Uma brevíssima brisa de esperança ainda soprou quando o Presidente da República anunciou o plano da sua Passagem de Ano no Corvo, aparentemente, entre outros aspectos, para assinalar e reafirmar a projecção Atlântica de Portugal, mas, se ainda assim, brevissimamente soprou, ainda mais imediata e prontamente passou, se desfez e logo se esvaiu como tão leve quanto breve imaginada impressão apenas, sem força nem mínima real realidade.
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O discurso de Ano Novo do Senhor Presidente da República bem o espelhou e reflectiu: nas cerca de 858 palavras lidas, espalhadas por 19 parágrafos, incluindo a saudação, resultando em cerca de sete minutos de discurso em directo para toda a nação, nem uma única vez a palavra Mar foi proferida, como menos ainda qualquer outra expressão como Mar de Portugal ou Mar sob Jurisdição Nacional, Projecção Atlântica de Portugal, ou seja o que for de equivalente.

Significativo.

Significativo _ e tão mais significativo quanto, encontrando-se o Senhor Presidente da República na Ilha do Corvo, no Arquipélago dos Açores, Arquipélago que sempre deu, e ainda hoje dá, verdadeira projecção Atlântica a Portugal, na confluência de três placas tectónicas, Europeia, Africana e Americana, Arquipélago, inclusive, pelo qual Portugal se tornou na primeira nação do mundo a obter jurisdição sobre uma área marinha para além dos 200 mn, ou seja, para além da sua ZEE, como sucedeu  com a Fonte Hidrotermal de Grande Profundidade, Rainbow, em 2007 (2 215 ha), nenhum destes factos, entre múltiplos outros passíveis de serem igualmente evocados, lhe inspirou quaisquer significativas palavras sobre a importância do Mar, ou do Atlântico, para o futuro de Portugal.

Extraordinário.

Extraordinário _ e tão mais extraordinário quanto, num momento  como o actual, a escassas semanas do passo decisivo do Brexit, nada tenha o Senhor Presidente da República que, não nos podemos esquecer, é igualmente o Comandante Supremo das Forças Armadas, a dizer sobre as consequências da saída da maior potência marítima da Europa, da Potência Marítima e Atlântica da Europa por excelência, da União Europeia.

Quem virá a assumir a actual posição do Reino Unido da União Europeia: França, Alemanha _ ou, em relação ao Atlântico, talvez até mesmo Espanha?

Que andamos nós aqui a fazer?

Nada disso tem importância?

Nada disso tem a crucial importância que efectivamente tem?

Não sabemos e percebemos todos já como o Mar se está a transformar no activo decisivo do Séc. XXI, tanto no que respeita a recursos minerais como alimentares,  sem esquecer a área farmacêutica, nutracêutica e mesmo no âmbito do desenvolvimento de novos materiais, bem como o Atlântico, por tudo isso e múltiplas outras razões,  Geopolíticas e Geoestratégicas, não apenas não se encontra em perda de relevância como, bem pelo contrário, a sua renovada importância não deixa de ser crescente, como não é apenas fácil de constatar por quem sabe olhar o Mundo com olhos de ver como, se mais necessário fora, a reactivação da sua II Esquadra, a ficar sediada na Base Naval de Norfolk, no Estado da Virgínia e sede também do ACT (Allied Command Transformation) da NATO, bem o revela também.

Não são conhecidas as crescentes incursões de submarinos Russos, assim como as não menos crescentes afirmações de interesse e posição geopolítica e geoestratégica da República Popular da China no Atlântico?

Que andamos aqui a fazer?

Queremos desempenhar apenas o papel de meros espectadores passivos de quanto se passa no mundo?

Não temos nada a dizer?

Depois de termos entregue a gestão da Coluna de Água da nossa ZEE à União Europeia, vamos entregar-lhe também a supervisão, toda a Segurança e Defesa das áreas marítimas sob jurisdição nacional?

Que relevância terá Portugal sem Mar?

Como Comandante Supremo das Forças Armadas não cumpriria ao Senhor Presidente da República a obrigação, por uma vez na vida, mesmo em fim de mandato, pensar um pouco em Portugal, na salvaguarda do seu futuro, e referir, chamar a atenção, mesmo que apenas momentaneamente, para a importância do reequipamento e reconfiguração da nossa Marinha, preparando-a devidamente para os decisivos desafios que hoje se começam já a colocar em relação ao Mar?

