda nem Portugal são pequeninos. Ambos tem relações internacionais interesantes e complementares. Portugal tem relações priviligeados com os PALOPS e a Holanda com a Alemanha.

É importante, é decisivo, saber aproveitar as oportunidades e a complementaridade.

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