Constatação Melancólica

A quase total ausência do Mar do discurso político actual é uma simples constatação, algo melancólica, por certo, mas não sem significado nem consequências.

É Portugal uma nação Marítima ou Continental?

A questão assim formulada, de forma simples e evidente, se dirigida a qualquer um dos nossos mais bravos políticos da actualidade, desde um qualquer militante dos mais variados partidos políticos, a deputados ou mesmo governantes, causará mais estranheza do que se interrogados fossem sobre as possibilidades de vida em Marte dada agora a suposta descoberta de água no mítico planeta. E a certeza temos, por «saber de experiência feito», de ouvir alguém logo exclamar logo enervar-se quando ouve falar em mar, em «desígnio nacional» ou em «Portugal, nação marítima» porquanto a sua única e verdadeira preocupação, nesse particular, é apenas o facto da barra lá na terra dele, continuar assoreada sem que alguém resolva definitivamente o problema. Assim um pouco à Goebbels de quem se diz dizer sempre que ouvia falar de cultura só lhe apetecer puxar do revólver.

E no entanto …

E, no entanto, saber se somos e nos queremos afirmar como uma nação marítima ou continental faz toda a diferença.

Jacques Pirenne, para quem os primeiros europeus a chegarem ao Japão terão sido os ingleses, o que, para nós, portugueses, sempre muito arrepia, não deixa de ter uma visão altamente interessante na sua monumental obra, «As Grandes Correntes da História Universal», ao analisar e procurar compreender as várias fases de evolução política e económica dos povos e do mundo de acordo com o seu pendor mais ou menos marítimo ou mais ou menos continental. Duas disposições com consequente atitude e predisposição de acção no e sobre o mundo que marcam de forma decisiva o destino de cada nação ou povo.

Haverá, com certeza, muitas formas de interpretar a História e a evolução do Homem no mundo mas Jacques Pirenne verifica existirem algumas constantes que poderemos expor, em síntese, para o caso das nações marítimas, quanto mais nos importa, assim: tendencialmente mais individualistas, mais abertas, mais tolerantes, mais receptivas, mais descentralizadas, mais relacionais, eminentemente de síntese civilizacional e comerciais. Por oposição, naturalmente, as nações continentais, tendem a ser o inverso.

Independentemente do maior ou menor acerto que possamos atribuir à visão de Jacques Pirenne, o facto é que, indiscutivelmente, muito nos diz também sobre Portugal, nação onde, estranhamente, há a ilusão de uma perfeita união, onde todos, ou quase todos, comungam de uma mesma visão e interpretação da sua História e de uma mesma, ou quase a mesma, visão e interpretação do seu futuro.

E no entanto…

E, no entanto, revendo com alguma atenção a nossa História, logo percebemos também como, afinal, sempre fomos também uma nação dividida, por vezes, mesmo profundamente dividida e que, essa divisão, tem muito a ver exactamente com uma dicotomia marítimo-continental ingénita. Sabemos que a primeira tendência sempre nos conduziu tendencialmente à independência à nossa afirmação no mundo e a segunda ao desastre mas, independentemente também da História, o que agora importa entender é o que tal dicotomia nos pode dizer ou significar nos dias de hoje. E nos dias de hoje, se nos virmos como nação marítima, devemos entender, por exemplo, o nosso primordial interesse, do ponto de vista diplomático e geoestratégico, em privilegiarmos as nossas relações atlânticas, seja no seio da OTAN/NATO seja no domínio da CPLP, quer de um ponto de vista bilateral, com as nações atlânticas, antes de mais, quer no seu todo, bem como com os Estados Unidos da América, uma Noruega e mesmo um Reino Unido e uma Irlanda, como periferia do Norte da Europa, de modo a reforçarmos igualmente a nossa posição atlântica na União Europeia de forma a alterarmos igualmente a visão e respectiva atitude continentalistas de periferia pobre e sem grande interesse para o Grande Centro. Um pouco mais complexo igualmente importante, será conseguirmos, em simultâneo, um renovado entendimento com Espanha, sem subalternização mas também sem jactância nem sobranceria. E de um ponto de vista económico, perceber, seriamente, as potencialidades e a importância decisiva do mar no futuro, delineando um plano ou estratégia de desenvolvimento consequente, com a devida compreensão disso mesmo. Dos portos aos transportes marítimos, da construção, reparação e manutenção naval ao turismo, da biotecnologia à energia, das pescas ao processamento do pescado e à aquacultura, até às questões mais amplas e mais científicas como as relativas ao aquecimento global, ambiente e saúde dos oceanos, há um universo de acções a empreender. E se é também sabido que pouco o Estado poderá directamente fazer, indirectamente, o seu papel é e sempre será determinante.

Mas o que ouvimos discutir?

Economia e pouco mais. Uma Economia descida a quase mera Contabilidade, ainda por cima. Mas se é a Economia que preocupa, então, pelo menos, perceba-se de uma vez por todas também a importância decisiva, mesmo de um ponto de vista somente económico, do mar para Portugal.



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