O ano que terminou, encerrou com duas más notícias vindas de Inglaterra, e as duas relacionadas entre si: a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE), e a morte de John Le Carré.

O escritor que morreu a doze de dezembro, na sua querida Cornualha, foi sempre um europeísta convicto e combativo, e expressou isto mesmo no seu último livro – que por isso mesmo deve ser guardado nas nossas estantes ainda mais religiosamente que os seus outros – Agente em campo, que retrata a política externa inglesa e os seus mecanismos de atuação, na órbita de Washington.

John Le Carré, fez da espionagem, que agora se chama serviço de informação, um produto cerebral, emocional e cultural, ao ponto de podermos considerar Um espião que saiu do frio, uma das melhores estórias de amor da literatura universal.

Já o abandono da Grã-Bretanha da UE, estava há muito anunciado e preparado, não desde o Brexit, mas desde o dia da adesão do país à Comunidade Económica Europeia em maio de 1967.

Os sucessivos diferentes estatutos que a Inglaterra foi usufruindo no seio da organização, esta também sucessivamente metamorfoseada em princípios, regulamentos, membros e designações, mais do que as típicas excentricidades de John Bull, foram antes resultado de condicionalismos mutuamente criados e aceites entre ambos (UE e Inglaterra) para facilitar a deserção, tão logo a oportunidade se propiciasse.

O jogo europeu, jogado com as atuais regras, e que fazia da Inglaterra um interveniente quase comum, não se coadunava com a história inglesa, que depois de séculos a interferir na política europeia, foi radicalmente influenciada pelos acontecimentos de 1870.

Na Europa nasceu um país chamado Alemanha, o qual aglutinou e formatou os diversos reinos germânicos que existiam para lá do Reno, e que dispondo até àquela altura de uma influência histórica e cultural localizada, que se extinguia uns tantos quilómetros depois das suas fronteiras, ou na confluência das fronteiras dos reinos vizinhos, permitia agora ao novo país assumir o protagonismo europeu juntamente com a França, materializando o pesadelo de Luis XIV, Richelieu e Napoleão.

Com este estado de coisas na Europa, não é mera coincidência que os potentados europeus se virem para o empreendimento colonial em África e no Oriente, numa altura em que a Inglaterra já leva um considerável avanço sobre os restantes, sobretudo fruto do processo e quase desígnio de acautelar ou preservar as rotas marítimas e terrestres que conduzissem à Índia, oferecida por Benjamin Disraeli à sua adorada Rainha Vitória, a partir daqui Imperatriz de um império ultramarino extenso.

Os ingleses sentiram-se sempre tão bem dentro do seu império como dentro dos contos de Somerset Maugham, sobretudo quando as vicissitudes da política na Europa, assente numa engrenagem perversa de alianças, os obrigou já no século XX a lutarem ali, em duas guerras mundiais, em 1914-1918, e 1939-1945, sobretudo na primeira delas.

Winston Churchill, outro grande, e porventura, último imperialista britânico, e simultânea e paradoxalmente, um europeísta confesso, como resultado das consequências do último conflito ocupou-se a elaborar e redigir um projeto de união europeia, com a sua meticulosidade organizativa e principalmente com a sua verve literária, que o ia conduzir ao Prémio Nobel da literatura, produzindo um compêndio recheado de particularidades, a derradeira das quais foi acrescentada ao final.

A Inglaterra ficava de fora.

O regulamento aplicava-se apenas aos autóctones do lado de cá do Canal, porque a Rule Britannia, permaneceria nos mares do globo, partilhada sempre que necessário com a potência da moda, e previa-se, do futuro, que era a América.

Um episódio semelhante tinha ocorrido com os próprios Estados Unidos, em 1919, logo no rescaldo da primeira guerra mundial, e como consequência das diversas conferências internacionais, com destaque para a de Versalhes, que pretendiam reparar as injustiças ainda latentes, e principalmente criar os mecanismos que impedissem que outas, com os mesmos mecanismos de resolução, voltassem a ocorrer no futuro.

O grande entusiasta disto foi o presidente norte-americano Woodrow Wilson, que elaborou os célebres catorze pontos reguladores da política mundial, onde se alicerçou a Sociedade das Nações, capazes de produzir a paz eterna, e a que as nações do globo aderiram, com raras exceções.

Uma delas a dos Estados Unidos da América, fruto da rejeição do seu Congresso àquele articulado.

Sabemos que o ano que agora se inicia, com a presidência portuguesa da UE, ainda permite a partilha do mar inglês com a União, com destaque para a pesca, e com graduais alterações durante algum tempo mais, mas mesmo atualmente, será grande o impacte do abandono da Inglaterra do mar europeu, seja lá o que isto realmente seja, competindo aos restantes membros que permanecem no projeto, como o nosso país, estar atento às implicações geradas, acautelar interesses, e naturalmente, se possível, recolher dividendos originados pela janela de oportunidades.

A política de defesa, nomeadamente na vertente marítima, será outro cenário onde existirão mudanças, sobretudo ao nível da NATO, e no diálogo agora diferenciado da UE e da Grã-Bretanha com a organização. E Portugal, pela forma prestigiante, com destaque para a nossa Armada, com que já assumiu tarefas e cargos de responsabilidade e importância relevantes ali, pode beneficiar dos novos procedimentos de defesa europeia.

Temos sincera mágoa por John Le Carré já não nos poder explicar naquela forma tão deliciosamente sua, qual a estratégia a adotar pelo Circus para os novos tempos que vêm aí.

Pela nossa parte, ao nível doméstico, também desconheço se vai permanecer válida uma estória contada relativa aos meandros mais ou menos subterrâneos do nosso sistema de informações, onde uma operação bem-sucedida fez chegar até nós um relatório detalhado de uma organização estrangeira de informações, com interesses não inteiramente coincidentes com o dos portugueses.

Analisado pela sua importância por todo o governo da altura, ficou célebre o despacho do então ministro das finanças.Os espiões deles ganham menos do que os nossos



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