Não haverá ninguém, entre tantos dos seus mais próximos e leais conselheiros que tenha a generosa bondade de lhe lembrar que ser Presidente da República de Portugal, Nação Marítima por excelência, é cousa muito diferente de ser Provedor da Santa Casa da Misericórdia, como ser tido como como o Mais Alto Magistrado da Nação muito distinto é também da  mais simples função de Mestre-Escola?

Será inevitável: não sabendo tomar conta do Mar que é seu, Portugal caminhará tão rápida quanto inexoravelmente para o desastre ou, no mínimo, para a mais pura irrelevância geopolítica e geoestratégica _ e, muito provavelmente, económica também.

Não é suprema missão do Presidenta da República velar e zelar, acima de tudo, acima de si mesmo e de todos os seus mais directos interesses, pela verdadeira Soberania, Independência e Liberdade da Nação?

E se assim é, nada tem a dizer sobre o Mar de Portugal, a não ser:

«Em suma, esperemos e trabalhemos – repito, trabalhemos e não só esperemos – para um ano de 2020 melhor do que o de 2019. E, porque, nesse trabalho, nesse labor, há, olhando à escassez de recursos, prioridades a determinar, concentremo-nos, em 2020, na saúde, na segurança, na coesão e inclusão, no conhecimento e no investimento.

Convertendo a esperança em realidade.

Será um bom início de caminho para a Presidência do Conselho Europeu no primeiro trimestre de 2021.

Será um acolhedor clima para a Conferência Mundial dos Oceanos que as Nações Unidas, entre nós, promoverão este ano»?

Sim, devemos concentrar-nos «na saúde, na segurança, na coesão e inclusão, no conhecimento e no investimento» como adequada preparação para virmos a receber a Presidência do Conselho Europeu no primeiro trimestre de 2021 e, claro, oferecermos o mais «acolhedor clima» possível à Conferência Mundial dos Oceanos das Nações Unidas que terá lugar em Portugal ainda em 2020 _ cousa de mais suma  importância à Conferência, evidentemente, não deixando nós de sabermos bem quanto tal significa ou pode significar.

Não sabemos?…

Infelizmente, sabemos.

Como foi deixado bem vincado, embora de forma subtil e apenas como subentendido, no fecho da última Oceans Meeting, ao Presidente da República, se activa e expressamente ainda não milita abertamente a favor de um Governo Mundial dos Oceanos, como as Nações Unidas não deixarão de ter em vista, tal perspectiva, porém, não o repugna.

E será exactamente com argumentos como não haver Oceanos mas apenas um só e único Oceano que todos une e todos afecta, com directa e decisiva influência sobre as Alterações Climáticas que, hoje, a todos nós e toda a pobre Humanidade afecta também, sem Plano B, que se acentuará e advogará a urgente necessidade de um Governo Mundial do Oceanos e Portugal ver-se-á progressivamente afastado e desapossado do seu Mar _ seja, antes de mais, nesse enquadramento, em nome da União Europeia, seja lá em nome do que for.

Não, não haja dúvida, quando assim suceder, adeus verdadeira Soberania, adeus verdadeira Independência, adeus verdadeira Liberdade _ Soberania, Independência e Liberdade pelas quais cumpriria ao Presidente da República, antes de mais e acima de tudo, velar e zelar.

Infelizmente, porém, também a muito poucos parece tal realidade verdadeiramente incomodar ou preocupar. Talvez um dia mais tarde, quando, quem sabe, já for realmente tarde demais…

Será esta triste a sina a que estamos irremissivelmente condenados?…

A julgar pelos comentários ao discurso de Ano Novo do Presidente da República entretanto igualmente realizados pelos Partidos Políticas _ dos que haveria ainda, eventualmente, algo a esperar que tivessem a dizer, como PSD, CDS, CHEGA e Iniciativa Liberal _ assim se afigura.

