Não são raros os lugares da Terra onde os horários dos comboios se podem encontrar em livrarias. E geralmente nas estantes da ficção.

É claro que os horários foram feitos para quem lhes liga, mais até do que para aqueles que precisam deles.

Na Índia, por exemplo, quando os ingleses descolonizaram o Sub-Continente em agosto de 1947, deixaram os carris, os comboios e os relógios, mas muita gente ainda hoje acredita que o mais importante levaram com eles, que era o processo dos comboios circularem à hora exata.

O pormenor dos comboios ingleses circularem ao horário, não foi utilizado apenas como instrumento politico, na consolidação do Império Britânico, até onde chegavam os carris, mas contribuiu igualmente de forma muito significativa para desvendar a autoria dos crimes da maior parte dos romances policiais ingleses na segunda e  primeira metades dos séculos XIX e XX, bem mais até do que a tradicional cupidez dos mordomos, sobretudo naqueles em que os personagens vagueiam entre as casas de campo e a cidade, sem mais nada para fazer do que assassinar pessoas.

Os crimes eram cometidos entre as tantas e as tantas, e a prova derradeira e incontornável, era a passagem do comboio numa determinada estação a uma determinada hora.

A literatura universal deve muito aos comboios, sobretudo os contos.

É durante  a viagem de um comboio – ou melhor, trem – que se desenrola aquele que é para mim, porventura um dos melhores contos alguma vez escritos em língua portuguesa, Apólogo brasileiro sem véu de alegoria, de António Alcântara Machado, escritor paulista precocemente desaparecido na casa dos trinta anos,  onde num dado dia 6 de maio, um grupo de passageiros viaja de comboio (de trem!) e vai enfrentando com bonomia e resignação as habituais deficientes condições da viagem. Até que um passageiro cego toma conhecimento de que a carruagem não tem luz, de que viajam às escuras, e então comanda uma rebelião, que quase destrói a carruagem, e que termina com um final belíssimo.

O domínio, ou apenas o controlo, das horas, foi historicamente um dos atributos do poder.

Por exemplo o dos sacerdotes incas, que dirigiam a localização e a construção dos relógios de sol, expostos ao cosmos andino, e depois conheciam o código da leitura e a equivalência entre a inclinação dos raios solares e a parte do dia a que correspondia.

A importância de poder pronunciar solenemente Está na hora, sobre uma massa enorme, que nem antes nem depois, estava, ou voltaria a estar, na posse, daquele conhecimento, ressoava a autoridade.

Uma das transferências mais notáveis desta autoridade, ocorreu com a chegada do povo ao poder com a revolução francesa, e pouco depois com a possibilidade de difusão dos relógios mecânicos.

A vida das vilas e até cidades, passou a desenrolar-se à imagem do correr dos ponteiros ao longo dos mostradores dos enormes relógios instalados nos frontispícios dos edifícios das Câmaras Municipais, e sobretudo do som com que marcavam e anunciavam as horas, as meias horas e os quartos, que vieram substituir o tanger dolente das horas canónicas, que até aí eram dobradas pelos sinos das igrejas.

As Matinas, Prima (mais tarde, Laudes), Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas, que regulavam as orações, o pastoreio dos animais, a abertura e fecho dos estabelecimentos, o deitar e o levantar, e o ciclo do dia na lavoura, deram lugar às vinte e quatro horas dos cidadãos, de onde sobressai a sirene estridente da entrada e largada da fábrica para o operário, ou, para o burguês, o apito da partida e chegada do comboio na estação.

Mas nunca a relação entre comboios e horas foi tão preciosa e sofisticada quando Mr. Albert Einstein, recorreu a ela para explicar (ou tentar) ao comum dos mortais, aquilo que nem os seus pares tinham percebido completamente com o seu artigo “Sobre a Eletrodinâmica dos corpos em movimento”, qualquer coisa como Zur Elektrodynamik Bewegter Körper, submetido àqueles mesmos pares em junho de 1905, e publicado no número de 26 de setembro daquele ano, na revista Annalen Der Physik, ou seja que o intervalo do espaço-tempo de um corpo em movimento contrai-se e reduz de velocidade, uma vez medido no plano ocupado pelo observador.

Julgo que já todos nós lemos, relemos, e fizemos de conta de que percebemos, as observações, explicações e conclusões da teoria de Einstein aplicada à passagem de um comboio e de um relógio por uma determinada estação e depois por outra.  

E no entanto, talvez ninguém no mundo tenha necessitado mais das horas do que os marinheiros. Do registo da passagem do tempo.

A navegação marítima ocupou o século XVIII, e parte do XIX, com a determinação da longitude, ferramenta indispensável para a determinação rigorosa da posição de um corpo, e de preferência de um navio, ao cimo do globo terrestre. Quase em simultâneo, aquela coordenada começou a ser identificada através das horas lidas a bordo das embarcações relativamente às horas medidas num ponto de referência, ou pela leitura do mapa sideral e do posicionamento relativo entre si de determinados corpos celestes.

O relógio, então corretamente batizado como cronómetro, acabou por vencer, pela facilidade de manuseio e fiabilidade de resultados, e pela necessidade de conhecimentos matemáticos específicos impostos pela medição da abóbada celeste, para além disso, impraticável em noites de bruma.

Por esta razão, o HMS Beagle, ao zarpar de Plymouth, em 27 de dezembro de 1831, levava a bordo não apenas um jovem naturalista chamado Charles Darwin, mas 22 cronómetros.

E é interessante recordarmo-nos que quando Robinson Crusoé naufraga, e toca a sua ilha, das primeiras coisas que faz é começar a registar a passagem do tempo no madeiro de uma cruz que constrói e ergue, junto ao local onde tinha aportado.

Assim, não é particularmente de estranhar, que quando os meus tios a meio dos anos trinta do século vinte, decidiram ir de Viana do Castelo a Diu, onde o meu tio foi colocado como governador, e apareceu em casa com os bilhetes da Companhia Nacional de Navegação, para uma viagem que ia começar daí a três dias na foz do  Lima e acabar mais de um mês e meio mais tarde, quinze mil milhas depois, no Índico profundo, a única coisa que a minha tia perguntou foi a que horas é que chegavam.



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