Freada para arrumação!

Em um país de tantas megalópoles como o Brasil, onde a mobilidade urbana prioritária é realizada pelo modal rodoviário, há um ditado popular que diz que, quando o autocarro está muito cheio próximo à sua porta de entrada e com espaços em outras partes, o condutor procura dar uma freada brusca e forçar a todos a se reacomodarem nos espaços vagos. Assim parece estar acontecendo nos prementes investimentos na área marítima brasileira.

A descoberta do petróleo na camada do pré-sal do litoral brasileiro, na década passada, fez os investimentos no setor marítimo brasileiro se expandirem fortemente com a expectativa de lucros robustos e incremento em toda a cadeia produtiva subjacente. A “entrada de novos e volumosos passageiros no autocarro” alterou o curso normal da travessia. É bem verdade que dois importantes fatores externos ao setor sofreram vieses negativos profundos que ajudaram nesse desbalanceamento. O primeiro é nacional, o principal investidor brasileiro no setor é a PETROBRAS. Uma sequencia de notícias negativas decorrentes de investigações sobre má-gestão da empresa estatal e de operações não tão indicadas do ponto de vista financeiro-tecnológico fez os acionistas se afastarem e reduziu drasticamente o valor da empresa, a ponto de ter que reduzir de forma acentuada seus investimentos. Como exemplo, para o ano de 2016, seu planejamento estratégico previa investimentos da ordem de U$27 bilhões, mas já foi anunciada redução para cerca de U$16 bilhões, dependendo de “parceria internacional ainda a ser buscada”.

No entanto, nem só em novos projetos há redução. Mesmo em projetos já próximos de sua conclusão houve redução. Novos navios sondas encomendados e quase concluídos (mais de 80% de conclusão) tiveram suas prontificações suspensas por tempo indeterminado, em estaleiros nacionais. Essa pequeno exemplo, implicou ao “investidor nacional” (estaleiro Eisa PetroUm) um prejuízo de mais U$ 0,5 bilhão. Os investimentos previstos na construção naval eram previstos em um programa (Promef) que envolvia a construção de mais de 48 embarcações, mas que dependia de forte consistência e longevidade para superar padrões internacionais que eram muito mais rentáveis. Foi exatamente o que não ocorreu e, só nos últimos anos, o setor de construção naval brasileiro já desempregou mais de 20 mil pessoas e não vê perspectivas de retomada em curto prazo.

O segundo fator externo que prejudicou “a boa viagem” decorreu do mercado internacional. Planejamentos feitos considerando o preço do barril de petróleo a U$ 60,00 não são mais viáveis quando o preço do óleo no mercado internacional gira em torno de U$37,00. Até mesmo a viabilidade de extração de petróleo com alto custo de produção, como o do pré-sal, precisa ser revista.

A despeito da intensa “freada” do principal investidor nacional (PETROBRAS), o setor privado ainda tenta ajudar nessa arrancada. Os investimentos no setor portuário só não são maiores porque também o principal investidor é estatal (Companhia Docas) que, ao invés de investir o planejado para os últimos 15 anos (US$ 4 bilhões), somente desembolsou US$ 1 bilhão, no período. Pequenos terminais portuários nacionais privatizados têm investimento muito maior, da ordem de 85% do planejado, apesar das dificuldades mencionadas de avanço do setor.

Mas o setor é bem mais amplo que a dependência do petróleo extraído do mar. O volume de comércio internacional brasileiro, pelo mar, é crescente; logo, a perspectiva é de uma “travessia um pouco turbulenta”, mas cujo destino final, certamente, é recompensador.



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