Pelo que foi possível apurar através dos órgãos de comunicação, do silêncio do PSD, o maior Partido da oposição, talvez por o respectivo Secretário-Geral nada pensar sobre Portugal e, por consequência, nada ter a dizer, ao CDS, CHEGA e Iniciativa Liberal, estes irmanados num mesmo tom de crítica ao Governo, talvez esquecidos que o discurso do Primeiro-Ministro fora uma semana antes, limitaram-se a tentar ser mais Marcelo que o próprio Presidente da República, assinalando todos os casos individuais que o Presidente deixou por evocar, fazendo do Presidente não apenas uma espécie grande Provedor da Santa Casa da Misericórdia mas também grande Provedor de Justiça e talvez mas ainda e acima de tudo, o Grande Mestre-Escola da Nação sempre pronto a corrigir e a fazer entrar nos eixos os mais indisciplinados infantes.

Não, infelizmente, o actual problema de Portugal não reside apenas num ou outro foco de insegurança que, provavelmente, existe e deve ser resolvido, mas, mesmo que resolvido esse e todos os demais circunscritos focos de insegurança, como tendo ou deixando de ter o Presidente da República palavras mais ou menos simpáticas para os emigrantes, nada de decisivo se alteraria em relação ao futuro.

Infelizmente, o drama, o grande e actual drama de Portugal, não são todas essas pequenas questões individualizadas, por mais respeito que mereçam, mas a total falta de visão estratégica que permita a Portugal uma efectiva perspectiva de futuro.

Infelizmente, se é inegável a importância da Segurança, mesmo de uma baixa de impostos, o nosso grande, verdadeiro e actual drama é a perfeita inconsciência em que vivemos do que Portugal é e é para ser, como é patente e manifesto.

Exactamente o que o Presidente da República, como ninguém, tinha obrigação de compreender, assim como os referidos partidos também.

Mas não.

E pior do que tudo isso, só mesmo os comentários de muitos dos principais comentadores políticos que se encontram espalhados um pouco por todos os vários órgãos de comunicação, preocupados, mais do que tudo, em especular sobre a recandidatura ou não recandidatura do actual Presidente da República a um segundo mandato e  se os mais famosos 70,33% dos votos conseguidos por Mário Soares na sua reeleição poderão influenciar, ou não, essa mesma decisão de recandidatura do actual Presidente.

Magnífico: a política descida ao seu melhor momento «Pé desmanchado da Luisinha Carneiro», do velho Eça, devidamente actualizado, naturalmente.

Triste sina a nossa, muito triste, de facto…



2 comentários em “O Mar e o Esperado Desastre da Nova Década”

  1. José Patrício diz:

    A única solução será o surgimento de um Novo Partido ( ou um dos novos ) que se afirme Livre dos interesses dos Donos disto tudo , há muito conhecidos e com fatos feitos à medida , para que possamos poupar dinheiro para o empregar onde faz falta.

  2. Jorge Alves diz:

    Li o editorial sobre o discurso do Marcelo e ocorre-me dizer o seguinte:

    No dia seguinte (julgo eu) ao do discurso de que o Gonçalo fala, o Marcelo esteve na sessão da partida da Sagres para mais uma viagem de circum-navegação, celebrando os 500 anos da viagem de Magalhães/DelCano. Se bem que pudéssemos agora pensar que ele teria reservado as declarações sobre o mar para essa segunda intervenção, ao ouvi-la, admito que mais uma vez importantes referências ao mar ficaram esquecidas, ou sub-repticiamente de propósito (o que denota talvez uma falta de propósito), ou por esquecimento (a este nível, não acredito) ou por convicção (segundo a qual não há assumidamente estratégia económico-cientifica para o mar português). Ele falou dos marinheiros, da Sagres, da viagem de Magalhães, tudo o óbvio. Falou no papel histórico do mar para Portugal, o que não sendo despiciendo, hoje, soa a pouco, soa curto, julgo eu. Porque não falou de mais nada relativamente ao mar, nem em portos, em soberania marítima, nem em recursos marinhos próprios. Falou do adquirido, não falou do porvir. Posso não ter captado tudo da segunda intervenção, mas registei isto. É apenas uma reflexão que partilho consigo, depois de ler o seu editorial e de alguns anos a procurar promover o mar no contexto da economia nacional, no âmbito do jornal. Como lhe disse, nem o novo ministro do Mar, pese o seu conhecimento de algumas matérias, deverá alterar o paradigma, pois não é figura política de peso no PS nem no contexto político nacional.

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António E. Cançado
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